A verdade e o exagero

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A sociedade sergipana realmente se surpreendeu com a entrevista ousada do fugitivo Floro Calheiros. Ao mesmo tempo também se frustrou. Esperava-se que ele contasse como deixou a frágil delegacia em que se encontrava. Quanto teria pago e de que forma deixou Sergipe. Aliás, essa continua sendo a grande pergunta que se faz em todo o Estado. O objetivo da entrevista foi comprometer o ex-secretário da Segurança Pública, Luiz Mendonça, de ter se entendido com amigos baianos para facilitar a sua fuga. A denúncia irritou muito o promotor, mas há necessidade de esclarecimentos, embora um cidadão insuspeito, de Aracaju, garante que Mendonça jamais faria qualquer acordo para colocar Floro fora das grades. Levantou, também, dúvidas sobre a veracidade das declarações: “Elas não foram assinadas pelo fugitivo e a informação chegou a Aracaju através de gravação computadorizada”. Embora haja essa polêmica sobre verdadeiras ou não, o correto é fazer todas as investigações possíveis, para que se desmanche qualquer dúvida. Afinal de contas, o governador João Alves Filho deixa sem qualquer dúvida o retorno de Luiz Mendonça à Segurança Pública, seja escolhido ou não procurador de Justiça. O deputado estadual Gilmar Carvalho recebeu, e está publicando em seu programa diário, fitas de conversas telefônicas entre Floro Calheiros e membros importantes da Secretaria de Segurança Pública. Não se trata de fato recente. É de 2002. Estava no epicentro dos acontecimentos a questão do prefeito de Canindé do São Francisco, Genivaldo Galindo. A intimidade de uma parte da cúpula policial, com um mundo que já se desconfiava vinculado ao crime organizado, é simplesmente estarrecedor. Não se trata apenas de Floro Calheiros ou de outro qualquer envolvido em casos moralmente indecentes, mas de qualquer bandido que possa financiar a conivência policial, através de amizades despretensiosas. Essa banda podre, que atua firme nos órgãos de Segurança, é que precisa ser extirpada, através de uma ação enérgica do Governo, mesmo que tenha de entrar em atrito com importantíssimos membros que influenciam na vida político-administrativa de Sergipe. Mas existe, também, quem considere que os interventores de Canindé do São Francisco, da qual o promotor Luiz Mendonça teve uma participação como membro do Ministério Público, devem explicações à sociedade sergipana. Um político irrequieto lembrou, ontem, que ao assumir a interventoria e detectar um rombo financeiro de 50 milhões de reais, havia obrigação de se relatar aonde estava a corrupção e para onde fora desviado tamanho volume de recurso. Acrescenta que até o momento apenas se registrou o desfalque, mas não se mostrou nada, o que abre razões para interpretações diferentes: “E se o rombo foi de apenas 30 milhões de reais?”, jogo a batata quente no ar. Um dos maiores problemas brasileiros é que as autoridades se julgam acima de qualquer suspeita. Acham que não têm que dar satisfação a uma sociedade que se sacrifica para pagar seus altos salários. Quando a população começar a exigir direito de participação na apuração de escândalos, sem receio do “teje preso”, é muito provável que não precise apenas a palavra para se ter, como definitiva, denuncias do gênero. Serão necessárias explicações de todos os fatos. De qualquer forma, tudo isso que está acontecendo em Sergipe, com denuncias fúteis ou ações policiais suspeitas, é importante para que se mostre que nem sempre as autoridades estão livres de acusações e passem a se considerar menos importantes. Passem a olhar com mais respeito o cidadão comum, que está desempregado ou ganha uma miséria, mas que é o responsável para que ele arrote uma superioridade que sua megalomania conserva, apenas porque está bem inserido em uma instituição qualquer, seja do legislativo, do judiciário ou do executivo. Num país com o Brasil, onde algumas pessoas dormem pobres e amanhecem ricas, sempre há necessidade de se dar satisfação a uma sociedade, que a cada dia fica desassombrada com a arrogância que se põe em uma posição qualquer. Lógico que ninguém iria acreditar numa denuncia feita por um sujeito, tipo Fernandinho Beira-Mar, de que dera dinheiro ao presidente Lula para que facilitasse sua vida nos presídios. Mas também não se pode desprezar a constatação de que as autoridades passem por uma reformulação profunda dos seus limites, para que não sofram acusações do tipo… ARANHA Os cofres de Prefeitura de Divina Pastora estão criando teia de aranha. Mesmo com a liberação do Fundo de Participação Municipal, dia 10, a prefeitura ficou devendo R$ 3 mil. É que com a queda do FPM em 42% e o desconto do INSS, Fundef, Pasep, FGTS e outros, a Prefeitura de Divina Pastora ficou com o saldo negativo de 3 mil reais. REUNIÃO Ontem pela manhã, em Rosário do Catete, durante a reunião preparatória para a I Conferência Municipal das Cidades, que se realiza em Laranjeiras, muitos prefeitos se exaltaram. Disseram que com a queda do FPM não pagaram a merenda escolar, as farmácias e estão receosos de não ter recurso para a folha mensal dos servidores. DESCONFIANÇA A maioria dos prefeitos desconfia que o dinheiro do FPM está sendo retido para dar superávit e o Governo Federal ficar bem com o FMI. Os prefeitos estão sem condições de cumprir as obrigações constitucionais, o que cria uma inadimplência perigosa, que pode dar até em cadeia. LAMENTO Os prefeitos estão lamentando que essa lei sobre as obrigações constitucionais esteja valendo apenas para os municípios e não seja cumprida pela União. O Governo Federal tinha empenhos de 2001 e 2002 para pagar e simplesmente cancelou, sem que sofresse qualquer problema. Fica difícil para os municípios… CONTADOS Os presidentes de associações de prefeitos de Sergipe estão entrando em contato com Prefeituras da Paraíba, Alagoas, Pernambuco e Bahia, para que juntos tomem uma posição. Já está praticamente certo o bloqueio da ponte que liga Sergipe a Maceió, com a participação de prefeitos do Norte e Nordeste, em protesto à política do Governo Lula. DEFESA Já está sendo concluída a defesa do deputado estadual João das Graças, que responde na Comissão de Ética da Assembléia sobre tentativa de homicídio. O prazo para a defesa é a segunda sessão ordinária, na primeira semana de agosto, para parecer do relator e votação em plenário pela cassação ou não. INFECÇÃO O secretário da Segurança, João Eloy, sentiu-se mal, ontem à tarde, e foi para a Clínica Renascença, onde se detectou infecção intestinal. Teve que tomar soro… O aperto da fuga de Floro Calheiros e a “ausência” do ex-deputado Antônio Francisco, realmente é de provocar desgastes intestinais. GRAVAÇÃO O radialista Gilmar Carvalho vai continuar colocando gravações feitas entre policiais e o foragido Floro Calheiros, em 2002, quando ainda se definia o caso Galindo. Até sexta-feira será divulgada a conversa entre o coordenador da capital, Sergio Ricardo, com Floro. O delegado elogia muito o fugitivo e pergunta: “vamos ganhar essa parada?” CONVERSA O ex-secretário de Segurança, Luiz Mendonça, conversou ontem com Gilmar Carvalho, sobre esta confusão que criou a entrevista do Floro Calheiros. Mendonça retorna à Segurança. Gilmar sugeriu que ele acabasse com a banda podre da polícia. Isso deve ser decisão de Governo, já que se trata de pessoal protegido por políticos. MENDONÇA O deputado federal Medonça Prado (PFL) criticou, ontem, a redução do FPM para os municípios: “O FPM é a principal fonte de renda de algumas cidades”, disse. O parlamentar anunciou que há a decretação do estado de emergência coletiva pelos prefeitos, que aponta para uma possível falência dos municípios. GOVERNO Uma liderança política que integra o bloco de apoio a Lula, disse ontem, que quem está à frente do Governo é o ministro Palloci e José Dirceu. O presidente Lula da Silva faz os entendimentos e a parte política para negociações. No restante, ele apenas ouve e acata. CERTEZA O tom da entrevista concedida pelo fugitivo Floro Calheiros é de quem tem absoluta certeza de que não será recapturado pela Polícia. As denuncias, irresponsáveis ou não, feitas por ele são de quem está muito distante de ser descoberto pela polícia. Dessa vez, Floro não se encontra no Sul da Bahia. MACHADO O deputado federal José Carlos Machado (PFL) avisou que a queda no FPM foi provocada pela redução do IPI e devolução do Imposto de Renda. Machado estava no gabinete do deputado Mussa Demis (PI) quando ele recebeu uma consulta feita ao Tesouro Nacional sobre o assunto. Notas RECADO O deputado federal Jackson Barreto (PTB) manda um recado ao presidente Lula da Silva, quando diz que os governadores dos Estados não têm influência na aprovação dos projetos que são enviados ao Congresso Nacional, o que é absolutamente correto em razão da divisão das bancadas federais em cada Estado. Jackson Barreto é consciente de que os governadores estão sendo convocados pelo presidente Lula da Silva para influenciarem junto às bancadas e, está claro, cada um deles faz o que lhe é possível junto aos deputados. IOLANDA A juíza da 5 Vara Criminal, Iolanda Guimarães, agiu com coragem e idoneidade no julgamento dos envolvidos no assassinato do deputado estadual Joaldo Barbosa. Cumpriu rigorosamente a lei e se baseou no processo para decretar a prisão preventiva de todos aqueles que tiveram participação na estratégia e ação do crime. Iolanda Guimarães, casada com o procurador de Justiça Moacir Motta, jamais se deixou recebeu instruções do marido para julgamento, procurando agir sempre dentro dos rigores da lei, sem exclusões e na busca da verdade que faz a justiça. AMEAÇA De forma inteligente, o foragido Floro Calheiros sentenciou o deputado Gilmar Carvalho (PV) de morte. Ao dizer que não tinha nada a ver com uma possível morte do parlamentar, porque ele fez vários inimigos e ninguém teria condições de identificar quem seria, Floro deixa claro que algum “acidente” pode acontecer com Gilmar. O próprio Floro chega a aconselhar Gilmar Carvalho a adotar precauções, sugerindo que algum dos seus inimigos pode aproveitar a ocasião para elimina-lo e colocar a culpa nele (Floro). Foi um recado muito bem dado. É fogo O prefeito de Gararu, João Francisco Albuquerque Oliveira, tem defendido que os prefeitos se unam cada vez mais, pra conseguir recursos junto ao Governo Federal. O presidente regional do PMDB, Benedito Figueiredo, será nomeado para o Conselho do Banese. Terá um rendimento superior a dois mil reais. Os prefeitos vão continuar utilizando recursos do Fundef para poder suprir a deficiência financeira dos seus municípios. O governador João Alves Filho (PFL) vem se destacando, em todo o país, como uma das lideranças do Nordeste que mais defende a região. João Alves não tem destacado Sergipe, mas os Estados do Nordeste como uma força que precisa ser vista pelo Planalto. No meio, logicamente, defende o Estado. Os prefeitos estavam habituados a uma queda de até 16% em junho e julho, mas não de até 50% como ocorreu este ano. O governador João Alves Filho tem em mãos um diagnóstico eleitoral de todos os municípios e tem uma noção de quem deve disputar a Prefeitura para ganhar. A queda da inflação no Governo Lula não decorre do crescimento da economia, mas de uma recessão que coloca a oferta maior que a procura e provoca a queda nos preços. Com a retração produtiva que as industrias estão projetando, a inflação deverá retornar com um desemprego gritante. Não há mais o que discutir, os radicais do Partido dos Trabalhadores têm razão em contestar a política adotada pelo presidente Lula da Silva. O maior problema do Governo petista é que há um excesso de comando, porque os ministros são mais preparados do que o presidente e querem impor seus projetos. As Prefeituras Municipais são as principais clientes dos comércios de suas cidades. Quando o dinheiro não dá, farmácias, armazéns e até funerárias deixam de receber. O governador João Alves Filho só vai parar para pensar Sergipe, depois de resolvidas as questões das reformas da Previdência e Tributária. Por Diógenes Brayner brayner@infonet.com.br

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