Antes das 11h

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Ainda não eram 10h30 da manhã quando as araras da coleção Dress To para a C&A começaram a ficar vazias. A maioria das peças já tinha sido carregada por mulheres que pareciam estar fazendo a compra das suas vidas.  Algumas levaram reforços e selecionavam sem muito critério os cabides que deveriam ser protegidos das mãos inimigas. No provador, a fila apresentava os primeiros sinais de tumulto. Parece que as sacolas de compras tinham acabado. Sem sacolas ficava mais difícil defender as peças escolhidas.

Campanha da coleção Dress To para a C&A  (foto: divulgação)

Lá dentro mulheres trocavam de roupa sem muito pudor. “Essa saia deveria ser maior, mas acho que ficou legal”. Na tentativa de fugir do tumulto, algumas sentaram nos cantos mais discretos da loja enquanto discutiam, ao telefone, quais cartões deveriam usar para pagar a pilha de roupa acomodada ao lado. Os olhares eram tensos, mas decididos: aquelas roupas seriam compradas a qualquer custo.

Mesmo quem já estava na fila do caixa não se via livre da tensão de ter deixado alguma peça interessante para trás. “Moça, qual é o número dessa saia que deixaram?”.  Dos funcionários, era de se esperar coragem para descer com uma nova remessa.  E paciência para lidar com mulheres estressadas e apressadas. “Graças a Deus alguém que não está correndo nem fugindo do trabalho hoje”, desabafa uma atendente como resposta ao meu “bom dia”.

Cenas assim se tornaram corriqueiras desde que Karl Lagerfeld, o homem por trás da Chanel, firmou parceria com a H&M em 2004 e criou modelos para serem reproduzidos em larga escala e vendidos por um preço acessível. Seria o tal do “design para todos”. Mas nem tudo correu bem. Quando a coleção finalmente foi lançada, as roupas, disponíveis em apenas 20 lojas, se esgotaram em questão de horas. Karl declarou à imprensa que não trabalharia mais com a rede sueca, acusou-a de esnobe e fez questão de ressaltar que a rede não tinha produzido peças suficientes. Ele pode ter se decepcionado, mas a ideia estava no ar e como essas parcerias são indiscutivelmente um bom negócio, muitos outros estilistas criaram suas coleções especiais, inclusive no Brasil.

Oskar Metsavaht, da Osklen, fechou parceria com a Riachuelo (foto:divulgação)

Aqui, nomes como Cris Barros, Reinaldo Lourenço e Oskar Metsavaht já fecharam parceria com redes de fast fashion, causando sempre o devido alvoroço. E ter que testemunhar algum escândalo sempre que outra parceria é anunciada me deixa um pouco desconfortável. Boa parte do problema, Lagerfeld apontou há quase 10 anos: as peças não são reproduzidas em número suficiente e nem sempre chegam a todas as lojas da rede, criando esse clima apocalíptico, sabe? Ou você compra no lançamento ou não compra nunca mais.

Sei que não há muitos meios de conter clientes mais entusiasmadas que jogam na sacola tantos modelos quanto podem, mas reavaliar a logística já seria um bom começo. E já que não estamos comprando os últimos mantimentos para tentar sobreviver ao fim do mundo, vamos com calma. Da nossa parte, é preciso certa dose de bom senso. Acredito que o bacana dessas coleções é ter a oportunidade de comprar peças de ares autorais por um preço amigável. Ter como único critério de compra a etiqueta badalada é deprimente e, sinceramente, não vale o esforço . Até porque nem todas as peças carregam esse ar autoral e nem sempre os preços são realmente amigáveis.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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