Alguma coisa sobre Roma – de Afonso Cuarón

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O que surpreendeu neste nível de conversas sobre “o que é o cinema” – como se conseguíssemos ainda falar sobre isso – , nunca foi a tentativa frustrante de continuar um efeito de vinculação de pessoas que assistem à vida que é mostrada, ali, na tela. Surpreende a crítica que é feita, atualizada, sobre o efeito no cinema de provocar nossos sentimentos escondidos. Hoje, os afetos são de quem produz os filmes, não de quem assiste. Alguns destes, afetos que se transformam em discursos, nos colocam em uma espécie de discussão intelectual com crenças que temos sobre qual é o mundo que vivemos.

Roma foi, ou é, um filme que dividiu opiniões neste campo. Que tipo de sentimentos ele provoca no espectador? Um sentimento que se associa a uma ação política. Podemos, esquematicamente e imediatamente, dizer que a divisão é entre 1) quem se coloca no lugar do ponto de vista do narrador do filme, que é o próprio Cuarón; 2) quem se coloca no lugar das pessoas que ele expõe, a saber, pessoas que se colocam numa realidade distante de sua classe social. Há, por fim, quem aceita a história, e quem não aceita.

É certo que Cuarón tenta falar, em seu filme, sobre algo que não compreende totalmente. Ele mesmo. Não é preciso ser expert em algo para se meter a falar sobre: e às vezes, o que mais fascina em um discurso é sua ingenuidade, espontaneidade. Há uma câmera, dirigida pelo próprio diretor, que olha detalhes de algo que parecia ser de uma memória afetiva particular de um integrante da classe média mexicana da década de 1970. “Eu era branco,classe média, mexicano que vivia em uma bolha. Não tinha vigilância. Eu tinha o que os pais te dizem – que você tem que ser bom com pessoas menos privilegiadas que você, e tudo mais – mas você está em seu universo da infância”, disse o diretor ao site Variety.

Este “pequeno problema” não é o único. Cuarón traz uma memória nítida, ao que parece ser opaco. Os detalhes nos dizem: há uma pretensão. Um ponto que é visível, também, em um diretor como João Moreira Sales (como no filme Santiago, em que seu mordomo da infância é protagonista). A proposta de se falar sobre uma realidade à parte de sua escolha – afinal, não há escolha de classe, mas há escolha de posição de classe – , reverbera na fidelidade política de um lugar de fala, que teria, ou não, credibilidade na descrição do acontecido.

Porém, não são os acontecimentos fiéis que são retratados no filme. O que se vê lá é uma montagem de afetos, visões. Cuarón, portanto, vendo sua segunda mãe – talvez mais presente que a mãe verdadeira. Algo comum na América Latina: uma mulher que cuida de crias alheias, tema que foi muito bem explorado por Anna Muylaert, em Que horas ela volta. Essa mulher, com vida plena, é contratada – exerce seu trabalho e sustenta sua vida – , na casa de uma outra pessoa. Uma evidente herança de um período escravocrata por aqui.Essa mulher é o retrato, portanto, não de uma relação política preservada no museu do presente. É um retrato de uma relação presente de estruturação potencial do universo capitalista, portanto, muito atual. Cuarón está ali, olhando o que ocorre no seu mundo passado e atual.

Em Roma, o que vemos é uma evidência das diferenças, distinções, que não são só de classe, na América Latina. A diferença é a étnica. E de linguagens, vidas, presenças distintas. Nessas vidas diferenciadas, uma babá indígena doméstica (aspecto econômico, e de classe social) fala sua língua e mostra ao espectador domesticado, tal como o diretor, também por essa maternidade da periferia americana, um mundo à parte do seu: o indígena, execrado pelo México “civilizado”.

Guillermo del Toro, outro mexicano no centro do Óscar de 2018, chegou a dizer que Roma é um dos 5 melhores filmes já feitos até hoje. Está claro, pois, que há uma nova ondamexicana nos EUA de Trump, uma ironia do destino. Roma aparece nesse contexto, cujo conflito se explicita não mais totalmente interno ao império americano.

O filme foi lançado tanto pela plataforma digital streaming, como dizemos, mas também nos cinemas em todo o mundo. Uma novidade na distribuição de filmes, porque antes havia – se é que isso ainda não terminou – , uma desconfiança absurda em relação à TV como meio de divulgação do cinema. Isso, de fato, acaba quando as TVs hoje modificam sua natureza de exibição. Elas não são mais TVs, mas sim, telas de canais provedores de conteúdo em demanda (on demand). Por isso Cuarón, na sua premiação em Veneza, afirmou que não há mais diferença entre o cinema em salas e o cinema que se exibe nas telas privadas de TV. Não se trata de uma “revolução”, mas uma modificação dos meios (das mídias). E nessa mudança, mais da metade dos espectadores da América Latina começa a preferir redes como a Netflix a canais de TV aberta ao público.

Roma surge, então, como um filme que coloca como tema o “político” dos costumes do sul, dos subalternos, num contexto de distribuição físico de ideias e imagens completamente distinto de qualquer outro até hoje. Isso, certamente, põe em questão qualquer desqualificação do filme por seu caráter infiel, à sua “condição de classe média”. Há, certamente, vários meandres dessa luta interna ao espetáculo, pois ainda ouviremos mais a respeito do que tem significado a Netfilx, Itunes, Prime, Hubu, e outros provedores de obras cinematográficas ao espectador da smartv. Óbvio que seria um “empresário” das imagens que faria isso, e não um excluído… É pessoal.

Torcemos para que, após essa tentativa de explosão por dentro provocada pelos mexicanos de classe média, filmes produzidos por indígenas, ou filhos de indígenas, sejam também parte do rol de blockbusters (se é que ainda podemos usar esse termo).

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