AFINAL, O QUE É SER UM INDIVÍDUO CRIATIVO?(*)

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Há alguns dias atrás recebi por meio de um amigo uma mensagem de uma famosa instituição que criticava a vinda de estrangeiros ensinar criatividade no Brasil. Num primeiro momento fiquei pensativo, num segundo momento me perguntei sobre a liberdade de ir e vir e se realmente não temos no Brasil pessoas criativas o suficiente para nos “ensinar” sobre criatividade. Volta e meia acredito que ainda precisamos de “aporte” de conhecimento nessa área.

 

Falamos tanto da criatividade brasileira, mas talvez – infelizmente – muitas vezes nós mesmos sem querer confundamos tudo isto. Quando falo em criatividade entendo que preciso fazer um paralelo com atitudes, com cidadania, com ética, respeito, valores humanos e princípios universais. E mais ainda, com a coerência entre o discurso e a prática. Não consigo entender e acreditar que estamos exercendo a nossa criatividade quando as nossas atitudes não estão imbuídas de cidadania, respeito e dos princípios universais.

 

Acredito que, infelizmente, no Brasil muitas vezes as pessoas que falam de criatividade misturam tudo e o que ofertam ao seu público é a criatividade do “oba-oba”, da mesmice do “febeapá” e, como conseqüência, o mundo empresarial não quer nem sequer ouvir essa palavra.

 

Só para dar um exemplo do que muitas vezes acontece e mesmo com todo o cuidado que temos nos deparamos com a criatividade da esperteza. A Fundação Brasil Criativo acabou de realizar o VI FIPC, um sucesso, mas muitas coisas acontecem nos bastidores. Este ano resolvemos abrir um espaço para jovens adolescentes, para artistas locais e para artesãos. Num dado instante estava circulando na feira típica que estava instalada no fórum quando o Maxwel Madeira, o nosso representante no Estado do Espírito Santo, apontou para um determinado conjunto e me perguntou: “Fernando, você permitiu isto?” E eu, respondi: “Sim, permiti.” Indignado, ele voltou a insistir: ”Fernando, você tem certeza? Temos um evento de jovens acontecendo!” E eu respondi: “Sim, mas o que tem isto com os jovens?” Então, ele mais explicito falou: “Fernando, você está vendo isto?” Ai, foi quando eu percebi a angústia e o sentido da sua pergunta. “Uma figura pornográfica de extremo mau gosto estava lá exposta numa barraca…” Imediatamente, falamos com o responsável e, em seguida, fizemos uma vista geral em todas as barracas… Coisas da vida? Não, simplesmente, a criatividade de algumas pessoas perdeu a noção de valores, de respeito e de limites. E com isso todos perdemos…

 

Acredito que é isto que acontece no Brasil de um modo geral. Acreditamos que somos “criativos” e somos “espertos” demais. Presenciei outro caso de “esperteza brasiliana”. Demos convites para um pequeno grupo de estudantes universitários. Percebi depois que uma senhora estava escondida por trás das coxias do palco do Teatro Tobias Barreto e fui informado que essa senhora, profissional liberal e de classe média alta estava lá porque a filha ia se apresentar com um grupo e ela não queria participar do evento, e sim apenas ver a apresentação da filha. Fui alertado depois durante o fórum que essa senhora estava o tempo todo com o crachá da filha e também trouxe a sua mãe junto (sem nossa autorização é claro). São coisa desse tipo que tornam difícil, até mesmo para o mais sério governante, deixar as coisas na rota certa nesse país chamado Brasil, justamente porque a “criatividade esperta” do brasileiro sempre caminha no sentido de levar vantagem em tudo, apenas para o seu lado esquecendo de que para realizar um evento existem custos fantásticos que precisam ser cobertos depois. Assim ele se considera “criativo” quando entra em um evento às escondidas, quando troca de crachás, quando esquece dos valores e respeito na sua própria arte. Graças a Deus são casos isolados, mas servem de exemplo.

 

Num outro instante uma senhora muito séria tirou o crachá do pescoço e o entregou para uma amiga passar para outra pessoa que estava querendo entrar… As coisas vão por ai. E a criatividade esperta do brasileiro continua indo para o espaço. Um jovem voluntário que observou a troca de crachás justamente feita por um “adulto” o qual por sua vez – segundo a sua visão – deveria dar o exemplo. Assim sendo, o jovem voluntário simplesmente barrou a brincadeira. Sabem o que aconteceu? Indignada a senhora olhou para ele e disparou: “Sabe quem sou eu?” Ele disse: “Não, não sei, mas sem crachá a senhora não pode ficar”. A senhora irritada saiu indignada dizendo: “Nunca mais volto a esse evento…”.

 

Ao longo desses seis anos, mesmo – muitas vezes – sendo repetitivos temos procurado ensinar às pessoas que a criatividade depende basicamente de utilizarmos muito bem a qualidade do nosso pensamento, de adiarmos o julgamento, de ouvirmos as pessoas, de alternarmos o nosso pensamento (divergente e convergente) e, principalmente, o ser criativo exerce e vive atitudes e posturas cidadãs. De nada, nada mesmo adianta querer ser um indivíduo criativo para burlar leis, passar por cima dos outros, levar vantagens e enganar as pessoas.

 

Finalmente, quero dizer que esses são apenas casos isolados, citados como exemplos do que não deve ser feito; graças a Deus a maioria absoluta dos participantes do VI FIPC é constituída por pessoas que entendem as dificuldades do nosso país e trabalham para construir um Brasil melhor para todos. Eis a diferença!

 

E o ser criativo é justamente aquele que luta contra a mesmice, contra a chatice dos modelos mentais ultrapassados, contra aquelas pessoas que furam filas, aqueles que mandam cartãozinho pedindo vantagem, que passam o crachá para outro, que usam o crachá de um amigo emprestado, que vão para um evento que fala de cidadania, de respeito, de empreendedorismo e que abre suas portas para a juventude e procedem como se estivessem em um campo de batalha.

 

E, falando em juventude queremos agradecer aos 408 jovens que participaram do I FNPA pela sua alegria, seriedade, respeito e participação intensa.

 

Nós, os membros, amigos e voluntários (jovens e adultos) da FBC, dedicamos a vocês participantes jovens de todas as idades o VI FIPC e todas as suas alegrias. Até 2005!

 

* Fernando Viana é diretor presidente da Fundação Brasil Criativo
presidente@fbcriativo.org.br

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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