“ARGENTINA, HOJE”

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Alana de Moraes Leite
Acadêmica do curso de Licenciatura em História pela Universidade de Pernambuco. Pesquisadora no Grupo de Estudos em história Sócio-Cultural da América Latina – GEHSCAL, pela linha de pesquisa em História do Tempo Presente, que tem por coordenador o Prof. Dr. karl Schurster Veríssimo de Sousa Leão.

O ambiente político-social sul americano tem sido palco de constantes instabilidades. Seja a Venezuela com a crise política, econômica e social potencializada após a morte de Hugo Chavéz, seja o Brasil com a crise política que reflete um verdadeiro jogo de “quebra de braço” entre os poderes executivo e legislativo, desencadeando uma intensa crise de representatividade na sociedade civil. E ainda, mais recentemente, a eleição presidencial na Argentina, que vai pela primeira vez em sua história política a um segundo turno.

Desde a virada do século XX, quando movimentos sociais e partidos políticos de esquerda receberam, na maioria dos países sul-americanos, amplo apoio da população, motivada pelos discursos nacionalistas e que visavam a participação de minorias, assim como, o combate aos esgotados projetos neoliberais acoplados a profunda crise econômica e social, a Argentina se incorporou a “era dourada da esquerda latino-americana”  e vivencia, desde então, uma experiência política de governos do Partido Justicialista. Estando 12 anos desse total, sob governabilidade do casal Néstor e Cristina Kirchner.

O ambiente político e econômico sul americano, especialmente a partir de 2013, têm sido alvo de constante debate acadêmico e político. A crise econômica de 2008 passou a atingir de forma mais direta as economias venezuelana, argentina (que não apresenta crescimento econômico desde 2011) e brasileira, gerando certa instabilidade política a seus governos, que ficaram impedidos de investir em políticas públicas no que tange ao campo social. Reflexo direto na política pode ser notado na Venezuela que fez com que Nicolas Maduro tivesse uma “vitória” de 1,5%  na eleição de 2013. No Brasil, eclodiram amplas manifestações de rua. E na Argentina, também em 2013, não foi alcançada a maioria suficiente para reformar a constituição nas eleições legislativas.

A eleição presidencial argentina, que teve seu primeiro turno no domingo do dia 25 de Outubro de 2015, coloca o país novamente como foco no cenário internacional, faz-se, portanto, necessário compreender os rumos de seu arranjo político, que leva o país a primeira disputa de um segundo turno em eleição presidencial, o que representa por si só, uma derrota do Kirchnerismo no país. Após doze anos de governo fica claro a falta de formação de um quadro político no interior do Kirchnerismo que pudesse suceder a então presidenta.

A eleição possuía três candidatos de destaque: O peronista dissidente, hoje deputado da oposição, Sérgio Massa, fundador do partido Frente Renovador, encabeçando a aliança unidos por una nueva altenartiva, angariou 21,1% dos votos; o principal candidato da oposição, de centro-direita, Mauricio Macri, responsável por 34,5% dos votos, fundador do partido Compromisso pela Mudança, que integra a PRO (Coalizão pela proposta republicana); e Daniel Scioli, peronista e vice-presidente da Argentina no governo de Néstor Kichner, alcançou 36,6% dos votos e é considerado o candidato da situação, o sucessor do Kirchnerismo, por mais que o baixo resultado da eleição tenha gerado um amplo debate entre as tendências peronistas, onde Scioli foi classificado como um candidato a direita do Kirchnerismo.  Dessa forma, enfrentam-se no segundo turno, em 22 de Novembro, Daniel Scioli e Maurício Macri, provenientes de famílias de grandes empresários, e ambos liberais até a chegada dos Kichner ao poder em 2003, quando Scioli, passa a apoiar o governo, caracterizado como centro-esquerda.

O desafio posto agora é entre a continuidade da “Era Kichner”, no governo a doze anos, ou a mudança do exercício do poder político. Os presidenciáveis disputam os 21,1% dos votos de Sérgio Massa na corrida eleitoral. No entanto, fica claro, que independente do resultado do dia 22, o ambiente político da argentina com eleição levada ao segundo turno e, paralelamente, a eleição de Maria Eugenia Vidal sob o candidato situacionista na província de Buenos Aires já apontam para mudanças. Mudanças essas que refletem consequências não somente na conjuntura da Argentina, mas no continente latino-americano, visto que o país se constitui como importante ator político no espectro da esquerda no continente.

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