Abaixo o Senado

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O bate-boca chulo com o tucano Tasso Jereissati, no Conselho de Ética, serviu ao senador Almeida Lima, pelo menos, para conquistar a simpatia de um grupo de fora do Senado. A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais enviou um ofício ao coronelzinho cearense cobrando explicações sobre o termo “boneca”, considerado homofóbico, usado no acalorado debate com o colega (!) sergipano.

“O senhor foi infeliz ao utilizar-se de um termo denotando a homossexualidade como forma de menosprezar outro parlamentar. Desta forma, o senhor reforçou o preconceito à homossexualidade, atitude pouco condizente com o decoro parlamentar”, diz a carta da alfabetária ABGLT (ufa!). Anexo ao ofício, o grupo mandou uma ficha de filiação à entidade. Tasso não disse um ai a respeito. Muito menos Almeidinha.

A confusão aconteceu na quinta-feira e por pouco os senadores não trocaram murros (ou arranhões, puxões de cabelos…). Almeida Lima, um dos três relatores do caso Renan, insiste em apresentar um relatório separado e contrário ao que será apresentado pelos outros dois relatores. Mas, pelo regimento, não pode haver dois relatórios. O sergipano, o Sancho Pança do acossado presidente do Senado, considera-se cerceado pelos colegas e não aceita que seu parecer seja apenas um voto em separado. O diálogo que se seguiu foi o seguinte:

— Eu tenho um voto a apresentar, não adianta querer me cercear — protestou Almeida Lima.

Tasso Jereissati levantou a voz e pediu calma, irritando o relator:

— No grito não. A força do direito sim, mas o direito à força não. Se Vossa Excelência sabe bater na mesa eu também sei. Estão querendo me castrar — reagiu Almeida Lima.

Foi quando Tasso, que até então estava sentado e calmo, provocou o senador, fazendo trejeitos femininos:

— Calma, boneca!

— Senador, esse trejeito não lhe fica bem — reagiu Almeida Lima.

O líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), que antes havia questionado por que não se botava logo em votação os requerimentos para decidir se a votação será secreta ou aberta, entrou na confusão e deixou o relator ainda mais irritado.

— Senador, ninguém quer lhe castrar, ninguém quer castrar o voto de vossa excelência, nem na palavra nem em outro jeito — disse Virgílio, que é macaco velho, espertíssimo.

Almeida engoliu corda e continuou gritando em direção aos tucanos.

— No grito não! Não aceito ser tratado como sub-relator, vocês são uns palhaços — rebateu Almeida, agredindo outra categoria. Como se vê, nem só os gays e assemelhados têm o direito de se sentirem atacados. Os palhaços também.

Tasso ficou vermelho, levantou-se, começou a dar murros na mesa e a fazer sinais com o punho fechado em direção a Almeida Lima.

— Você é um palhaço, deixa de palhaçada rapaz, você é um vendido. Você é um vendido — disse o tucano, concluindo por atacar, além das “bonecas”, os palhaços e os vendidos. Ainda bem que os vendidos não gostam de aparecer como tais. Senão teriam também o direito de protestar.

 

O CÉU VIROU UM INFERNO — O episódio é a pá de cal que faltava ser despejada no que ainda restava de decência e compostura na Casa que um dia foi comparada ao céu e que hoje virou um inferno. Desde que estourou a revelação de que o lobista de uma empreiteira era quem pagava os débitos extraconjugais do presidente Renan Calheiros, há uns três meses, o Senado vem se desmoralizando.

No parecer que será votado abertamente pelo Conselho de Ética na terça-feira, os conselheiros Marisa Serrano e Renato Casagrande escreveram, contrariando Almeida Lima: “Renan Calheiros mentiu sobre sua capacidade de ter pago, com recursos que dizia possuir, suas obrigações pessoais. Jamais poderia ter colocado o Senado e o Congresso Nacional na situação em que hoje se encontram, vexados perante a opinião pública e desacreditados pela população”. Não há nenhuma inverdade nesse que é o básico nem nos demais sete motivos para cassá-lo.

Almeida Lima se apega ao presidente do Senado, que é (era?) um nome importante dentro do PMDB, para tentar ganhar musculatura no partido em Sergipe e salvar a própria carreira política. Apoiado por Renan, voltou ao PMDB buscando um partido forte pelo qual possa disputar a prefeitura de Aracaju no próximo ano. Ele faria qualquer coisa para ser prefeito de novo. Mas o problema é que o PMDB em Sergipe tem dono. Ou melhor, donos: Jorge Alberto, Marcos Franco, Benedito Figueiredo, Jackson Barreto e outros. Almeida vai ter que ir a pé, porque nesse bonde não tem vaga para ele.

 

JÁ SE DEFENDE A EXTINÇÃO DO SENADO — Agora, aproveitando que o processo de implosão daquele prato emborcado já está quase concluído, Almeida poderia acrescentar ao seu projeto de redução do Legislativo a sugestão do presidente do PT, Ricardo Berzoini, que defendeu que o país tenha uma única Câmara Legislativa, extinguindo-se o Senado. Berzoini considera que os Estados são hoje representados de forma desigual, principalmente no Senado, onde Sergipe, por exemplo, com seus 2 milhões de habitantes, pesa tanto quanto São Paulo, 40 milhões. Além disso, ele acha que a unicameralidade é mais produtiva para a democracia.

Em 2003, Almeida Lima apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição de reduzir a menos da metade o número de vereadores em todo o País. Dos 60 mil existentes, 30.542 deixariam de existir. É um projeto coerente e mais avançado do que a decisão do Supremo Tribunal Federal que, em 2004, reduziu 8.500 vereadores. Foi quando Aracaju deixou de ter 21 e passou a ter 19 representantes no Legislativo municipal.

Portanto, Almeida Lima, do alto da sua indignação e olhando de cima a casa da mãe Joana poderia incorporar a sugestão e propor a extinção do Senado. E aí acabava essa patifaria!

 

Mendonça quer distância do PT

 

O deputado federal Mendonça Prado (DEM) escreveu no seu blog, a propósito da coluna do último domingo, que insinuava uma aproximação dele com o governo de Marcelo Déda (PT):

“Caro Marcos Cardoso, não tenho nenhum interesse de me achegar ao governo. Não sou esquerdista, não sou oportunista e não suporto incompetentes. Estou no meu sexto mandato sem mudar de grupo político um só dia. As minhas posições são sempre claras, sem subterfúgios. Para mim o atual governo é uma catástrofe e tenho certeza que para a maioria da população é uma decepção.


Quando resolvi oferecer ao governo do meu Estado as emendas individuais a que tenho direito anualmente, não foi com o fito de me aproximar dos petistas. Fiz isso pensando única e exclusivamente na execução de projetos que visam ampliar a infra-estrutura turística de Sergipe, pois acredito que os meus conterrâneos exigem de mim e dos demais parlamentares, um comportamento decente. Ademais, os principais projetos apresentados pelo governo foram concebidos na gestão do meu partido.


Assim sendo, repilo peremptoriamente tal insinuação. Informo que tenho verdadeira aversão ao PT e como dizia Ulisses Guimarães em relação à ditadura, eu tenho repugnância. Portanto, solicito ao senhor que não me torture, idealizando um anseio de aproximação com o mencionado partido. Dele e do seu governo eu quero distância.”

NR. Acredita-se que a recíproca seja verdadeira.

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