A seca é democrática

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O fenômeno centenário da seca não é só dramático, como a história cansa de confirmar, mas é também democrático. Contrariando o consenso, que sempre e corretamente associou o fenômeno à exploração humana pela "indústria da seca", o certo é que a estiagem prolongada afeta a todos os nordestinos. Para não dizer os brasileiros. Mesmo aqueles que desdenham do problema e tiram proveito dele.

A seca que periodicamente castiga o sertão nordestino denuncia que o crescimento do Brasil e os avanços conquistados pelo brasileiro nas últimas décadas passaram ao largo desse povo fadado a esperar que Deus e os céus mandem chuva. Na quase ausência de inverno do ano passado, por exemplo, enquanto o mundo inteiro se fartava de futilidades eletrônicas, o sertanejo nordestino sonhava com uma porção necessária do bem mais primário, a água que iria regar a horta e manter vivas as vaquinhas, garantia do pão na mesa da família.

Os sertanejos mais velhos, de tez crestada e acostumados com a vida em ciclos, compararam a estiagem de 2012, que no Polígono da Seca se prolonga até hoje, com aquela dos anos 1970, quando ocorreu um grande e dos últimos ciclos migratórios de nordestinos para a região Sudeste, principalmente. Entre as décadas de 1930 e 70, dos imigrantes que chegaram a São Paulo, 58% saíram do Nordeste, sendo que 15% desses diretamente da região do Polígono da Seca, garantindo a força de trabalho para a expansão da região metropolitana da capital paulista.

Os números são alarmantes: 750 municípios e 80% do semiárido nordestino foram atingidos no ano passado, mais de 4 milhões de pessoas afetadas. Ou seja, duas vezes a população de Sergipe sofrendo diretamente com a falta d’água até para o consumo humano. Em muitos municípios, nem deu para plantar, não há um grão de milho ou feijão para colher.

Para as famílias do interior, prejuízo imediato. “O prejuízo é imediato pela impossibilidade do plantio decorrente da falta de água ou mesmo a perda total da colheita. Essas perdas familiares repercutem na vida comercial dessas cidades, reduzindo o vigor das feiras e das atividades na prestação de serviços. Como são localidades pobres, sem um tecido econômico dinâmico, as consequências imediatas desse fenômeno são vistas de maneira dramática, com relatos de perda de patrimônio e endividamento das famílias de agricultores e moradores da área rural e urbana”, resume o doutor em economia popular e professor da Universidade Federal de Alagoas, Cícero Péricles. No estado vizinho, a seca é mais sentida porque há mais municípios na região do semiárido do que em Sergipe.

Mas se a seca afeta a economia do Nordeste, a estiagem do ano passado provocou estragos na lavoura e criação do agreste, atingindo diretamente a economia de Sergipe. As exportações do estado se retraíram 40% neste ano porque a produtividade da laranja caiu. A laranja, em forma de suco principalmente, responde por mais de 85% da nossa pauta exportadora.

A seca também reduziu em 10% a produção de álcool e açúcar, da safra sergipana de 2012/13, afetando outro produto importante da pauta de exportações. Em 2009, Sergipe vendeu para o exterior o equivalente a 8,7 milhões de dólares em açúcar, comércio que foi reduzido a 7,8 milhões de dólares no ano passado, números que tendem a se repetir agora em 2013.

O histórico uso político da água no Nordeste perdeu força nos últimos anos, mas não acabou. Ainda vemos como prefeitos e outros políticos tiram proveito do quanto pior, melhor. Não se acaba uma prática secular em poucos anos de avanço democrático e econômico. Num passado nem tão distante, quantos não se beneficiaram dos recursos físicos e financeiros da Sudene, do Dnocs e até do INPS para beneficiar as próprias fazendas ou, quando não, os cabos eleitorais?

Como canais, poços, barragens, cisternas e adutoras não foram construídos quando e onde deveriam, restou a conveniente saída da política assistencialista. Porque sempre foi lucrativo para uma minoria deixar o sertanejo vulnerável, à espera das ações emergenciais. Até que venha o próximo ciclo da seca.

Mas quem vive da terra, seja grande ou pequeno, sofre. E esse padecimento acaba atingindo a todos.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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