A morte de Marielle.

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Há homens que matam.

Dizem que são covardes. Ledo engano.

São indivíduos perigosos e devem ser evitados, por temidos.

Já os covardes, estes nunca serão temidos nem perigosos. Eles representam a grande maioria, onde estou inserido também.

Alguns, e este não é o meu caso, exibem sua coragem em verborragia mássica em rebeldia, com grito esganado em que o pusilânime posa em desvario.

Na passeata por exemplo, urrando palavras de ordem, sempre repetem moucas rimas, em coros roucos quão vazios.

Palavras ocas e baldias, enquanto ideais algaravias, inútil crocitar de harpias, esganado e esganiçado, a reivindicar responso de muita paulada por resposta de razia.

Quem perquirir o passado amiúde, constatará que nunca se apanhou tanto neste país como resposta ao grito inútil de que “O povo unido jamais será vencido”!

Agora, alguns deste mesmo povo estão desgoelando-se que “Luto é luta!”

Luta de quem? Luto de quem? Pergunta o cidadão comum brasileiro, que repete em soberbia, até por indiferença corriqueira: “Defunto que não conheço, nem rezo, nem ofereço”.

No âmago de tudo isso, “a morte de um homem me diminui”, como dizia John Donne, para quem inútil era perquirir o dobre dos finados.

Segundo Donne e Hemingway que o reverberou, os sinos dobrariam por mim, por você, por Marielle agora, e por toda a humanidade para sempre.

Mas, não é bem assim que se deseja na luta convocada pelo luto.

Segundo estes, a morte de uma mulher negra, favelada e lésbica tem que ser mais pranteada.

“Que morram sem lágrimas quem não se classifique assim!” Parece ser o corolário do mote desta luta política.

E assim por sequência e consequência, nós, por maioria, não mereceríamos luto, nem luta.

Nem o dobre de sinos.

Sejamos carpidos, se merecermos, como cidadãos apenas.

Não somos apenas um RG, um CPF, um eleitor desprezível a menos? Um dado estatístico a ser deletado e esquecido, uma “carne de canhão”, inútil despojo de labuta cotidiana?

Não somos esta mediana maioria tão amorfa e desprezível que se faz paisagem de tão amoldável à vida, arando, plantando e colhendo a subsistência necessária?

Carecemos de algum luto, para merecer qualquer luta?

Nós, seres comuns, que até heterossexuais persistimos, desabridos ao desabrigo?

Lutar pelo comum?

O comum não é nada, ora essa!

À parte tudo isso, o comum é o todo; senão o tudo, eu, você, o continente, pelo menos, o que incomoda e precisa a ser fustigado.

Somos o que chora e se bestifica até pelo que não nos é espelho.

Choramos como Donne pela humanidade em cada cadáver apodrecido, mas chora-se mais e melhor perante o despojo de uma mulher negra, favelada e lésbica. Alguém que se fez alvo e destino de ódios terríveis, mas previsíveis, afinal alguns homens nas suas lutas escolhidas ousam o insano, por excesso de coragem.

Coragem sim! Jamais covardia!

Covardia só exibem os amorfos; os amornados. Aqueles vomitados até pelo Evangelho, por não serem quentes nem frios.

Ah, não, a morte da vereadora carioca foi um ato de covardia”, repete o tolo exasperado com o gesto tresloucado de plena ousadia.

Felizmente, e infelizmente também, há homens que matam! Eis a grande verdade! Para o bem e para o mal!

Quem no âmago de si próprio não louva o bom assassino a mando “de nossas ‘nobres causas!’”

A sociedade é que não deve ceder à sanha do matador comum, a soldo nosso ou de qualquer um.

Para isso existe a Lei, a comum convenção para repúdio e prevenção, sem os quais não há controle nem segurança, nem regra e cidadania.

Por acaso isso é suficiente a ponto de não se louvar o bom matador, por tocaia e pontaria, e até o camicase terrorista que se imola quando o “Estado de Direito” se desmoraliza por ineficiência e corrupção?

Chamêmo-los de sicários e covardes, em maioria, mas que nunca se pense que não sejam aplaudidos também. E que terrível! desejados!

Não fosse assim, nunca seriam tão requisitados e bem remunerados.

Recentemente, como prova jocosa deste ensejo, recebi um desses escrachos, via internet.

Vinha da guerra política, para quem não basta vencer; vale matar para eliminar o adversário.

Recebido via internet.

Para estes o ex-presidente Lula merece as balas de todas carabinas, dos fãs e sobretudo daqueles afãs de tudo.

Recebi também um outro retrato, na mesma linha culposa, invocando por ira divina, uma bomba caseira doidivana, um ataque ao parlamento ou ao supremo tribunal, sem nenhum lamento ou pranto, em desejo mais que amplo, mal almejo em mesmo arpejo parecido ou quase igual.

Veja-se a nova figura, e sejam tomadas as conclusões entre juras e desejos, enquanto dolo sem crime.

Recebido via internet, sem pedir, nem desejar.

Sempre mais à esquerda! Por demais direita!

Há realmente muito desejo desse tipo. São pessoas que pensam igual aos ratos quando planejam por um guizo no pescoço do gato.

Falta-lhes, porém, muita coragem.

Esperam despertar os corajosos, os ousados e destemidos.

Porque só os que ousam matar são realmente corajosos, tanto para matar como para morrer, embora se diga o contrário, sobretudo nos discursos vazios.

À parte isso os ataques terroristas se sucedem e a história é mestra e memória, sempre alarmando o comum cidadão, aquele detentor de ralo suspiro por carpição.

Tenha-se medo desses ataques e sobretudo desses desejos.

Há indivíduos capazes de tudo, num mundo repleno de incapazes, quando não de tolos.

Caio Júlio Cesar, o grande tribuno romano, foi assassinado por corajosos e valorosos cidadãos nos idos de um mês de março na antiga Roma.

Seus assassinos em vozes externadas por Shakespeare, justificavam o seu ato na ponta do cutelo, uns como libelo profilático em defesa da democracia. Outros, porém, sentiam-se sobremodo caridosos, afinal “Quem vinte anos tira da vida (de alguém), encurta(-lhe) de igual tempo o medo de morrer”.

Se motivação nunca falta, neste mundo nosso cidadão existe muita gente ousada e de boa pontaria, e de nada valia à vereadora portar um escudo notável enquanto mulher, mãe, negra, ex-favelada e lésbica.

E por cima de tudo ser uma mulher bonita, o que segundo alguns em teses de Frinéia, jamais mereceria sofrer, nem morrer, em qualquer tempo.

Mas morreu, virando mártir.

Como os matadores de Cesar, e os do Deputado Joaldo Barbosa, morto como um passarinho no recesso sagrado do seu lar, os que agora se insurgiram contra o espírito de Marielle sabiam “que no espírito do homem (e da mulher) não há sangue”.

Daí ser preciso sangrá-los; “cortá-los em pedaços como prato para os deuses, em vez de mutilá-lo como carcaça própria para os cães", segundo palavras do genial poeta e dramaturgo inglês.

É preciso, todavia, desvendar o crime, saber a causa, a razão. Até para melhor enaltecer o martírio ou justificá-lo perante a comum relação de efeito e causa.

Talvez não tenha sido por ser mãe e mulher apenas, ex-favelada e negra como dizem, muito menos por ser lésbica simplesmente.

Cabe à inteligência policial desvendar e prender os culpados, sem matá-los, porque assim parecerá vingança ou comum queima de arquivos. O que ensejará outro tipo de conjectura.

Que os mortos pranteiem seus mortos!

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