A quem interessa?

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O Congresso Nacional está a debater a questão do tratamento sigiloso dos documentos oficiais.

Trata-se de uma pretensão antiga, surgida desde que o último general presidente, João Batista Figueiredo, saiu pela porta dos fundos do Palácio do Planalto, pedindo para ser esquecido, em gesto tão grotesco, quanto grosseiro; desfecho deseducado de um governo medíocre, sem brio e sem altivez, escafedendo-se e enxotando-se, como uma despropositada debandada.

Era o final de um regime imposto pela tropa em desfile, implantado sem uma gota sanguínea derramada e derrubado sem qualquer desforço físico suado.

O Presidente fugia porque temia ser vaiado por aplauso dos seus descontentes.

E Figueiredo em fim de mandato, um tri-coroado cavaleiro, reunia a seu favor apenas a cavalariça da Granja do Torto, os ruídos daquelas baias, sua sinfonia de melhor agrado.

Do tri-coroado campeão cavaleiro, primeiro lugar nos cursos de cadete, oficial e estado maior do exército, restou pior reprovação na ação presidencial e no cavalheirismo essencial. E o regime caía de podre, com os políticos da situação e da oposição se regozijando no despojo mal defendido.

Era um desfecho magnífico e inesperado de um regimen que se afirmara tão poderoso, e de quem muitos disseram, e ainda teimam em repetir, ter sido excessivamente violento e sanguinário, enquanto outros já o contemplam suave quão terno, diante da insuficiência quantitativa e até qualitativa dos perseguidos e torturados, diante do noticiário, mundo afora e ainda agora; na Síria, na Líbia e no Iêmen, onde a multidão sente o ferro e o fogo de governos impiedosos.

Uma constatação necessária para dizer que há ditadores e ditadores, e os nossos são realmente os piores do mundo.

Mas, a alma nacional, tão afeita à concórdia e ao perdão, está convidada a se infelicitar, rejeitando a anistia e o esquecimento, tudo aquilo que fora negociado em termos de sucessão pactuada, cujo sucesso se traduz em quase três décadas de governos, em pacífico respeito à vontade das urnas e alternância de poder.

Contudo, há quem deseje fazer uma purga na caldeira motriz do país. É preciso voltar ao passado, mesmo sabendo que o pretérito de nada serve, senão para imunização dos mesmos erros, como se o viver nacional estivesse a necessitar uma caça às bruxas, uma revanche de vingança necessária, em fogueiras sempre lembradas ao arrepio da lei, e ao sabor dos ódios.

Eis então a volta da discussão de uma “Comissão da Verdade”. Sem falar que tal “Comissão da Verdade”, pode sair atacada por não ser uma Comissão de Verdade, padecendo do mesmo vício necessário; ser a Comissão Possível, aquela que respeita a lei e o já transitado prescrito ou decidido.

Mas,… o que é a verdade? Pergunta ainda Pilatos ao Cristo que teima em calar.
E qual é a verdade, pergunto eu sem lavar as mãos, que se pretende exumar de tal necropsia fora de hora?

Será fácil em isenção de ânimos, a composição de tal conciliábulo evitando o radicalismo, a discricionariedade de um Comitê de Salvação Pública como o arbitrário homônimo espalhando um tempo raivoso e vingativo, melhor espelhado no Grande Terror da magna Revolução Francesa?

Ou será mais uma câmara de concessão de benesses fiduciárias, certificação de heróis, com direito a deletar nos fatos, feitos e fotos o regime que deixará de existir, no seu tempo e circunstância, por bula milagreira?

Há! Quanta besteira! Estará o país necessitando esta ruminação apodrecida?

Por outro lado, pode-se rejeitar que no amadurecimento das nossas instituições presentes, está inserido por aura, um escopo balizador de desenvolvimento político e social, legado e sustentado pelo regime totalitário dos militares?

Poder-se-á pensar que tal herança nunca existiu e tudo aconteceu por geração própria, em quebra absoluta de regras e paradigmas?

Mas, desprezando qualquer ponderação segundo tal temário, eis a Comissão de Verdade na pauta congressual, desafiando a mitigação em moderação necessária.

Um absurdo segundo alguns, que não entendem a democracia como estuário da ponderação de todas as idéias e correntes do livre pensar, aí incluídos os que nos divergem.

Um absurdo acrescido, porque a sabedoria do Eclesiastes refletindo a fugacidade do ser nos repete sem cansar: o que foi é o que será: tudo debaixo do sol; o homem sendo o mesmo, com angústias e sonhos, firmando para sempre, que o que passou sempre poderá se repetir, sobretudo quando se trata de intolerância no agir e no pensar.

E se esta Comissão da Verdade tão sedenta no justiçar, em meio à constatação de tão poucos injustiçados, não conseguir identificar e indigitar o torturador, chegando à conclusão que algum vergastado mereceria bem levar outra surra, porque bancou o falsário, fraquejou na luta, restou alcagüete, se fez útil na delação, ou mentiu bastante ao contar e edulcorar a própria odisséia?

Valeria à pena, mesmo assim, depurar tal heroísmo, apreciar o verdadeiro e o falso no folclore da tortura militar, tida e havida como terrível, inominável, mas que ainda nem sequer produziu qualquer memória de cárcere louvável; de alguém que atualizasse em livro a dor que nem Graciliano Ramos sofrera tanto e quanto?

Sim, porque pior do que quem padeceu, é o que não sofreu, mas sonhou.

É coisa de poeta ruim; de quem finge sofrer a dor que deveras não sente, mas imagina.

Porque no imaginário de quem não sofreu, mas repete em cascata o que afiança por modismo de ouças de mal ouvir, a nossa ditadura militar foi bem mais violenta que qualquer autoritarismo universal, aí incluindo até Getúlio Vargas, o “Pai dos Pobres”, o bom Gegê que trancafiou Graciliano.

E mais: desconhece-se ou são contabilizados a dedos os cassados ou perseguidos pelos Generais-Presidentes e seus prepostos, que não tenham subido na vida em honraria de empregos e bons salários, tudo obtido por história regressa, com dispensa de avaliação pública de mérito, embora se diga que é necessário a imposição de mais uma vendeta, sem a qual não haverá satisfação plena.

Mas, se a comissão da Verdade não deslindar tudo como recomenda uma apreciação isenta e justa não correrá o risco de também ser um fiasco?

Valerá, realmente à pena, aclarar o que melhor realça na penumbra?

A quem interessa tal Comissão da Verdade?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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