Amaral Cavalcante, a vida lhe quer bem! 

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Amaral Cavalcanteque já sofria de insuficiência renal crônica, não resistiu aos novos tempos, no isolamento imposto pela pandemia. Não sei se vitimado pelo vírus ou pela solidão! Difícil imaginar ele em quarentena, apesar de que nos últimos anos tenha passado boa parte do tempo recolhido no seu templo da praia, entre plantas, quadros e livros. Resgatado pela Academia Sergipana de Letras e pelo comando da revista Cumbica, da qual era editor-chefe e que a tornou um modelo de publicação para todo o país, Amaral sempre foi um lobo solitário, mergulhado no âmago da sua inteligência profunda e nas contradições da vida. De caráter afirmativo e verdadeiro, dizia o que pensava e por isso chegou a incomodar muita gente, mas a vida lhe queria bem, apesar dos descuidos que tinha com a vida. Coisa de poeta?  

Amaral Cavalcante era da mesma idade do meu irmão Marcos e juntos eles revolucionaram a pacata Itaporanga da década de 50/60. Promoviam jograis literários, rodavam filmes, concursos de miss, para prestigiar as mocinhas da cidade, dos quais eram os organizadores e jurados  ( ele pegava as medidas do busto e o mano Marcos a dos quadris) e outras peraltices da adolescência. O velho casarão da família Dias era tipo um clube social da cidade, para sessões literárias e culturais e Amaral por lá sempre despontava, com sua inteligência e irreverência, brotando aos turbilhões. E eu, criança de calça curta, ficava com outros meninos da mesma idade, sentado em círculo, extasiado e alegre com todas aquelas manifestações. Mas a diferença de idade entre nós na época era grande, coisa de uns 12 anos e todas aquelas reminiscências ficaram para trás. 

Do seu passado, Amaral evoca singela lembrança. “Entre as vastas, mais fugidias margens da memória, as cândidas molecagens nos poções do Vaza-Barris, em Itaporanga d’Ajuda, nadam, pescam siris ovados, camarões espertos. Coisas que o jereré da vida já não nos permite achar, nem sob o lodoso mangue desta cidade Capital – onde vim morar – nem nas gôndolas esquálidas dos seus supermercados. O privilégio da cidade era um rio habitando os quintais. O Vaza Barris cortava respeitoso as trilhas domésticas, como um inquieto horizonte de caudolosas possibilidades. Ele levaria às distâncias do mar a inquietude dos meninos, o zuadento thi-bum dos nossos pulos mortais, levando, lavando os sonhos mais pueris da meninada. Enquanto isso, ao cimo da ladeira do Sapé, o trem de ferro – outro rio a serviço das distâncias – enchia de carvão e fumaça o sonâmbulo destino da cidade. Um dia, todos nós estaríamos longe dali. Como seria o mundo além daqueles rios? Era ela, então, uma pequenina aldeia entre rios, ela mesmo um córrego fiel de silêncios familiares. Tão silenciosa que se podia ouvir nas tardes modorrentas, o alarido das crianças aos sustos e imprecações, provando em acrobáticos mergulhos os seus rituais de incipiente coragem e intrepidez. 

O pai de Marcos, o seu Tonico (Antônio Conde Dias) era um grande cronista católico. Escrevia na A Cruzada. Era afável, bem humorado e inteligente. Permitiu que a casa dele se tornasse uma espécie de centro cultural, onde a meninada de Itaporanga podia ler jornais e revistas importantes, o Cruzeiro, Vida Doméstica, inclusive as femininas, de moda, como Burda e Marie Claire, assinadas por Dona Natália e, de vez em quando, nos concedia o beneplácito da sua opinião sobre a nossa incipiente literatura. 

   Itaporanga permanece ainda assim, tão querida quanto indelével na memória, mas irreversivelmente aquática: será sempre um rio correndo em priscas eras, onde permanecem submersas as nossas armadilhas jererés.” 

Anos depois, em Aracaju, nos reencontramos, dessa vez já adultos, ele envolvido em várias ações como agente cultural profícuo. Marcos entrou na Medicina e os dois nunca mais voltaram a se encontrar de forma regular, um ou outro, aqui ou acolá. Foi a minha vez. O surgimento do Madrigal de Sergipe, organizado pelo maestro Paulo César Prado,  deu a oportunidade de reencontrar Amaral com seu vozeirão afinado de barítono. Com ele, mais Durval e Clóvis, integrávamos o naipe dos barítonos. Foi um tempo inesquecível, com os ensaios aos sábados no Conservatório de Música. O Madrigal de Paulo César fez sucesso com várias apresentações em Sergipe, no Festival de Arte de São Cristóvão e em outros estados na década de 70. Foi a partir daí que passei a ter mais contato com Amaral.  

Nos verões da cidade formávamos uma confraria eventual, graças ao elo Armando Rollemberg (Armandinho) e Bosco Mendonça, que nos unia pela música, pela poesia e, podemos dizer assim, pela peraltice. Num desses encontros, ele colocou no papel uma singela prosa poética, denominada China Querida. Assim ele se expressou:  

Chego em casa ainda com um pé nas nuvens e o outro no chinelo, arrastando histórias, levantando na poeira de outros tempos a memória de grandes amigos. Não sei por onde é melhor firmar o passo: se com o pé na escala sideral do bem querer que esta noite nos trouxe ou mais humano, na vereda fortuita dos gozos terrenos, digamos assim, da alma escancarada.  

           Ai de mim, escancarado na imensidão desses mundos, descompassado que sou e tão atrapalhado, se não me valesse a sua tranquilidade terrena – querida China – e a loucura santa do seu marido Bosco, este sim, guardião de antigas maluquices e amigo sempre, graças a Deus pra caralho.  

Você, mulher, viu Armandinho Rollemberg se desfazer bonito de amor como eu vi, quando Adriana cantou terna e desassombrada? Viu o olho dele soltando estrelinhas de São João? Durval, ninando o filho temporão, tão suave pai se abrindo em confissões? Viu iluminar-se como fogos de artifício, a voz de Lúcio Prado construindo guirlandas no ar e papoucadas, lindas, em derramadas pirotecnias? Viu, mulher?  Percebeu a firmeza do Comandante acostumado a perscrutar horizontes, viu como ele é pousado e sereno? Viajou no teclado daquele menino,  ofereceu ao seu deslumbramento à mesa posta perfeita, ao vinho melhor nos aquecendo, rubras quenturas de amor incendiadas? Raramente se recebe assim a nós, as visitas de outrora.  

Anos depois, Amaral chega à Academia de Letras, com toda a sua irreverencia, numa linda festa de possee e discursos antológicos de Marcelo Deda, que fez o seu panegírico e do próprio recipiendário.  No entanto, absorvido por outras atividades que tomavam muito o seu tempo, pouco frequentava a Academia. Lutava pra editar com regularidade o seu “Folha da Praia”.  

Anos depois, em 2016, abria-se vaga para a Cadeira 36, com a morte do professor Acrísio Torres. Comecei a conversar com cada   acadêmico sobre a minha pretensão de sucedê-lo e fui pessoalmente à casa de Amaral, na Atalaia, na certeza de obter o apoio dele. Para minha surpresa, disse que não me daria o voto porque já havia se comprometido com outro candidato. Saí triste, decepcionado, tinha como certo o voto dele, por tudo que já havia relatado acima. Na véspera do dia da sessão, que aconteceria na segunda-feira, estava com a família terminando de almoçar no Restaurante Carro de Bois, quando o telefone toca. Era ele. “Dá pra você passar aqui em casa hoje à noite? De pronto, respondi: passo, mas só se for agora, estou aqui pertinho…Imaginei o que poderia ser. Por via das dúvidas, não queria deixar pra noite. Ele estava à porta da casa com um envelope na mão. “Fiz uma viagem no tempo, lembrei de seu pai e de sua mãe e, principalmente de Marcos”, e me entregou o envelope que identifiquei na hora. Abracei-lhe a sorrir e ele correspondeu com um sorriso maroto. No dia seguinte, em eleição bem disputada, fui aceito para a Academia com  apenas dois votos de diferença…! 

Depois desse episódio, ele esteve na minha posse na Cadeira 36 da Academia, um privilégio para mim, depois nos encontramos algumas vezes na Edise,  a cada lançamento de  uma nova edição da Cumbuca, que cheguei a colaborar atendendo convite dele, e por último no lançamento, na Galeria Mário Brito, do seu livro A vida me quer bem, cuja leitura foi meteórica e deslumbrante! Depois, nunca mais o vi! Ficou o vazio! Ficou agora o silêncio do poeta! 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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