A memória de Manoel Cabral Machado

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Os neurocientistas consideram a memória como o melhor marcador biológico para o envelhecimento. O aparecimento da amnésia acontece naturalmente com o passar do tempo, podendo ser agravada por fatores como o estresse, a depressão, a dependência de drogas como o álcool, doenças degenerativas ou traumatismos. Mas quanto mais preservada a memória, mais ativo e produtivo é o homem que a retém. E, para preservá-la, melhor afastar-se dos fatores de risco e fazer uso constante do cérebro com atividades que “exercitem” os neurônios, como ler, escrever, pesquisar, aprender.

É possível que a vida regrada e o exercício permanente das atividades cerebrais expliquem a memória privilegiada de Manoel Cabral Machado. Uma das últimas demonstrações oferecidas por ele quanto à capacidade de conservar e lembrar as experiências passadas está registrada em um vídeo inédito, gravado em junho do ano passado, quando o professor já contava 91 anos de vida, caminhando para os 92. Morto na terça-feira passada, Cabral Machado nasceu no dia 30 de outubro de 1916.

O vídeo, uma longa entrevista de 40 minutos, foi produzido e gravado pelo professor de História e Direito Ambiental do Cefet, José Augusto Araújo — certamente um parente distante, como o homenageado gostava de lembrar; com muita certeza um dos muitos admiradores próximos. Zé Augusto contou com a ajuda do filho, Leonardo Augusto, dono de uma pequena produtora, que fez um trabalho profissional. O vídeo bem que poderia ser editado e veiculado pela TV Aperipê.

Praticamente de um fôlego só, Cabral Machado resume como se deu a sua formação intelectual e política. Memória prodigiosa, cego já há uma década, ele recorda não só das datas exatas, mas também dos nomes dos mestres e dos colegas, dos cargos que ocupou e com quem trabalhou, dos partidos políticos, do navio que o levou ao Rio de Janeiro logo depois de formado na Faculdade de Direito da Bahia em 1942, do hotel onde ficou hospedado…

Cotejando as informações gravadas no ano passado com outras que ele mesmo apôs nos livros, como “O aprendiz de Oboé”, um livro de reminiscências pessoais de 2005, ou ainda o depoimento que prestou ao jornalista Osmário Santos, publicado neste JC e depois republicado no livro “Memórias de políticos de Sergipe no Século XX”, de 2002, percebe-se o quanto são coerentes as informações passadas pelo velho mestre.

 

FILHO DE UM MÉDICO DE BREJO GRANDE e de uma herdeira da família Cabral de Capela, Manoel Cabral Machado nasceu em Rosário do Catete e foi criado na Capela, que considerava o seu verdadeiro torrão natal. Depois de bacharelar-se em Direito na Bahia, ocupou diversos cargos na administração pública, onde se iniciou como secretário do prefeito de Aracaju José Garcez Vieira, passando pelo governo de Sergipe, onde foi diretor do Serviço Público a convite do secretário Francisco Leite Neto, no governo Maynard Gomes, secretário da Fazenda e secretário chefe da Casa Civil no primeiro governo José Rollemberg Leite, secretário da Educação no governo Celso de Carvalho e procurador geral no governo Antônio Carlos Valadares.
Militante político, foi simpatizante do integralismo antes de, influenciado por Leite Neto, filiar-se e tornar-se um dos líderes do Partido Social Democrático (PSD), tendo sido deputado estadual por três legislaturas, quando ocupou a liderança governista no governo Arnaldo Garcez e da oposição nos governos Leandro Maciel e Luiz Garcia. Chegou a vice-governador do Estado no governo Lourival Baptista, conselheiro e primeiro presidente do Tribunal de Contas de Sergipe. Já aposentado, foi diretor do Departamento Jurídico do Tribunal de Justiça nas gestões de Luiz Rabelo Leite e Clara Leite de Rezende, de onde se retirou quando se agravou o problema da cegueira.
Professor fundador de quatro faculdades (Ciências Econômicas, Direito, Filosofia e Serviço Social), que se constituem no núcleo inicial da Universidade Federal de Sergipe, teve importante participação nas discussões de fundação da instituição como secretário de Estado da Educação, chegando a ser um dos seus professores eméritos.
Cronista, ensaísta, poeta, cientista, ficcionista, palestrante e eloqüente orador, colaborou em jornais, especialmente o JORNAL DA CIDADE, onde publicou o último artigo, sobre o conselheiro Juarez Alves Costa, texto que encerrou uma série sobre antigos conselheiros do Tribunal de Contas do Estado. Cabral Machado também era membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Brasileira de Ciências Sociais.

A vida inteira apaixonado pela capelense Lourdinha, com quem teve cinco filhos, homem conservador, católico fervoroso, no depoimento a Osmário Santos, ele considera que “há duas atividades importantíssimas no homem: primeira, a atividade religiosa; segunda, a atividade política, que é o homem servir ao seu próximo, ao seu irmão”. Todos que o conheciam sabem o quanto isso é verdadeiro, que ele fazia política à moda antiga, com honestidade rara nos dias de hoje.

Só faltou falar sobre a importância do exercício intelectual, atividade certamente tão natural a ele, que a praticou sempre, por isso sem necessidade de nomeá-la. Mesmo cego, Cabral Machado não parou de “ler” nem de “escrever” nunca. Secretárias liam, ele ouvia e, com sua memória prodigiosa, elaborava na cabeça os textos e os ditava para elas as palavras a serem ordenadas na tela do computador e depois impressas no papel.

Ele acreditava tanto que isso um dia fosse acontecer que deve ter reencontrado a sua Lourdinha querida e agora deve estar passeando de mãos dadas com ela.

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