A INTELIGÊNCIA DO MANOEL

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Caros amigos de Sergipe:

Estou construindo um pequeno prédio de apartamentos na aprazível cidade de Cascais. O objetivo do investimento é, evidentemente, obter uma renda extra com a locação das referidas moradas aos bons inquilinos que hão de vir após a tão aguardada conclusão da obra.

Esta semana, porém, a empreitada teve que ser interrompida temporariamente por força de decisão judicial. Ocorre que Manoel, um dos meus pedreiros prediletos e dono de uma inteligência privilegiada, foi vítima de um grave acidente de trabalho.

A indenização reclamada à seguradora ficou bastante alta e a companhia entrou na Justiça alegando ‘uma enorme quantidade de fraturas, jamais dantes vistas em um mesmo acidente’.    

O sinistro aconteceu após o gajo verificar que ao término da sua jornada de trabalho haviam sobrado 250 quilos de tijolos no sexto andar, onde estava trabalhando naquele dia.

Manoel teve então a brilhante idéia de colocar todos eles num mesmo recipiente, no caso um barril que estava no térreo. É importante esclarecer que o gajo estava sozinho naquele momento e que havia uma corda com uma roldana na parte externa da construção, usadas normalmente para o transporte da argamassa com a qual são assentados os tijolos.

Manoel então desceu ao térreo e amarrou a corda no barril e subiu para o sexto andar de onde  puxou  o  dito cujo para  cima,   colocando  os  tijolos  no  seu
interior. Retornou em seguida para o térreo, segurou a corda com força, segundo ele “para que os tijolos descessem lentamente”. É importante esclarecer que o peso do gajo oscila  em  torno de 80 quilos.

Surpreendentemente, porém, sentiu-se violentamente alçado do chão e perdendo sua característica presença de espírito, esqueceu-se de  largar  a corda. Acho desnecessário  dizer que  o pobre homem foi içado  do chão a grande velocidade. Nas proximidades do terceiro andar, deu de cara com o barril que vinha a descer. Resultado: fraturas no crânio e nas clavículas.
Manoel continuou a subir a uma velocidade um pouco menor, somente parando quando os seus dedinhos ficaram entalados na roldana.

Felizmente, nesse momento o gajo recuperou a sua presença de espírito e conseguiu, apesar das fortes dores, continuar agarrado à corda. Simultaneamente, no entanto, o barril com os tijolos caiu ao chão, o que partiu seu fundo. Sem os tijolos, o barril pesava aproximadamente 25 kg (novamente lembro-lhes o peso do gajo).

Como podem imaginar, a anta comecou a cair vertiginosamente agarrado à corda, sendo que  próximo ao terceiro andar, quem o encontrou? Isso mesmo, o barril, que vinha a subir. Resultado: fraturas nos tornozelos e lacerações nas pernas. Felizmente, a redução da velocidade da descida, veio minimizar o sofrimento da cavalgadura, que caiu em cima dos tijolos, o que lhe causou apenas a fratura adicional de três vértebras.

No entanto, lamentavelmente houve ainda um pequeno agravamento do sinistro, pois quando Manoel se encontrava caído sobre os tijolos e vendo o barril acima dele, perdeu novamente a tão decantada presença de espírito e largou a corda. O barril, que pesava mais do que esta, desceu e caiu em cima dele partindo-lhe finalmente as pernas.

Como empregador do pobre diabo, estou arrolado como testemunha e como tal, devo confirmar a sua versão. Mas afinal, diante de tamanha inteligência quem haveria de negar seus argumentos? Haja presença de espírito!

Até semana que vem.

Um abraço do

Apolônio Lisboa

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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