A história no cimo e na base

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Saulo Barbosa
Graduando em História pela UFS (3º período)
Bolsista no PIBID História da UFS

Enquanto esperava o iníco de minha aula de Karatê lia O grande massacre de gatos . Um dos meus colegas de treino, que cursa o ensino médio, se aproximou para ver o que eu lia. Quando viu o título fez uma cara de espanto e perguntou: sobre o que trata o livro? Eu não estava interessado em levar a conversa adiante e me saí com uma vaga e evasiva resposta: "É um livro de história, lá da Universidade…". O garoto reagiu de maneira inusitada: "Massacre de gatos?! Ora, como pode um livro de história se chamar O grande massacre de gatos? Se fosse O grande massacre de gente… mas de gatos?". Fiquei sem reação por um momento e, então, comecei a falar sobre o livro. Expliquei como Darnton usa o massacre de gatos para reconstituir parte do mundo dos tipógrafos franceses no século XVIII: seus rituais, suas relações sociais, seu cotidiano, etc. Quando terminei ele disse "Ah…entendi. Legal… muito interessante.". Mas, disse isso com uma cara de quem não tinha entendido muito ou, se tivesse entendido, não dava muito valor a esse tipo de história.

Episódios como esse são bons para fazer refletir e, desde então, tenho pensado sobre ele. Cheguei a conclusão que a reação do meu colega é indício da distância entre a história acadêmica e a história ensinada nos níveis básicos.

Durante o último século a disciplina histórica passou por mudanças profundas. O advento da escola dos Annales, da história cultural e de outras perspectivas historiográficas abriu um leque imenso de novos objetos de estudo. Além da tradicional história política e socioeconômica surgiram, dentre outras, as histórias do cotidiano, das mentalidades e até a história do tempo presente. Isso permitiu o surgimento de obras que tratem de assuntos como o massacre de gatos ou um moleiro italiano do século XVI (O queijo e os vermes, Carlo Ginzburg).

Porém o ensino de história na educação básica ainda é, predominantemente, calcado no tradicional tripé: política, sociedade e economia. O ensino de história parece congelado. Afirmo isso a partir da minha própria experiência escolar. Antes de ingressar na academia tinha uma idéia completamente diferente da história, algo parecido com a do meu colega de karatê.

A história ensinada nos níveis básicos está, ao meu ver, muito distante dos alunos. Pois lhes dá a sensação de que eles são meros espectadores. O resultado é o desinteresse e a falta de compreensão da disciplina. Pior, o aluno não vê sentido em aprender história. Não vê sentido pois não se sente atingido na história ensinada em sala de aula. Essa história muito cheia de "grandes homens", "grandes acontecimentos" e quase nada da gente comum e sua cultura. Reconheço que há tentativas de aproximação entre a história da academia e a da escola. Infelizmente ainda são insuficientes para mudar esse quadro.

Penso que a introdução das "novas histórias" em sala de aula, que já nem são mais tão novas assim, irão contribuir para solução desse problema. Não sugiro abandonar as abordagens tradicionais, pois estas são tão válidas quanto as "novas". Proponho a integração. Todavia, já é hora de fazer com que os alunos do ensino básico entendam que um massacre de gatos pode ser tão significativo quanto guerras e revoluções, que o homen não é só político, social e econômico. Mas é também um animal simbólico, cultural.

É urgente que a história fabricada no cimo da pirâmide educacional chegue a base.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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