Aracaju, mon amour

0

Aracaju, mon amour Eu que cheguei na rodoviária Luiz Garcia em 1979, chorando, indo para rua Santo Amaro, 59, onde meu pai jurava que ia herdar a casa que ia até a rua Capela, de tão grande. Eu que tinha centenas de jarros de prata, aparadores, cristaleiras, pisos incríveis pela casa toda, cortinas de tafetá e renda, colchas bordadas à mão, toalhas no lavabo de linho, ricos pechichés e palmeiras antigas em jarros de louça, eu que todas as manhãs tomava vitamina de banana com laranja, feita pela minha avó Angelina que teve meu pai Moacir, filho de Álvaro Araújo, o homem elegante do comércio, onde é hoje a agência dos Correios e que era irmão de Donana, Zinha Leite e parente de Marinete Mendonça, mãe de padre Mendonça. Padre Mendonça morreu, deixou tudo para Adriana Leite, casada à época com Ezequiel Leite, filho de Iolando, primo de meu pai, sobrinho de Zinha, mãe de Iolando. Meu avô também se foi, meu pai continuou pobre e todos dividiram a casa da rua Santo Amaro numa usura sem par, não deixando nem os meus jarros de prata, inclusive Irinete Mendonça, irmã do padre, dando ao meu pai uma banana, ele que foi embora para o Rio, ainda adolescente, porque era um homem finíssimo, filho de Álvaro, dono de tudo, mas bastardo. E Bernarda, irmã do meu pai, ficou com pequena percentagem, dando ao meu pai também outra banana. Assim começa o meu amor por Aracaju. Cercado pela Catedral Metropolitana , onde fui 12 anos acólito e sacristão, além de zelador do altar de Nossa Senhora das Dores com minha tia que nunca foi à um lançamento literário meu. Com o tempo fui vendo o que haviam feito com o meu pai, o quanto ele conseguiu ainda ser feliz na infância brincando no centro de Aracaju, com Constancinho Vieira, antes do acidente, casado com Ana Alice Curvello e amigo do arquiteto Rubens Chaves e o quanto meu pai rodou o Rio de Janeiro, anfitrião do padre Mendonça, de Itabaiana, e lembranças lindas de meu pai como correio-cupido do escritor Murilo Mellins, da “Aracaju romântica que vi e vivi” levando recados de amor, para a mulher que ele é casado até hoje, há mais de 50 anos. Daí fui para o Colégio de Aplicação da UFS, ainda na rua Campos, onde hoje é o Ipes. Lá conheci pessoas excepcionais como Conceição Ouro Reis, Ligia Pina,Suzana Prado de Oliveira, Clemildes Barbosa, Caetano Quaranta, Lígia Pina, Magaly Santos Pinto, Marly Oliveira, Arinaldo Silva Andrade, Terezinha Belém Carvalho Telles, Selma Duarte de Melo, Yara Mendes Freire, Euclides Redin, Juan Pascua, Yara Belchior, Cléa Brandão Mendes, Jefferson Euzébio Ribeiro, Leão Magno Brasil, Brasilina Chagas e tantas outras criaturas iluminadas. De lá pra cá, um salto. Parece que foi ontem. Lancei o primeiro livro, cheguei ao nono, viajei, dormi, apanhei, acordei e fiquei meio que desacordado até hoje. Pela balaustrada da rua da frente aprendi a amar esta cidade, aprendi a chorar com ela, a dizer ‘mon amour”. Pela rua da frente, minha rua preferida, compus pelos seus canteiros meus mais fortes poemas, levei “carreira” na adolescência prematura, dos moleques, declamei aos gritos na ponte do imperador e pude ir tecendo meu rosário de paixões por Aracaju – pelo rio Sergipe, ora azul, agora verde. Vai sempre ter nos meus olhos aquela igreja lá do outro lado, que um dia se chamaria Atalaia Nova. Pude um dia andar com Antonio Garcia, poeta que me adorava, pela Augusto Maynard, até o Crase, falando de poesia. Assim fui deslizando por entre colinas de Santo Antonio, guizos e barcos até entender o meu amor por Aracaju. Amor galopante, amor de dentros, triunfante. Quando ela completa 153 anos, uma garota de apenas um século e meio, me enche de lágrimas os olhos pelo vento que sopra generoso da rua da Frente. E a cidade se levanta, prenhe de província, grávida de manhãs inimagináveis, um Rubens Chaves, um Murilo Mellins, uma Rosa Faria, um Joubert, um J.Inácio, minha flor de maracujá perruche. Nada ficou mais fortepara mim do que a força de Aracaju adestrando as dores dos seus filhos. Aracaju tão ácida e tão doce, tão afresca e tão réstea de alguma tela de Jordão de Oliveira. Aracaju de um rio único: o Sergipe. Aracaju, mon amour.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
Comentários