A política que aborrece

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Eis porque a política está cada vez mais chata. Muitos políticos dão a impressão de que não têm o que fazer e, na busca desesperada de se manterem sob os holofotes, vão decalcando personagens velhas e produzindo vazios destituídos de sentido e até de racionalidade. E fazem com a ajudinha necessária de coleguinhas da imprensa. Antonio Carlos Viana, contista do primeiro naipe, desabafou recentemente: “Eu ando sem motivação para escrever. O Brasil me cansou. Esse carrossel que faz voltar Sarney e Temer é de entristecer”.

 

Como não concordar com ele?

 

A volta do velho caudilho do Maranhão à Presidência do Congresso é mesmo um exemplo bem acabado de como falta novidade na política brasileira. Se Lula acha que José Sarney (PMDB) é o homem certo para dirigir o Senado no ano de sucessão presidencial, 2010, então que engulamos, goela abaixo, a volta do “marimbondo de fogo”. Com ferrão, estribos e demais apetrechos da sua armadura coronelista.

 

A última do homem que mandou no Maranhão por 40 anos e é senador pelo Amapá é tentar derrubar no tapetão o governador maranhense Jackson Lago (PDT), que derrotou Roseana Sarney (DEM) em 2006. Ele é acusado de abuso de poder econômico e de autoridade. Se for destituído será substituído por quem no governo? Pela senadora filha de Sarney, segunda colocada na eleição para governador.

 

POR AQUI, A ÚLTIMA DESSA POLÍTICA QUE CANSA e entristece foi o boato plantado pelo deputado Mendonça Prado (DEM) de que o Banese estaria posto à venda pelo governo Marcelo Déda (PT). Mendonça anunciou que entraria na Justiça com uma ação cautelar para evitar a “possível” venda do banco sergipano para o Banco do Brasil. O governador negou a possibilidade de transação comercial e devolveu a “acusação” com um cala-boca no deputado que é genro de João Alves Filho (DEM), julgando-o como intencionalmente interessado em fragilizar a instituição financeira.

 

“Numa época de crise das instituições financeiras, essa atitude é uma ação política nefasta que pretende trazer problemas ao Banese e prejudicar a economia sergipana”, disse Déda, que possui o timing certo e a firmeza necessária quando se espera dele uma pronta reação. Até hoje ninguém sabe ao certo porque um estado pequeno como Sergipe precisa ser dono de banco, mas daí a se especular com algo que mexe com cifras milionárias é precipitar-se na vala comum do amadorismo próprio de quem não conhece mais do que a caderneta de poupança, para ficar somente nisso.

 

MAS O QUE MAIS TEM IRRITADO NA POLÍTICA rasa da terrinha são as adivinhações em torno das eleições 2010. O boato mais novo é que o DEM estaria articulando a “chapa dos sonhos”, que seria encabeçada pelo senador Antonio Carlos Valadares (PSB), candidato a governador, com João Alves Filho (DEM) e Almeida Lima (PMDB) candidatos ao Senado. Há controvérsia, claro. Tudo bem que João hesite em concorrer com o governador Marcelo Déda (PT) na eleição do próximo ano — a lógica é a seguinte: se foi derrotado por ele quando era governador, quanto mais agora que o outro é quem está no comando do Estado —, mas daí a vesti-lo de candidato a senador é uma dessas precipitações que carecem de um mínimo de razão e de conhecimento histórico. Além de sempre ocupar cargos no Executivo — foi prefeito de Aracaju, governador três vezes e ministro do Interior no governo Sarney —, João nunca negou sua inapetência para o Legislativo.

 

E há outras variantes a se considerar: as pesquisas apontam que os favoritos a conquistarem as duas vagas no Senado Federal em disputa no próximo ano são Valadares — exatamente ele — e o deputado federal Jackson Barreto (PMDB). Os dois têm feito juras de amor eterno ao grupo liderado pelo governador Marcelo Déda. Então Valadares estaria disposto a abrir mão da reeleição praticamente certa e de se indispor com a turma que hoje manda no Estado para se arriscar numa aventura, em suma, tramada para beneficiar os órfãos do poder? E, é de se duvidar, Valadares estaria mesmo “conversando” sobre isso?

 

É O PRÓPRIO QUEM RESPONDE com uma expressão própria de Simão Dias: “Isso é ciumeira de Maria Bendita!” Traduzindo: isso não está no seu projeto político. “Não tenho nenhuma pretensão de ser candidato a governador. Portanto, nessa aventura não vou entrar”, decreta Valadares, reafirmando que o seu candidato a governador, “é público e notório”, é Marcelo Déda. E ilustra os motivos com rasgados elogios “É um amigo correto, é um administrador competente e um político leal”. Quanto a ele mesmo, Valadares é mineiramente modesto: “A única certeza na política é que não tem nada certo. Mas, por enquanto, estou fazendo um esforço para ser reconhecido pelo PSB e aliados como um senador atuante”. E ponto final.

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