Acidente na BR 101 e a criminalização do MST

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Não é fácil a vida dos que, buscando assumir coletivamente o protagonismo das suas vidas e dos seus destinos, lutam para garantir direitos básicos. A todo tempo, esses que se predispõem a escancarar para o conjunto da população as desigualdades e injustiças características do modelo de sociedade que nós temos estão expostos a uma série de adjetivos, rótulos, preconceitos e estereótipos.

E basta uma "oportunidade" para que parte da imprensa, dos formadores de opinião e do conjunto da sociedade, arraigados a pensamentos conservadores, exalem todo o ódio de classe que têm contra esses que não aceitam a passividade como papel social. O objetivo, em última instância, é buscar transformar ações legítimas em práticas criminosas.

É exatamente isso o que está ocorrendo desde ontem em Sergipe. Uma fatalidade, que foi a lamentável morte de três pessoas em um acidente no Km 110 da BR 101, está sendo uma nova "oportunidade" para que parcelas da sociedade e da imprensa tentem criminalizar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

Antes mesmo de lamentar a morte das três pessoas e aguardar a necessária investigação sobre as motivações do acidente, profissionais de imprensa, formadores de opinião e agentes políticos têm ido a público tentar estabelecer uma relação direta entre a manifestação que o MST fazia na mesma estrada e o acidente e, assim, aumentar toda a carga de preconceito e ódio que existe contra um dos movimentos sociais mais importantes para a democracia brasileira.

Para os que quiserem discutir o assunto sem partir da posição pré-estabelecida de que o MST é o culpado pelas mortes, alguns dados e informações precisam ser afirmados.

1. A manifestação que integrantes do MST realizavam na BR faz parte da tradicional Jornada Nacional de Lutas do movimento, que acontece todos os anos em várias cidades do país. Ou seja, não é algo novo e é algo, cabe frisar, garantido na Constituição Federal de 1988: o direito à livre manifestação.

2. A Polícia Rodoviária Federal estava ciente da manifestação, tanto que, acertadamente, divulgou em sua página oficial em uma rede social da internet que um trecho da estrada estava bloqueado e deslocou viaturas para o local.

Frente a isso, nos cabe refletir: se ao invés de uma manifestação do MST estivesse acontecendo uma blitz da Polícia Rodoviária Federal, que também exigisse a paralisação dos carros, e houvesse o mesmo acidente, atribuiríamos a culpa pelas mortes à PRF?

Em meio a tanta acusação prévia, acredito que algumas doses de informação e reflexão nunca são demais. É o que tento aqui.

No mais, nos cabe prestar solidariedade às famílias e amigos das vítimas do acidente, exigir que a investigação sobre o fato seja célere e manifestar apoio ao MST em sua luta diária por igualdade e justiça social.

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