A melhor lição

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Um amigo perguntou-me qual tinha sido a melhor lição que tive na minha vida, ou seja, pelo que entendi, ele gostaria de saber qual foi a situação que pode ter alterado, para melhor, a minha trajetória como pessoa e que ainda hoje lembro e sou grato.

Em resposta, fui evasivo pois, como é natural, foram várias, muitas mesmo, isso acontece com todo mundo. A nossa formação é construída de pedacinhos, de lições e mais lições, de exemplos e mais exemplos, de erros e mais erros e, de acertos e mais acertos, também. Todos sabemos disso, é assim que se constrói uma personalidade, é assim que se forma um cidadão.

Se durante esta caminhada recebemos e valorizamos boas lições, bons exemplos e, sabemos também, lidar com os erros e com os acertos que cometemos, certamente teremos boas perspectivas.

Mas, é verdade também afirmar, que algumas destas lições nunca esquecemos. Elas tiveram, no passado, muita relevância, continuam muito úteis no presente e, de tão importantes, projetam-se para o futuro como um referencial que nos guia.

Eu, igualmente a todos, tive várias e, por causa da provocação deste meu amigo, vou contar uma. É, na verdade, uma pequena história acontecida em 1975, naquela época, eu era sócio de um irmão de minha noiva e atual esposa. Nós éramos felizes possuidores de um Taxi, fusca, amarelo colonial, ano 1972. Trabalhávamos os dois, naquele carrinho: um durante o dia e o outro no turno da noite.

Entre as corridas que fazia levando e trazendo passageiros, fui contratado por um senhor, de aproximadamente, sessenta anos para, toda sexta-feira, pegá-lo na sua casa, situada num determinado conjunto habitacional de Fortaleza e levá-lo à residência de sua filha no outro lado da cidade e trazê-lo de volta a sua morada, na tardinha de domingo.

Eu gostava muito daquela corrida, pois rendia um dinheirinho bom e, na ida, conversava muito com aquele senhor, ele era um bom papo, sempre muito atento e, pacientemente,  escutava o que eu dizia e isso me agradava, pois todos sabemos que muitos falam, falam, falam, porém, não sabem ouvir. Ele escutava atenciosamente e, ao final, sempre dava sua opinião aconselhando; a única coisa que ele se recusava era falar sobre ele mesmo, fechava-se em copa,quando eu tentava perguntar algo a respeito de sua identidade, dizia que era irrelevante e mudava de assunto. 

Para os mais moços é bom esclarecer que naquela época vivíamos sob o império do regime de exceção e que os direitos individuais quase não existiam, talvez por isso, ele resguardasse tanto a sua vida pessoal. Na verdade muitos faziam isso, era temerário andar por aí declarando quem era e o que fazia.

Como afirmei estes diálogos só aconteciam na viagem de ida, de sua residência, para a casa da filha, na volta ele vinha sempre bêbado e totalmente transtornado, era grosseiro e rabugento, não aceitava conversa nenhuma. Sentava no banco de trás, encostava-se à lateral interna do carro e, entre dormindo e acordado, de vez em quando reclamava de alguma coisa.

Quando chegava a casa sua esposa já estava na porta, como de prontidão, para recebê-lo com um feliz sorriso, era gostoso ver o carinho, a atenção e o cuidado com que ela o recebia. Eu que sempre gostei e gosto ainda de ver casais que se amam, que vivem em harmonia achava aquilo o máximo, ele, só resmungava e reclamava de tudo, ela perguntava pela filha, pelos netos e se ele tinha sido bem tratado pelo genro, se tinha tomado o remédio…  Essa cena foi por mim testemunhada por muito tempo. Sinceramente, eu achava lindo o comportamento daquele casal, sobretudo, a forma como aquela senhora tratava seu esposo.

Num certo domingo, – que pena que não lembro com exatidão daquela data, ela foi muito importante para o resto da minha vida, – quando o peguei, naquele local que acreditava ser a residência de sua filha, percebi, pela primeira vez, que aquela não era, na verdade, casa de sua filha coisa nenhuma, era sim, onde residia a amante do velhote. Concluí, neste instante, que durante todo aquele tempo o velho mentia: dizia que ia para a casa da filha e, de fato, seu destino era a casa da outra. Fiquei chocado quando ela, sua amante, pela primeira vez veio deixá-lo a porta do carro, beijou-o e disse com aquele ar de mulher vulgar, “nem pense naquela proposta viu! Quero-o aqui, na próxima sexta-feira, sem falta! E, virando-se para mim disse: “esteja na casa dele sexta-feira na mesma hora!”Ele, meio tonto, calado estava, calado ficou. Entrou no carro silencioso, encostou-se, do mesmo jeito, na lateral interna do fusca, fechou os olhos e disse com voz quase inaudível: “vamos”. Dei boa tarde para mulher que ainda estava próximo e saí. Depois de muito andar ele, ao que parece, acordou, falou algo, como que conversando para ele mesmo, que eu não entendi e, quando já estávamos quase chegando à sua casa, eu caí na besteira de verbalizar o que estava sentindo, disse:

– Eu pensava que estava lhe levando,  todo esse tempo, para visitar a sua filha, porém, ao que parece o senhor vai para a casa daquela senhora, o senhor acha isso correto? Sua esposa sabe disso? Essa sua atitude não lhe incomoda? Não dói na sua consciência?

Falei o que não devia, magoei o meu passageiro que pareceu recuperar-se imediatamente da ressaca e gritando forte, ordenou que parasse o carro. Neste instante pensei que ele ia apelar para a violência física, por sorte ficou só na bronca:

– Você não viu nada, minha mulher não sabe de nada, você não tem nada a ver com isso, portanto, não se meta, pois você sequer sabe com quem está falando, para sua informação vou me identificar: eu sou Coronel do Exército, se você falar alguma coisa para a minha esposa eu vou lhe encontrar, viu? Vou lhe encontrar, embora seja no inferno, mas eu lhe acho e posso assegurar que você não vai gostar de me ver de novo.

Fique desesperado, mas, mantive a calma, pedi desculpas e o tranquilizei dizendo que jamais falaria desse assunto para ninguém, pedi que ele me perdoasse a intromissão e a inconveniência.

Aí, inesperadamente, ele mudou de prosa e de comportamento; falou que aquela situação muito o afligia e que estava tentando resolver, porém não era tão simples assim. Que ele tinha entrado “naquela” num momento de fraqueza e, que agora, não estava conseguindo sair facilmente, inesperadamente, pegou na minha mão e perguntou:

– Você é casado?

Falei que não, que estava me preparando para casar no ano seguinte.

Ele disse:

– Quando você casar tenha muito cuidado, nunca entre numa situação igual a essa que eu estou metido, seja forte e evite isso só faz a gente sofrer e fazer os outros sofrerem também, tenha cuidado, seja vigilante, não caia nessa tentação, isso é muito bom no início, mas, é um problemão difícil de resolver… Nunca entre nessa.

E, continuou:

– Sim, outra coisa, você tem de deixar essa profissão, isso não é uma boa atividade para uma pessoa como você, vá estudar, e, assim que puder largue esse volante, vá dirigir o seu automóvel, não fique a vida toda nessa profissão, vá estudar para ter um futuro melhor, pois essa profissão é muito boa como passagem para outra, não para a vida toda, você é jovem, tem tempo, é saudável, inteligente, estude, siga uma carreira melhor, tudo depende de você. Espera aí, vou lhe dar um presente.

A esta altura, já estávamos em frete a sua casa. Ele saiu trambecando, apoiado na sua velhinha e voltou pouco tempo depois com um livro na mão, me entregou repetindo a seguinte recomendação:

– Largue isso, vá estudar, leia esse livro e vá fazer outras coisas mais interessantes. Este não é trabalho bom para você. Você pode fazer coisas melhores…

E, saindo, como que conversando com a esposa dizia:

– Um rapaz tão inteligente, trabalhando num taxi…

Recebi o livro, agradeci, saí dali doido para dar uma olhadinha. No primeiro ponto, – lembro ainda, uma praça onde ficavam alguns taxistas aguardando passageiros, estacionei o fusca e, ali mesmo, iniciei ler aquelas lições que de fato alteraram em muito, para melhor, a minha auto-estima, o meu comportamento, a minha fé em mim mesmo, a minha vida como um todo. A leitura daquele livro, o qual tenho até hoje, me fez ver o que eu não via, fazer o que eu não fazia, agir como eu não agia e confiar no que eu não confiava. Confiar, sobretudo, em mim mesmo.

Respondendo agora, ao meu amigo Diego, eu posso afirmar que entre muitas, esta foi uma das melhores lições e oportunidades que tive na minha vida.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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