A ideologia na política externa

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A política externa tem ganhado grande destaque dentro dos debates presidenciais e políticos dentro da sociedade brasileira. O interesse pelos temas concernentes a posição do Brasil no mundo ganhou acalorados debates dentro da mídia, da academia e da literatura, em especial por conta do que fora classificado dentro dos anos 2000 como a “ascensão do resto” ou a onda dos emergentes, particularmente pela atenção dada internacionalmente aos BRICS. Entretanto, ao mesmo tempo em que o debate avançou em termo de difusão e circulação, o crescimento inevitável da polarização perante as diretrizes políticas do antigo partido no governo e o atual ofuscaram alguns pontos-chave sobre como é formulada a política externa, tendo entre alguns comunicadores a generalização de que a política externa petista era “bolivariana-socialista” e a do momento atual como “entreguista” ou, para os que apoiam o governo, “ pragmática”.

O posicionamento radical dentro de um debate acerca da política ofusca importante parte dos pontos de análise e senso crítico que se deve ter ao se discutir o tema, seja em âmbito pessoal, acadêmico ou em disputas políticas. Se em políticas públicas que a discussão é comumente circulada na sociedade- segurança, saúde, educação- há certa consciência de que é formulada pelo governo e seus ideais, quando por vezes é tratada a política externa se tem a impressão de que é uma política de Estado, e não de governo, em um sentido de que puramente tem de servir ao “interesse nacional”. Essa miopia de argumentos teóricos mais clássicos e de reforço de um nacionalismo ufanista desvirtua os argumentos daqueles que produzem e comentam política externa, fragilizando suas acusações a seus opositores com os adjetivos citados no parágrafo anterior. O ponto que aqui se expões é que, como a essência de toda política, a política externa é fruto de coalizões, interesses e ideologias compostas pelos grupos e elites dentro da burocracia estatal e sua circulação com os entes da sociedade com o qual estão coligados.

Em se tratando, portanto, do Brasil, é necessário reconhecer quem são esses agentes de política externa e como se arranjam dentro do governo, moldando suas agendas e paradigmas. É inócuo acusar o governo petista, por exemplo, de “comunista” ou “apoiador de ditaduras” quando, em certos pontos, financiou e promoveu ações empresarias brasileiras na América Latina e na África, proporcionando o aumento do número de câmaras de comércio no globo, independentemente do regime do governo em que se instaurava relações diplomáticas. Ao mesmo tempo, é improdutivo taxar o posicionamento do atual governo perante o MERCOSUL ou países seu posicionamento acerca dos temas de comércio de comércio como “pragmáticos” quando o discurso é pautado por uma carga ideológica voltada a um modelo de integração econômica mais aberta e menos social. A questão correta a se fazer é se perguntar e buscar que grupos ganham com tais práticas, com tais parcerias e com certas organizações. Ou seja, quem são os grupos de interesse atrelados a essas políticas e como se organizam para tal, já que os agentes justificam suas ações como importantes para a “nação”.

Reconhecer tais elementos é fulcral dentro do momento de ebulição social, econômica e política que o país passará dentro do ano eleitoral de 2018. Por mais que o momento de crise tenha diminuído a atenção e discussão perante a política externa do país, é certo que pontos concernentes à mesma serão tratados dentro dos debates presidenciais a serem realizados. Entender para além das acusações pessoais e adjetivos de fácil generalização são um primeiro e importante passo para a compreensão mais ampla e pública no debate do que é o Brasil no mundo.

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