Aos Brasileiros Honestos. Existe isso?

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Mandaram para Simon Mouton um texto destinado aos brasileiros honestos.

Houve um equívoco. Não lhe era destinado, com certeza.

Talvez o fizessem por jocosidade. Enviaram-lhe apenas para que ele revigorasse o seu agir, sem arroubos de honestidade e pureza.

Mouton, como Simão Pedro, a pedra angular na qual fora erigida a Igreja de Jesus Cristo, não se sente tão cândido, nem se vê tão virtuoso a ponto de receber similar distinção.

Também não se acha tão impuro que não mereça de Deus a misericórdia e o perdão diários para os seus erros e deslizes.

Em princípio, Simon Mouton não ama o próximo em suficiência, nem o deseja com igual insistência.

Nem a seu próximo como a si mesmo, como recomendava o Cristo a Pedro, que nos amou até demais!

Procura amar somente e exclusivamente aquele próximo, que de tão próximo, se tornou mais que querido e necessário ao seu existir.

É, portanto, um egoísta, afinal o próprio Evangelho nos diz a todos, que isso não é mérito; os Gentios, Fariseus e Publicanos assim o fazem: amam seus pais, irmãos esposas, filhos, amigos e parentes.

E neste toar, o amor ditado acima é impossível para o nosso comum Simon, que se comporta igual a todos, em tantos senões.

Ele, como muitos, não consegue atender aquela recomendação doutrinária por escolho; recusa seguir aquela recomendação de santidade. Não consegue amar os que o desagradam.

Se não chega a odiar seus inimigos ou desafetos, por exclusiva insuficiência de propósito, entende como um supremo despropósito acarinhá-los.

Simon Mouton se define, enquanto crente, como alguém destinado a não chegar ao Céu, nem o deseja na Parusia, se o preço for tão alto a ponto de receber bofetada e sorrir.

Para ele, trata-se de uma pedagogia muito difícil; um ideal inatingível via esforço humano, somente.

Acha tão impossível alcançar a “Salvação”, diante dos nossos açodamentos em urgências e desesperança, que em sua vã filosofia endossa a indiferença de Nietzsche:  “Em fim; só existiu um cristão e este morreu na cruz”.

Mas, deixemos o Céu para os Santos!

Voltemos à cota rala dos desígnios e circunstâncias de Simon Mouton, um aríete de testa rija.

Simon é um brasileiro incomum, ele não é igual a todos, em ausência de qualidades e excesso de carências de seriedade.

Para Simon, o brasileiro é assim; acha-se o melhor povo do mundo, mas não prima por sê-lo. Crê-se um ser em formação, afinal o seu caldeamento de raças está inconcluso, e isso o exime de uma eventual pouca vergonha exibida.

“E haja pouca vergonha! “ – Verbera Simon Mouton, qual carneiro de muitas marradas.

E continua: “Infelizmente a pouca vergonha só é detectada quando algo nos desagrada, como os governantes, os parlamentares, os juízes, os promotores, os defensores de iniquidades em geral, remunerados pelo estado em excessivo apadrinhamento dos erros dos hipossuficientes, e dos patrocinados pelo capital espoliador”.

Simon Mouton está ficando maluco depois que recebeu a missiva destinada aos brasileiros honestos.

Virou uma espécie de Diógenes de Sinope, aquele grego que habitava as ruas de Atenas, fazendo da pobreza extrema uma virtude e que vivia num grande barril, no lugar de uma casa, e perambulava pelas ruas carregando uma lamparina, durante o dia, alegando estar procurando por um homem honesto.

Candeeiro à mão em plena luz do dia, Simon não perquiriu se o remetente do bilhete é um Cidadão realmente honesto.

“Deve sê-lo!” – Conjectura, presto e preciso. – “Aqueles que escrevem não são sempre honestos?”

Está a procurar nas plagas vastas deste país por um “brasileiro honesto”. Deseja entregar a carta que lhe enviaram erradamente ao seu real destinatário.

Seria você, ó leitor, este cidadão tão honesto a quem se destina esta carta?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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