A morte não existe

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A  morte não existe. É fato. Por não existir ela é superior. Cobra sucuri cheia de fome. Ela não é. Não prescreve, nocauteia e nos serve com lentilhas. A morte é azeda. Carne cheia de vermes. Isenta de si mesmo ela nos toma. Pasmos, não decodificamos o aple. Solitária, a morte rosna contente e faz pose  para uma foto no stagram. A morte é réptil. Vidro perfurando a jugular da amante. A morte é santa. Toalha de organdi, vaso de murano. A morte é alta. E por não ser, ela arremete quando deveria descer. A morte é porca. Cínica. Umbralesca. Desliga as máquinas. Fósforo e urano. A morte nos enxovalha. Não quer leboutin, louis vuiton, nem Dior. A mortecansa. Ela mesma se exaure pelo portal de ágoras e nos transfigura em frente a uma tela de Monet. Trágica e sem passimônia, põe a melhor seda, o melhor tafetá e se aproxima do altar de agouros. A morte é cintilante, brilhante, rubi, porcelana. A morte é morta. Coduz o seu próprio funeral pelas manhãs oblívuas, chafurda, grasna e acaba com tudo. Até o silêncio permanece aos gritos. Porque a morte adora escândalo, mas tem receio. A morte é Dante na selva escura. Gosma, pus, gangrena roendo o tecido até não querer mais. E porque a morte é isso: ela é ciníca, rica de manobras, silhueta de Frida Kalo, perfume de Guerlain, alfombras. A morte ri. Gargalha possuída de poder e põe as ancas inteiras sobre o amante. A morte humilha, traga, toma seu último lexotan sem red label. Ela quer mais. Não cansa. É víscera de Dali, quadro de Tomie, dedo apontado para Rodin. A morte é morta. Flora inseticida, animal no cio, feno ao fogo, enquanto a onça corre loucamente pela savana  em chamas. A morte é gente. Cisterna de anêmonas e vertigens. A morte espreita o nosso último suspiro, sem nos dar mais chance. Soberana, a morte  triunfa sobre a própria morte e despudorada verga seu peso sobre as amoras murchas. É rico lilás ardendo nos contrários. Jade, murano, opalina, ouro. A morte nos impõe um cetim de sangue. A morte é ágata. Infância destituída de boneca. A morte é floresta de eucaliptos sem destinos. O vermelho agosto que ensadesce. Morte rímel sem assombro. A morte não tem céu, tem firmamentos. É solar, cratera de vulcão. Deserto o quarto vazio de um filme de Amodóvar. A morte é Curt Cobain, Marilyn Moroe, John Lennon – papiro de Ang Lee. A morte vence sempre. Domina a pedra em que te tornarás Paul Auster. Janis Joplin  partitura de Nina Simone  num pub de Londres. A morte dança. É um Nureyev, um palhaço de Deus despencando da lona. A morte é trufa. Confeitaria Colombo. Rio. De janeiro. A morte tem força de turbina. Esgueira-se sem piedade sobre o mar. Desfrutando de tudo, altaneira,  a morte põe-se a descansar, flagelada de si, desmoronando à beira de si mesma.

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