A pobreza mata

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A pobreza mata

 

A pobreza vai nos matando aos poucos.  Levando nossos olhos rotos, e quando pensamos livres, ela nos arrasta, como a um morto, sufocando nossos sonhos,  nossos planos, porque a pobreza desperta a fera que existe no outro, espalha o crime pela cidade, invade as escrivaninhas, os edifícios, os palácios, os portos. A pobreza traz as dívidas, centenas de contas e, mesmo pagas, elas voltam certeiras, compõem o vitral do dia e vão nos deixando reféns do cartão de crédito que não é só uma navalha, é uma pistola 765 apontada para a cabeça  do nosso filho. A pobreza mata nos hospitais públicos, nos Alberts Einsteins a pobreza de espírito espalha o soro da concórdia enquanto o dinheiro dado como calção, não aplaca a ira da bactéria, do vírus, do streptococus aureus que subestima a própria fé. A pobreza mata, nos tira o fôlego, nos deixa com falta de ar, com asma. A pobreza mata os três jovens no Morro da Providência e o Ministro Jobim pede desculpas à mãe que nunca mais verá seu filho, inocente. Porque a pobreza mata todos os dias, joga nossas crianças para o prostíbulo, violenta o que temos de mais sagrado, nos deserta, nos amaldiçoa,  nos enerva. A pobreza chafurda na lama das indiferenças dos políticos, nos seus gabinetes de porcos e mulas, isentos de qualquer culpa, porque soberanos do medo e da agiotagem, vendedores das cúpulas de  nossas sangrias, enquanto eles mesmo fabricam os marginais que vão roubar a vida de seus filhos. A pobreza mata, fere, rompe com qualquer possibilidade de paz e esmaga o pescoço da menina atirando-a do sexto andar, por causa do sexo das amantes do pai. A pobreza nos faz cativos da seita, do fanatismo, das igrejas, dos partidos e nos transpassa em dimensão e dor e nos aprisiona  num mundo de perdas, como as mulheres da china de Xinran. A pobreza galopa o seu quinhão de miséria e na barbárie do mercado, apresenta aviões do forró, enquanto o gari da torre leva um murro e um chute do guarda, pago com o nosso dinheiro num cem milhões de pessoas,   aturdidas pelo circo armado, pela força da miséria mais absoluta do descompromisso, enquanto as bailarinas da calcinha preta ,vestidas de tafetá operam os seus horrores de ridículos. A pobreza mata, nos leva para o cadafalso enquanto o governador opera as cifras de uma educação excelente, mas os seus filhos matriculam-se em escolas privadas. A pobreza mata, leva nossa esperança fuzilada pela mentira, nos faz culpados e inocentes, carrascos e santos, ao passarmos, lendo a revista contigo,  pelo mendigo dormindo. A pobreza nos deixa destituído de Deus, nos confronta com o demônio que habita os corações de pedra e como uma navalha, perpassa a nossa alma, enquanto no forocaju, espanca-se até levar ao coma o negro que foi conversar com a namorada do professor de muay thai. A pobreza nos deixa cínicos, nos deixa pobres e, mesmo nos palácios de veraneio, a pobreza circula o seu rosário de faltas e mata os chefes com uma simples dor de cabeça numa manhã de domingo. A pobreza ri da gente, espanca-nos contra a parede, nos faz profissionais de um salário de fome, nos faz pagar ao michê nosso orgasmo mais íntimo, enquanto na Favorita, os lençóis trussardi, as venezianas e os jarros de murano, insultam as favelas onde o crack venceu a maconha e a fome. A pobreza nos alimenta de morte. Os jornais são pobres, porque falta arte, vivem de política, subalternos que são do establishement. A TV é pobre porque vende gato por lebre, torra nossa paciência com a mãe de Ronaldinho que ficou rica, mas não procurou um cabeleireiro. A pobreza força uma porta estreita para a morte. E quando pensamos livres, elas nos impede de morrer. De dengue. De solidão. De crack. De ausência de sorte, de amigos, porque não era pra você, não era a sua hora, não era pra ser. A pobreza torra nossa paciência. Porque a pobreza, por mais fé que tenhamos, nos deixa um corte. Um corte pra dentro. Sem pena.

 

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O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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