A Saga de Jean Divinamor VI – Final

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No governo do Presidente Figueiredo, aquele general cavalariço que preferia eqüinos a gente, Jeansenpater do Divinamor Faria, embora gostasse também de cavalos, e, vez em quando, galopasse nos asfaltos de sua cidade, passou a ter pelos milicos um ódio de infiel.

 

Começaria aí a sua pregação de liberdade e a cidadania, como mandamentos essenciais para a vida concentrando sua crítica ao poder vigente. Neste tempo já era um alto funcionário público, com salário de marajá, em sinecura adquirida sem prova nem título, mas concedida pela ditadura militar a seus mais diletos apaniguados.

 

Mas, com os militares em derrocada, sendo enxotados do planalto e do comando, estes apaniguados fugiam como diabo da cruz.

 

Começara um novo momento e Jean Patifaria agora estava a assestar o grosso de sua artilharia verbal contra os seus antigos amigos, confidentes e protetores: os militares.

 

Gritando carbonária e passionariamente, liberdade e cidadania, Jean Patifaria passou a reunir e liderar multidões que desejavam derrubar os militares, do poder e da história na campanha das diretas já.

 

Quando os comícios acabaram e as diretas não vingaram, chegou a viajar a Brasília para dar um beijo na careca de Tancredo Neves no dia em que o mineiro aceitou concorrer à Presidência da República, via eleições indiretas.

Só não ficou de todo feliz, porque foi confundido com o beijoqueiro do papa e foi empurrado com um safanão do Antônio Carlos Magalhães e de um segurança de Sarney.

 

Hoje, passados tantos anos ninguém mais se lembra do fato, restando-lhe um ódio eterno a ACM pelo sopapo recebido, justamente quando afagava a careca de Tancredo.

 

Há quem diga que o próprio Tancredo fora contaminado por um mau olhado de Divinamor Faria, sendo levado às pressas para o Hospital de Base de Brasília, e o resto todo mundo sabe.

 

O que não se sabe é desta nova desventura acusada a Jean Divinamor por um seu desafeto malquisto.

 

Mas, sempre tinha sido assim. De quem se aproximara e fizera amizade, logo iria abandonar, ferir ou destruir. Foi assim no Colégio Granadeiro Bismarck, recebido como aluno diligente, e dali expulso como semi-delinqüente. Fora inconveniente também no Colégio dos Padres criando embaraços disciplinares. Quis polemizar, discutindo pelo rádio, com o bispo Dom Matias Tupinambá, seu amigo, confidente e protetor. Tinha aquela estória mal contada na Ladeira da Montanha em Salvador da Bahia. Tumultuara o retiro de Frei Romualdo de Beira transformando-o em aventura perigosa no Caminho de Santiago, do qual abandonou deixando os colegas estropiados e decepcionados. Adquirira a fama de informante no período repressor da ditadura militar. Quisera fraudar a campanha “Ouro para o bem do Brasil”. E muitos outros fatos aqui não contados por merecedores de um tratado sobre um homem de poucas qualidades, inclusive ter sido eleitor de Collor, amigo de PC Farias e depois acusador de ambos.

 

Mas, de tudo o que se falou e do que jamais se disse, restara-lhe em muita raiva o safanão recebido do senador baiano. Caíra catando ficha no salão negro do congresso em humilhação nunca esquecida, sendo socorrido por ralos petistas ali presentes.

 

Mas, como tudo de bom e ruim tem a sua utilidade, esta queda logo lhe traria novas amizades e serventias. Agora, era o Deputado José Dirceu e o sindicalista Luis Inácio da Silva, que o levantavam da queda e curavam as suas feridas, condenando com veemência, a truculência do safanão carlista. Era o início da oposição petista à nova república.

 

E assim lhe foram abertas as portas dos partidos de esquerda, que esqueciam sua vida pregressa, perambulado por outras siglas, no amplo espectro ideológico, nelas entrando com muita algaravia e delas deixando demolidas ou arruinadas.

 

No dia-a-dia repetia-se junto aos lulistas, como um excelente companheiro, conviva mútuo, festejando e sendo festejado por toda a zoologia político-partidária do país. Chegara a ser na região o elemento mais ligado às figuras importantes do país. Ficara-lhes íntimo e confidente. Só não conseguiu acompanhar-lhes nos goles de cachaça. Mas para ter o mesmo cheiro dos novos amigos passou a usar “uma limpa de cabeça” como loção da barba, que passou a exibir, para sua tristeza, rala e sem destaque.

 

Mas, ninguém permanece em destaque de gigante partilhando qualquer confidência com Jeansen do Divinamor Faria.

 

Assim como não há homens importantes para o seu criado de quarto, a intimidade concedida a Jeansenpater Faria ensejava-lhe a necessidade de destruir estes homens de quem se servia. Sua meta sempre fora atingir-lhes o ponto fulcral e letal, o calcanhar de Aquiles, para ferir o amigo tornado inservível e fartar-se em sua carcaça.

 

Agora estava a fustigar os políticos ladrões, denunciando tudo ao seu redor, após fruir e se refestelar em seu repasto.

 

– Nossos políticos são todos uns ladrões, dizia denunciando quinhentos anos de desmandos e roubalheiras em terra pátria.

 

Neste particular os liderados de Lula e Dirceu, já ressabiados de discursos mais inflamados, foram mais desconfiados e sábios, não lhe concedendo nenhum cargo na executiva estadual ou municipal.

 

Deram-lhe, meio a contragosto um espaço na chapa proporcional. E como o famoso rinoceronte cacareco, que fora eleito outrora mais votado parlamentar carioca, Jean Divinamor recebeu um mandato igual, com expressiva votação.

Eleição de um cacareco, logo todo mundo iria ver quando a máscara de bom moço se dilacerasse. Por enquanto, todo mundo achava que o tribuno carbonário teria muito sucesso, por incorruptível, Seria uma introdução mais do que necessária de um supositório para desafogar as entranhas dos intestinos do parlamento.

 

Neste tempo ele era em maioria o único detentor do título de político religioso, com bênção curial, com endosso explícito paroquial e até com jaculatória beatal.

 

Ah, como somos sensíveis aos discursos dos que se fingem de santos!

 

Jeansenpater sabia tanto disso, que convencera até o prelado de sua cidade a apoiá-lo. Ele fora ungido como o antídoto para todas as mazelas da administração pública e da política em geral. Os outros políticos poderiam ir à missa, comungar, segurar todos os andores, mas não passavam de aproveitadores, já dissera a própria assembléia eclesial, em memorável reunião na qual se invocara até o santo do dia.

 

Mas Jeansenpater sabia que o pálio de sua fé, com suas bênçãos e indulgências, e a própria unção recebida eram insuficientes para o sucesso na política. Era preciso cortejar todas as crenças, visitar não só as Igrejas e os padres, mas os Templos Evangélicos, os Cenáculos Espíritas e até os Terreiros de Umbanda.

 

E assim, todos os credos, com tantas louvações e com excessos de abstinências de bom senso, o escolheram como o cavaleiro intimorato, o guerreiro lancetante do dragão e da maldade da corrupção. Ecumenicamente, diga-se passagem!

 

Nunca houvera em tempo tão recente um político tão abençoado pelo padroado, com atestado de todo episcopado, inclusive. Atestados de bispo verdadeiro, com batina, báculo e capelo, e até de bispo quebra-santo radiofônico. Tal era a versatilidade de Jeansenpater em reuni-los no seu eleitorado. Gregos e troianos, persas e romanos, judeus e iraquianos, americanos e palestinos, católicos, protestantes e espíritas, umbandistas e budistas, e até muçulmanos xiitas e agnósticos empedernidos, o tinham como amigo e fiel.

 

E assim Jeansenpater do Divinamor Faria, como todo engodo e fraude, teve sucesso rápido na sua ação.

 

Sua atuação, enquanto parlamentar, foi uma tristeza de lamentar. Revelou-se uma coisa louca de pedra, por irresponsável e inconseqüente.

 

Pela fama que adquiriu em discursos vazios, mal sonantes e mal ouvidos, jamais se vira alguém tão dissonante entre sua prática amigueira e afável e a sua fala verberada na tribuna congressual, decepcionando os ingênuos e os eternos revoltados.

 

Chamado à disciplina, rebelou-se contra os aliados, xingando todo mundo, inclusive a própria coligação que o elegera. Tentou gerar o caos no partido, mas de nada conseguiu. Depois, quando a tormenta passou e o escândalo já não mais vendia jornais, seu mandato se acabou e não mais se elegeu. Foi rejeitado como escória, sem deixar saudade e sem marcar história.

 

E para findar a estória deste homem de más qualidades, Jeansenpater do Divinamor Faria aposentou-se como marajá de sua sinecura e como parlamentar de um mandato. Hoje vive na Califórnia, em Los Angeles. Está ruminando novas patifarias. Knaverys como dizem os ianques. Há quem diga que já é um dos conselheiros latinos de Hillary Clinton, a candidata a Presidente dos Estados Unidos pelo Partido Democrata

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Inteligente e ladino por natureza, Jeansenpater já é por lá bem badalado, conhecido como Jean Divine Love, ou Mr. Love, como é mais chamado.

 

Mas, como sua práxis nunca muda, há quem já o veja, em flertes com Barack Obama, demolindo por dentro do comitê a própria campanha da Sra. Clinton.

 

Si non è vero, è bene trovato! 

 

Como sempre, nunca lhe faltarão audiências para se exibir em sua doce ingenuidade, enganando a vizinhança e a circunstância; igual a qualquer Mona Lisa, verdadeira ou falsificada.

 

Quanto aos que não mais se encantam com o seu sorriso escondendo a sua práxis destrutiva, fica-lhes a memória de uma Gioconda adulterada.

Visões diferentes, admirações distintas e gostos a lamentar em um Jean Divinamor que se fez Patifaria.

 

Igual ao retrato falsificado da Mona Lisa, que, para enganos e desenganos de tolos, exibe mais charme que o próprio original.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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