ACADEMIA SERGIPANA DE LETRAS LEMBRA A IMIGRAÇÃO JAPONESA PARA O BRASIL

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Presidente da Academia Sergipana de Letras Dr. José Anderson do Nacimento,
Desembargadora Josefa Paixão e a
Palestrante Professora Marina Marie Aramaki  
Na segunda-feira passada, dia 16, a convite do Presidente da Academia Sergipana de Letras, Dr. José Anderson Nascimento, a professora Marina Marie Aramaki, proferiu uma brilhante palestra sobre os cem anos da imigração japonesa para o Brasil. A ilustre professora, obedecendo a uma ordem cronológica, brindou a todos os presentes, àquela sessão solene, com uma verdadeira aula sobre o povo japonês, sua cultura e sua história.

Iniciou por esclarecer o que ocorria nos dois lados do mundo, naquele tempo, final do século XIX e início do século XX. Até o terceiro quartel do século XIX, a sociedade japonesa era predominantemente feudal, dominada pelos Xoguns, que eram chefes militares detentores de mais poder do que o próprio Imperador. A economia era absolutamente fechada e estagnada num sistema agrário e dependente da cultura do arroz. A partir de 1854, outras nações, sobretudo os ingleses e americanos, forçavam para que os portos japoneses fossem abertos ao comércio internacional. 

O frágil governo xogunal foi obrigado a ceder aos crescentes privilégios comerciais estrangeiros, o que gerou uma crise interna sem precedentes, desaguando numa guerra civil que culminou em 1868 com a vitória dos que idealizavam a restauração do poder ao Imperador, e defendiam a modernização rápida daquele país nos modelos ocidentais.

Nascia, então, em 1868, a Dinastia Meiji, que, mesmo promovendo a modernização do país, oportunizou a ascensão de castas aristocratas que logo ocuparam importantes cargos na nova estrutura político-governamental, e uma emergente burguesia enriqueceu com os métodos industriais e financeiros importados do Ocidente.

Este enriquecimento, no entanto, foi carreado para as mãos de poucos, sobretudo daqueles que faziam parte das classes predominantes. A idéia de fazer do Japão uma potência foi a única prioridade, relegando ao um segundo plano as necessidades sociais.

Com isso, a maior parte da população que vivia no campo foi levada à miséria, sobretudo por causa dos impostos que eram a cada dia mais altos sem, em contrapartida, retornar, em qualquer benefício para os contribuintes.

Esta situação fez com que houvesse uma grande movimentação da massa populacional que buscava em outras paragens empregos e melhores condições de vida. Muitos migraram do campo para as cidades outros, para o extremo norte, para a ilha de Hokkaido, onde ainda havia regiões a ser desbravadas. Entretanto, sendo o Japão um arquipélago superpovoado, as opções logo escassearam e o governo japonês passou a promover a emigração para outros países, como alternativa.

Enquanto isso, o Brasil, cá no Ocidente, ao contrário, padecia de pequena ocupação demográfica, para as imensidões de terra e a população do início do século XX, bem como amargava uma das crises mais pronunciadas da falta de braços para a lavoura, especialmente, do café.

A libertação dos escravos em 1888, deixou o Brasil sem aquela massa produtiva. Necessário, se fazia então, estimular a imigração, agora não mais forçada, como lamentavelmente acontecera.

Havia, portanto, naquela época, entre estas duas nações antípodas, Japão e Brasil, uma situação muito complementar. De um lado, excesso populacional e exigüidade de espaço com a conseqüente escassez de trabalho e alimento para tanta gente; e do outro, exatamente ao contrário. Por tal razão, já em 1894, Sho Memoto, emissário do Ministério da Agricultura e Comércio do Japão visitou o Brasil e escreveu um simpático relatório de sua passagem por este país, estimulando o governo japonês a dar início a um intercâmbio com o Brasil, celebrando afinal, no dia 05 de novembro de 1895, quando sobreditas nações assinaram, na capital francesa um tratado pelo qual ambos os países passaram a desenvolver relações diplomáticas e, mesmo contrariando a opinião pública brasileira, abriram-se negociações para a vinda de japoneses para o Brasil. O que, de fato, só após treze anos, foi concretizado com o embarque no Porto de Kobe, no dia 28 de abril de 1908, das 168 famílias, totalizando 781 pessoas, rumo ao Brasil.

Foi naquela solenidade de despedida que o representante de Sua Majestade Imperial do Japão, o Deputado Gonta Doi, na presença do Cônsul do Brasil em Yokohama, Embaixador Santos Silva, pronunciou aquela emblemática frase que tão bem demonstra a cultura, o respeito e a honra daquele valoroso povo do país do sol nascente. Disse ele:

“Vocês estão indo para outro país e não podem esquecer de que cada um representa o Japão. É necessário que todos se encarreguem de não manchar a honra japonesa ou o nome de sua pátria. Se não forem capazes de viver condignamente, não pensem em voltar. Tenham vergonha disso e morram por lá”.

Durante uma viagem cansativa e desgastante, a bordo do navio Kasata Maru, que durou 52 dias, na manhã de 18 de junho de 1908 desembarcaram, neste outro lado do mundo, no porto de Santos, em São Paulo.  As maravilhas alardeadas pelas companhias particulares de emigração japonesa, as quais garantiam emprego e asseguravam que ficarem ricos em pouco tempo e voltariam para casa, se dissiparam. Ao contrário,  encontraram aqui muito sofrimento. Tratados como “novos escravos”, foram encaminhados para o interior de São Paulo e obrigados a morar em alojamentos sem as menores condições de habitabilidade, pois faltava tudo: água, instalações sanitárias, móveis, pisos, gêneros de primeira necessidade, que, além de escassos, eram muito diferentes daqueles com que estavam acostumados. Não bastasse os baixos salários, enfrentavam ainda, condições de trabalho aviltantes, dificuldades com o idioma, com a cultura… E, revoltados com a propaganda enganosa, iniciaram-se as revoltas e as fugas, deixando para trás as fazendas.

Somente a partir do momento em que resolveram unir-se em grupos, formando colônias em regiões despovoadas do interior, é que as coisas melhoraram um pouco e começaram a prosperar economicamente. Mesmo enfrentando a malária, a nuvem negra de gafanhotos em 1918, a grande seca de 1919 e a glacial geada do ano seguinte.

Muitas mortes foram contabilizadas naquele período, até mesmo de líderes das comunidades. Por tal motivo, ficaram meio arrefecidos os ânimos de toda aquela gente, estimulando, inclusive, muitas fugas para outros países e retornos à terra de origem. Porém, como bons agricultores que eram, venceram as grandes dificuldades e legaram um grande desenvolvimento à agricultura brasileira. Muitos produtos agrícolas como pepino, alface, maçã, caqui e pimenta-do-reino, foram, naquela época, transplantados e cultivados pelos japoneses.

Com o apoio brasileiro aos aliados durante a Segunda Grande Guerra Mundial os japoneses passaram a ser tratados como inimigos, iniciando um período amargo de perseguições. Forçosamente abandonados pelas autoridades, visto a posição contrária tomada pelo seu país em apoiar a Alemanha Nazista, aqueles imigrantes criaram associações clandestinas que acabaram se tornando violentas, como, por exemplo, a “Shindo Renmei”, que significa a liga do caminho dos súditos. Movimento que chegou a aglutinar 120 mil japoneses, com sede em São Paulo e filiais em 64 cidades do interior. Era uma associação criminosa formada por “katigumes” (vitoriosos) que perseguiam e matavam os “makegumes”, (derrotistas).

Os katigumes eram aqueles que asseguravam ser o Império Japonês invencível e não aceitavam que alguém, de sua origem, sequer comentasse sobre a rendição do Japão para os americanos durante aquele confronto armado.

 

Estes quase cem anos de intercâmbio cultural exerceram forte influência na nossa língua, na culinária, na saúde, nos esportes, nos produtos agrícolas, na tecnologia, etc. A vinda dos japoneses para o Brasil enriqueceu a nossa pátria com os costumes e produtos que do oriente trouxeram e plantaram e implantaram entre nós.

 

A palestra foi muito comemorada e elogiosamente comentada pelos acadêmicos: João Oliva Alves, Marlene Calumby, Luzia Maria da Costa Nascimento, Lígia Madureira Pina, Maria Tétis Nunes, Ana Medina, Bemvindo Sales de Campos, Jácome Góis, e pelas Macadêmicas Tânia Menezes e Ângela Margarida Torres de Araújo. Manifestou-se também, congratulando-se com a Academia e com a palestrante, a honrada visitante Desembargadora Josefa Paixão.

 

O presidente do Sodalício, Dr. José Anderson do Nascimento, encerrou a sessão com uma síntese do ocorrido e agradeceu à professora Marina Marie Aramaki, pela bela apresentação com que presenteou a todos naquela noite.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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