Abraço de afogado

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Brasília, noite de quinta-feira, dia 1º. No calor da vitória de Arlindo Chinaglia (PT), eleito para o terceiro cargo mais importante na hierarquia da República, de presidente da Câmara, um abraço efusivo no vitorioso chamou atenção: era o impudico e risonho Paulo Maluf (PP). Chinaglia não se fez de rogado, abraçando-o alegremente. Mas o que tem isso? É caça às bruxas? Não, não se trata de revanchismo, desforra. É problema de memória mesmo, de amnésia coletiva ou letargia do povo brasileiro. E voto não se rejeita.

A questão simbólica embutida naquele abraço é que os políticos brasileiros são seres desprovidos de respeito ao soberano. Eles pensam que não têm satisfação a dar, podem fazer o que querem e não devem explicação a ninguém, muito menos a quem o elege. Afinal, esse povo depois se contenta com um agradozinho qualquer.

Quem vai ligar se Maluf é um político reconhecidamente afeito a caminhar por linhas tortas para atingir o que quer? Que sempre foi corrupto, mesmo? O que importa é que ele é o deputado federal mais bem votado do Brasil, com quase 740 mil votos, não é mesmo? E importa se Chinaglia foi um antigo desafeto, sempre esteve do lado oposto, combatendo-o ferozmente?

 

REFRESCANDO A MEMÓRIA — A organização independente Transparência Brasil coleciona recortes que lembram que, em 2005, Maluf esteve preso durante 40 dias sob a acusação de crime contra o sistema financeiro (evasão fiscal), lavagem de dinheiro, corrupção e formação de quadrilha. Os recursos depositados em contas atribuídas a Maluf teriam sido desviados de obras contratadas durante sua gestão como prefeito de São Paulo (1993-1996). A Procuradoria da República e o Ministério Público Estadual suspeitam que houve superfaturamento e fraude na construção da Avenida Água Espraiada. Foi libertado porque o STF julgou que, em sua idade, era frágil demais para permanecer preso. No dia seguinte foi fotografado comendo pastéis e bebendo chope em São José dos Campos.

Embora Maluf negue, a Justiça brasileira tem documentos que apontam a movimentação de US$ 446 milhões em contas de que consta como beneficiário em paraísos fiscais. Seu genro já admitiu à Justiça ter movimentado recursos ilegais em contas no exterior. Ele também foi condenado pelo STJ a pagar multa de R$ 1,2 milhão pela contratação irregular da TV Globo para a cobertura da Corrida de São Silvestre.

 

INVESTIGADORES E ACUSADOS COMEMORAM — Conhecido pelo temperamento explosivo, Chinaglia (pronuncia-se italianamente “Quinalha”) conquistou, ao longo da campanha, a simpatia de outros antigos desafetos, como o deputado Inocêncio Oliveira (PL-PE), com o qual quase foi aos tapas em 2005, e o governador mineiro Aécio Neves (PSDB), que Chinaglia mandou calar a boca em 1998 e agora aprovou discretamente a movimentação de integrantes de sua bancada pessoal em favor do petista.

Naquela mesma noite e madrugada, o vitorioso Chinaglia comemorou ecleticamente com neolulistas, membros de CPIs que investigaram o governo Lula e até acusados de participar do mensalão e do esquema sanguessuga. Tudo em nome da alegria.

 

O LATIFUNDIÁRIO E O COMUNISTA — Se o PP de Maluf apoiou Chinaglia, o PFL do ruralista Ronaldo Caiado e de Antônio Carlos Magalhães Neto apoiou a candidatura de Aldo Rebelo, do PC do B. A explicação é que era a opção mais forte para derrotar o governo Lula. Mas justifica? Dá para engolir que um deputado representante do grande latifúndio filiado a um partido de direita e conservador torne-se de uma hora para outra eleitor de um comunista de carteirinha que até hoje defende como justa a participação de ex-camaradas na luta armada e que ainda é aliado do inimigo maior daquele, Lula?

Na escala da credibilidade, agarrar-se ao inimigo para atingir o objetivo — que nunca é outro senão o poder — está muito próximo da corrupção eleitoral, que é ofertar dinheiro, bens ou serviços públicos ao eleitor em troca de voto. Numa eleição como a da Câmara Federal, todos ali esperam benefícios pessoais, claro. Os deputados do PMDB, PP, PTB e outros menos cotados cobrarão seu quinhão ao presidente da República por terem contribuído com a vitória do petista. É o preço que tem que pagar quem banca o jogo.

 

E NA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DE SERGIPE… — Sabe-se lá o que se jogou para garantir a unanimidade que resultou na vitória do deputado Ulices Andrade? Até a turma do PFL fechou com o candidato do governador petista Marcelo Déda, embora o presidente eleito, com seu charme provinciano, não tenha nada a ver com essa história de esquerdista. E a que preço a bancada dos neopeixinhos do PSC conseguiu emplacar André Moura, um novato, embora geneticamente forte, no segundo cargo mais importante da hierarquia da Assembléia, a Primeira Secretaria?

É o velho toma lá dá cá da política, que funciona mais ativo do que nunca, que permitiu excrescências como o mensalão e o sanguessuga e que vai acabar sepultado de uma vez o pouco que ainda resta da credibilidade da classe. É por isso, inclusive, que é urgente que se faça uma radical reforma política no Brasil, que dê um freio no fisiologismo e impeça o troca-troca imoral de partidos.

 

ESPETÁCULO DO CRESCIMENTO NA CÂMARA —Lula já desfruta os resultados de um programa de aceleração do crescimento bem particular. O número de deputados de partidos aliados ao Palácio do Planalto aumentou de 254 em fevereiro de 2003 para 354 agora. A migração de deputados de oposição para siglas aliadas de Lula contribuiu para fermentar o bolo governista. Exemplo: o PR (fusão do PL e Prona) já agregou nove deputados aos seus 25 eleitos. Está na iminência de receber mais cinco nos próximos dias. Os partidos aliados estão atacando ferozmente o PFL, de onde querem arrancar pelo menos uma dezena de parlamentares. Muitos se deixam seduzir, não conseguem viver longe do poder. É assim que se dá o espetáculo do crescimento. É o abraço de afogado.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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