Alinhavando leituras.

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Na semana que passou folheei alguns livros.

Fiz uma leitura rápida, grifando textos de melhor preferência, sem conseguir mergulhar intensamente por suas páginas.

Sou um contumaz comprador de livros. Compro-os compulsivamente, sem os ler totalmente.

Embora leia bastante, leio pouco, como desejaria.

Não consigo ter uma leitura veloz, nem com exercícios de memorização e eficiência, como muitas pessoas o conseguem.

Certa feita tentei exercícios de “Leitura Dinâmica”.

Ali se falava algo como “morder as palavras”, salvo engano.

O segredo era “morder” as tais palavras de modo que a pupila ocular pudesse captar imagens que contivessem um amplo conjunto de palavras, quiçá de frases, ou trechos completos de uma página, como um glutão à Saturno.

Relembro Saturno, porque este antigo deus itálico tinha uma garganta larga a ponto de poder engolir, sem mastigar, nem ruminar, os filhos que gerava.

Porque o fazia assim? Eis uma longa estória, por glutonaria, avidez e voracidade, que vale repetir.

Saturno, ou Cronos para os gregos, era filho de Urano (o Céu) com Gaia (a Terra), que lhe era irmã e lhe dera muitos filhos, entre heróis, deuses e titãs.

Diz-se que Cronos junto com sua mãe castraram o pai e o destronaram.

A explicação dada para tal incrível capação fora porque Gaia estava cansada de procriar como coelha, sem conseguir abrandar o fervor lascivo de Urano.

Por ter castrado o pai, Saturno (ou Cronos) temia ser morto por sua descendência quando essa surgisse, daí eliminar cada filho logo ao nascer, engolindo-os, numa ingestão, viu-se depois, sem digestão nem aerofagia.

Saturno teve muitos filhos também, alguns deles com Rhea, sua irmã, de pai e mãe, ambos governando o mundo sem incesto.

Indigestões nunca ocorridas e incestos jamais denunciados levaram Rhea a armar uma armadilha contra o seu irmão-esposo.

Conta-se que ao lhes nascer Zeus (ou Júpiter), como sua última concepção, Rhea escondeu a criança, envolvendo uma pedra em fraldas, que foi deglutida por Cronos (ou Saturno), o marido glutão.

A lenda tem seu final esperado. Zeus (ou Júpiter) mata o pai desnaturado libertando os irmãos que permaneciam ainda vivos no seu abdome. Daí a ingestão sem digestão, nem arroto, acima vomitada. 

E a glutonaria retorna, em regurgito meu bovino, porque eu não consigo nas minhas leituras ser um glutão a ponto de engolir granito com se fora uma pepita sem ganga.

Sou lento nas minhas leituras, grifando livros, assinalando textos, anotações para um segundo estudo, uma tentativa de extrair do veio o brilho e a luz.

Assim, compro mais livros que leio. Culpo a internet, também por isso.

A internet nos desvia com o acesso rápido aos jornais; Folha, Estadão, Globo e JB, para falar daqueles do Sul maravilha e dos de fora como o Le Monde, Le Figaro e L`Humanité, por apreciar a cultura francesa, e em outros casos o Times, o Washington Tribune e o New York Times, para tentar apreciar versões.

Quatro livros muito bons

Resto, portanto, uma confusão de ideias. Confusão que me diverte, sobremodo. Daí os meus passeios, as minhas “viagens na maionese” em preferências alucinógenas.

De forma que alucinações a granel, marcaram as minhas recentes leituras.

Direi, por início, que há no mercado editorial um livro muito bom sobre um velho tema relegado ao esquecimento.

Trata-se de “O Grande Debate” de Yuval Levin (Copyright  Yuval Levin, 2014), originalmente publicado nos Estados Unidos, como “The great debate”, pela Basic Books, integrante do Perseus Book Group, e agora lançado no Brasil (2017), pela Editora Record, Rio de Janeiro – São Paulo, com tradução de Alessandra Bonrruquer.

Em seu Prefácio, Yuval Levin se diz alguém que ganha a vida como combatente de debates políticos.

É editor de um jornal trimestral sobre política interna, e um acadêmico “think tank” que estuda o sistema de saúde, a reforma das subvenções, o orçamento federal, e outros “assuntos similarmente extravagantes”.

Esses “think tank” constituem grupos de pensadores que tentam esboçar opiniões independentes, exibindo uma posição não engajada à política e aos grupos tradicionais.

Acham-se, e aí vale o nome, o modismo e a exibição, em maior postura de credibilidade, em inovação e estratégia.

Dizem-se não possuir um engajamento que se possa suspeitar de proselitismo com as correntes de pensamento e pessoas já desgastadas na atual arena dos embates.

Extravagâncias inconclusas à perquirir, direi que por início e sem o aprofundamento na leitura, que Levin, só por seu currículo, já suscita desconfianças ou repulsas in “terra brasilis”, ao dizer que trabalhou na equipe do Presidente George W. Bush e com vários membros republicanos do Congresso.

Nós, do Brasil, em maioria, detestamos o pensar republicano. Preferimos os políticos democratas, como adorávamos o Obama que saiu.

Para Levin, a compreensão dos diferentes dilemas políticos que dividem a sociedade americana revela que tal divisão não se trata de uma coincidência arbitrária.

“Conservadores e liberais – e, consequentemente, muitas vezes republicanos e democratas – se veem em lados opostos de debates contenciosos em uma variedade muito ampla de assuntos, como políticas econômicas e sociais, ambiente, cultura e incontáveis outras questões públicas. A direita e a esquerda parecem genuinamente representar pontos de vista distintos, e nossa vida nacional parece, quase que intencionalmente, trazer à superfície questões que as dividem”.

Debates, muitas vezes incompreensíveis, norteados não por paixão partidária ou interesses econômicos, mas que por questões mais profundas bem poderiam ser mais acessíveis ao cidadão comum, afinal dizem respeito a questões morais e filosóficas, que cada um entende como verdadeira e de maior importância em relação à vida humana influenciando suas expectativas em relação à política.

Entende Yuval, que o surgimento de uma esquerda e uma direita na política americana para ser compreendido exige um melhor aprofundamento, tanto histórico como filosófico.

Histórico, porque é preciso mergulhar no século XVII, e mais precisamente naquela “extraordinária era da Revolução Americana e da Revolução Francesa que, juntas, ajudaram a moldar o mundo moderno”. 

Filosófico, porque neste aprendizado daquela era conseguimos repensar os mais básicos e atemporais dilemas da sociedade e da política.

Nesse sentido, o autor situa o encontro do histórico com o filosófico, não como um contexto abstrato que se cruza ao acaso comparativo, mas com o encontro real entre duas figuras notáveis dessas correntes que se formaram.

Um à direita: o político, filósofo, grande orador do parlamento londrino, nascido irlandês, Edmund Burke (1729-1797), e outro à esquerda; o inglês Thomas Paine (1737-1809), também político britânico, panfletário e revolucionário, inventor e  intelectual, um dos “Pais Fundadores” dos Estados Unidos da América.

Para finalizar sobre esse livro, enquanto sua apresentação e prefácio, Yuval Levin se define: “Sou conservador e não tentei deixar minha visão de mundo do lado de fora da porta ao explorar as fundações de nossa ordem política. Mas um conservador precisa se interessar pelas tradições de sua própria sociedade, e nossas tradições políticas sempre se contiveram tanto a esquerda quanto a direita – cada uma delas defendendo apaixonadamente seu entendimento do bem comum. Logo sou um conservador profundamente interessado em compreender a esquerda e a direita como realmente são”.

Um convite encorajador, diz ele, para ambos os lados descobrirem “coisas não apenas importantes, mas tremendamente interessantes”.

Uma discussão criativa a fustigar fetichismos vazios e prejulgados baixios ao nosso prosseguir. E o livro, só pela apresentação revela-se instigante e discursivo.

Outro livro que folheei foi “Os Erros Fatais do Socialismo” do economista e filósofo austríaco, Friedrich August von Hayek (1899-1992), lançado também agora (2017), pela Faro Editorial.

Esta obra creio que foi lançada originalmente com o título “The fatal Conceit: The Errors of Socialism”, em 1989.

De Hayek, ouço falar muitas coisas. A maioria alinhavos superficiais de seus estudos.

Hayek não é fácil de mergulhar. Exige dedicação a temas econômicos em que sou um jejuno.

Creio, ter ouvido alguns ecos, afirmando que sua obra maior é “Caminho da Servidão”.

De Hayek, li alguns comentários superficiais em Rodrigo Constantino (no provocativo “Esquerda Caviar”, no discutível “Privatiza Já” e na sua pregação liberal “Contra a Maré Vermelha”), e mais densamente em Roger Scruton no seu famoso “Como ser um Conservador”.

Agora chega o texto do próprio Hayek: “Os Erros Fatais do Socialismo”, discutindo o porquê de a teoria não funcionar na prática.

Em verdade, desde a queda do muro de Berlin, todo mundo sabe que o Socialismo se perdeu no rumo.

Todavia, o Socialismo é ainda um sonho a perseguir. Para muitos!

No Brasil, por exemplo, sonha-se em imitar a ordem do “Paredon” de Castro-Guevara e a desordem vigente na Venezuela de Maduro.

O que não se sabe ainda é se este pesadelo é almejado por expressiva maioria da nossa população; daí os entreveros de “mortadelas” e “coxinhas”, mal e bem-falantes, idiotia ampla e miscigenada.

E nesta mistura pouco fina, o conservador merece escárnio de retrocesso, e o progressista aplauso de retogresso. Um desassossego em desesperança atual de nossos líderes.

De forma que Hayek na sua chegada pode restar esquecido e desprezado, afinal aquilo que não nos agrada sempre pode sumir da  estante ao enterrarmos pensamentos e cabeças em gestos comuns de avestruz.

Avestruzes e falta de luzes ao léu, desejo lembrar que falou-se muito do economista Roberto Campos, no ensejo dos seus centenário de nascimento.

Iam republicar sua obra e eu a desejei avidamente porque muito se perdeu nos meus poucos recortes de jornais.

O desejo foi passando e a vontade morreu. Até hoje não apareceu nada do nosso lúcido pensador “Bob Fields”, que muita falta faz nesta terra de muito sol e pouca luz.

Em poses de avestruz, peçamos luzes à Cruz, nestes momentos tenebrosos do nosso existir.

Quanto à Luz verdadeira, a Cruz e às crises da Fé, há também um bom livro na praça. Trata-se de a “História da Reforma”, de Carter Lindberg, publicado pela Thomas Nelson Brasil, do original “The European Reformations”, datado de 2010, que chega ao Brasil em tradução de Elissamai Bauleo.

A temática de Lindberg destrinça as amplas reformas a partir de Lutero, Calvino, Zwinglio, etc, entre condenações, perseguições e anátemas.

Trata-se de uma visita ao passado utilizando a distância e a perspectiva para que possamos compreender o presente. “A história nos oferece um horizonte com o qual vemos o passado, mas também o presente e o futuro”, repete.

Vale responsar o aforismo citado por Carter Lindemberg do filósofo Hasns-Gerg Gadamer: “Indivíduos sem horizontes sobrevalorizam o presente, enquanto aqueles que os têm são capazes de perceber o significado relativo do que está perto e longe, daquilo que é grande e pequeno”.

E por final: ‘Ter um horizonte quer dizer aprender a olhar além do que está ao nosso alcance – não com o fim de ignorar acontecimentos, mas para vê-lo melhor, isto é, dentro de um todo maior e em sua proporção verdadeira”.

Como na navegação, continua; “fatos distantes são mais eficientes na história do que fatos próximos no sentido de nos dar um posicionamento mais preciso”.

“Mesmo marinheiros inexperientes sabem que é tolice navegar se fixando na proa em vez de fazê-lo olhando para as estrelas ou para terra firma”, prenuncia Lindberg em sua densa “História da Reforma”.

Já eu, que prefiro dançar a navegar, acrescento que ninguém consegue fazê-lo sem erro com os olhos distraidos com os pés.

Uma conclusão tola, é verdade! Igual àquela que desequilibra o ciclista cuja atenção se prende ao pneu que lhe rola à frente.

De Fernando Pessoa bem vale repetir: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.

Navegar é preciso, de precisão, de exatidão e certeza, algo inerente à ciência, à matemática, uma arte por que não? Nunca uma coisa comum de reles necessidade.

Para terminar, recomendo como boa leitura a biografia de Rita Lee. Um deleite agradabilíssimo de quem desbrava intolerâncias e prejulgamentos, exibindo criatividade e inteligência; cerca de 300.000 exemplares vendidos.

Rita Lee que como Lutero, Giordano Bruno, Galileu Galilei e tantos outros a seu tempo foram condenados pelo establishment, sempre retrógrado aos do não seu agrado em excessivo olhar para a proa do barco que prossegue, para os pés do dançarino que valseia, ou para o pneu da bicicleta que bambeia. Uma inércia imprecisa do momento, sem confiar no preciso momento de inércia que devia possuir a vida.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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