A morte como espetáculo

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Nos últimos anos, algumas semanas têm sido difíceis de digerir, esta, certamente foi uma delas. Antes de falar sobre um caso específico, quero destacar que a morte não é banal, apesar de natural. Todo ser humano merece ser dono de seu próprio corpo e preservá-lo de violações sociais ao longo da vida e da morte. Dito isto, trago, infelizmente, não da maneira que gostaria, uma continuação do assunto da semana passada, em que escrevi sobre a morte e o sensacionalismo em torno dela.

No dia 23 de fevereiro, nesta semana, morreu por complicações renais, a cantora Paulinha Abelha, simaodiense e uma das vocalistas da banda Calcinha Preta. Desde a sua internação, a imprensa tem feito uma cobertura detalhada sobre o caso. A repercussão ganhou tamanha dimensão, que a equipe de médicos do hospital onde a cantora estava internada teve que realizar uma coletiva de imprensa para acabar com especulações e notícias falsas acerca da internação da artista. Vale ressaltar que as notícias falsas e os rumores capciosos vieram de redes sociais que realizam coberturas não jornalísticas de eventos e acreditam que uma internação decorrida de morte é um evento a ser exibido com todos os seus detalhes.

O corpo de Paulinha Abelha tornou-se público. Dois velórios longos e abertos ao público de Aracaju e Simão Dias, cobertura jornalística no local, muitas fotografias da cantora no caixão, cobertura de páginas de redes sociais solicitando dinheiro para continuar a fazer as lives do velório na cidade de Simão Dias, público ansioso para saber quem estava sofrendo mais, quem foi, quem não foi, histórias, cantoria, homenagens, muitos aplausos, cortejo lotado, comoção coletiva.

Mas Paulinha Abelha, a musa do forró, era também Paula de Menezes Nascimento Leça Viana, filha de uma mãe que não aguentou velar e sepultar seu corpo, de um pai acamado, cuidado com muito zelo por ela, a primogênita de 3 irmãs, que ainda não sabe sobre a sua partida, irmã, sobrinha, tia, prima, esposa, nora e amiga de pessoas que neste momento calaram junto com sua voz, tamanha foi a dor de despedir-se de quem se ama. E essa Paula pode ser qualquer uma de nós, com laços familiares, histórias e aventuras de infância, a colega de escola, a vizinha.

A curiosidade é sedutora, mas nem sempre respeitosa, e tamanho desprezo aprendemos a ter pela vida, que banalizamos as mortes de pessoas comuns quando não nos chocamos com a quantidade de pessoas assassinadas em confrontos, mortas em enchentes ou até mesmo as vítimas da COVID-19. Banalizamos também as mortes de pessoas públicas, sejam acidentais, como o caso recente da também cantora Marília Mendonça, ou em decorrência de complicações de saúde, no caso de Paulinha.

Um corpo, público ou anônimo, carrega consigo uma trajetória, construção de vida, e mesmo para quem acredita que um corpo é só um corpo, matéria que se decompõe um dia, deve ter seu momento de partida preservado com cuidado, assim como o momento de sua chegada. Sabemos que o bizarro é sedutor, a curiosidade atiça, o improvável e as teorias conspiratórias tornaram-se fetiche de mentes sedentas por histórias espetaculares de mortes, desde que não seja a sua. O que vale no mundo dos likes é a velocidade da informação e a publicização de uma vida que também existia de maneira privada. Afinal, quanto vale o espetáculo?

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