Armagnacs X Bourguignons

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A legendária vida de Joana d’Arc, a donzela de Orleans, um dos personagens mais notáveis da História francesa, queimada na fogueira nos idos longínquos de 1431, suscita ainda, quase seis séculos depois de seu martírio, muitos equívocos, distorções e difamações nunca provadas, mas sempre renovadas, por serventia da tocaia política e seus ardis.

Joana, garota recém saída da adolescência, nascera numa época em que a França, igual ao Brasil atual, vivia uma grave crise de autoridade política.

Na França de Joana, tal desordem se caracterizava por fragmentação e dissolução do reino, por vasta linhagem de monarcas dissolutos e perdulários, enredados por correntes políticas desunidas, em contínuas lutas e conspirações, em sucessão aos, assim chamados “Reis Malditos”, que levaram à “Guerra dos Cem Anos” e sua derrota frente ao inimigo britânico.

Nunca, ate então, o território hexagonal francês estivera invadido e dominado por inimigo estranho, o rei Plantageneta inglês, que indesejado governava, por seus prepostos assentados no Louvre, então palácio real.

O trono da flor-de-lis fora esbulhado, sendo ungido um rei inglês, Henrique VI, como rei francês, em suprema heresia, sob o Sacro Altar de Notre-Dame de Paris.

No Brasil de Bolsonaro, se não houve um esbulho semelhante ainda, não o foi por falta de tentativas.

Toda semana há sempre uma nova escaramuça. Faltando-lhes um líder que a inspire, sobrando-lhes vastos rejeitos em excedentes pretendentes.

Para estes e a imprensa toda no geral, Jair Messias Bolsonaro é o Presidente que não era para ter sido eleito, nem pensado, nem, menos ainda, preferido, por bem votado, e escolhido pelo povo.

Mas a despeito de tanta campanha contra si, Bolsonaro possui ainda uma ninharia, de “30% de radicais”, como denigrem as pesquisas encomendadas, minoria que o aplaude e o segue em todas as ruas e cidades, em plena tempestade de funesta notícia, em aleivosia trombeteada via mídia impressa, falada e televisada, que o abaixa tentando elevar a muitos, só os demolindo e afundando em mor apupo.

De FHC a Lula da Silva, de Ciro Gomes a Marina Silva, já do passado esponjados e esquecidos em desaplauso, a vaia alcança os presidentes Rodrigo Maia a Alcolumbre, curtos himalaias em raso vislumbre

E neste vazio noticiário despontam Boulos e Freixos, seixos de Molon e outros bem mais agressivos por inominados radicais, barros sem liga ou molde, argila sem qualquer esperança de escultura vingar.

E o que dizer da afoiteza de tantos doutos e eruditos Ministros do STF, cujos sábios e luminares perdigotos viajam superdimensionados pela mídia, erigidos cada um por pior melhor, ou por melhor pior, posando de salvadores da pátria e da democracia, isso em todas as tipografias, mas que, sovados e ovados, arriscam-se a ser rejeitados, quando ao desabrigo das ruas ousam aparecer?

Assim, eis a nossa pátria dormitando ao labrego desta solerte cantiga solfejada pela mídia.

Em inconfessáveis transações parecidas, e distrações traídas à pátria aviltada, na França de Joana, dois partidos, os Armagnacs, que lutavam pelo escasso poder do Delfim Charles, aquele que devia ser o Rei Charles VII, mas tivera sua pretensão negada, por bastardia, e os Bourguignons que prestaram suserania ao rei inglês, Henrique VI, Plantageneta.

Se no Brasil atual, em miríade de partidos, 37, salvo engano, ha dois partidos somente, o de Jair Bolsonaro, sem partido assumido, e aquele que reúne todos contra si, na França dividida havia dois somente: os “Armagnacs”, liderados pelo Duque de Orleans da casa de Valois, apoiador do Delfim e os “Bourguignons”, liderados pelo Duque de Borgonha, que apoiava o rei inglês, Henrique VI, como dito anteriormente.

Esta luta entre Orleanistas e Borgonheses era antiga, com assassinatos entre primos e irmãos, acontecida por divergência no controle do Estado desde o tempo em que que o pai do Delfim, o rei Charles VI, ficara totalmente senil, sendo chamado de “o louco”, e que perdera o controle de 2/3 da França para o Rei inglês Henrique V, culminando com a célebre batalha de Azincourt, louvada como grande feito heroico por Shakespeare, em sua peça histórica “Henrique V”.

Fora esta luta entre Armagnacs e Bourguignos, há a senilidade do rei louco “Charles VI” que levou a França a assinar o “infame” tratado de Troyes de 1420, submetendo-se à Inglaterra, o Delfim perdendo a coroa francesa, e o inglês passando a reinar também de Paris.

É neste período que nasce Joana d’Arc, na cidade de Domrémy,  filha de uma rica família camponesa, segundo a historiadora e medievalista Colette Beaume, autora de vários livros de História Medieval, “Joana é a mulher mais bem documentada de todos os tempos medievais.  Ela nunca foi esquecida.  Separar rigorosamente o verdadeiro do falso não deve impedir o historiador de estudar a dimensão mítica do personagem, mesmo ilusória, porque revela mentalidades.  Para dar um exemplo, Jeanne não é uma pastora.  Foram seus apoiadores, os Armagnacs, que deixaram essa lenda correr por razões simbólicas.  Jeanne nasceu bem em Domrémy, mas em uma rica família camponesa”.

Desde a sua vida, Jeanne foi elevada à categoria de um mito.

Por toda sua vida “desde quando entrou em cena pública na primavera de 1429, a história de Joana foi apresentada em dois planos paralelos: o das realidades tangíveis que podem ser verificadas a partir do estudo dos arquivos (cartas reais, contas etc.) e o da imaginação que se nutre num reino da França que vive tempos dolorosos de guerras civis e estrangeiras.  A agitação do Estado se manifesta em batalhas pela memória.  Assim, os Armagnacs, apoiadores do Delfim  Carlos, a percebem como profetisa inspirada por Deus, enquanto os borgonheses a consideram uma bruxa possuída pelo diabo ou manipulada por seus adversários.  Para seus detratores, ela não é uma pastora, mas uma vaqueira, não uma virgem, mas uma prostituta”.

Um mito que segue ainda, quase seis séculos depois de sua morte na fogueira.

Jeanne sucumbiu em Rouen na fogueira em 30 de maio de 1431, mas seu mito renasce das cinzas após sua morte.

Com a vitória da monarquia, a visão dos Armagnacs, de heroína, de mártir, quiçá de Santa, inspirou a história nacional francesa, no entanto, a versão dos borgonheses ainda é transmitida entre os protestantes e alimenta a fábula de uma Jeanne, escondida do público em geral, que segundo eles seria a verdadeira.

Quando Joana nasce em Domrémy, o vilarejo se situava na região sob o predomínio Armagnac, o povo naturalmente polarizado contra o invasor inglês.

Conta história que Joana, uma garota simples, ao ingressar na adolescência passou a ter visões e a ouvir vozes de Santos.

Um dos livros notáveis de Jules Michelet apresenta a figura da Pucelle de Orleans – Gravura datada do Século XV.

As vozes, ouvidas pela garota, desde os 13 anos de idade, eram do Arcanjo São Miguel, de Santa Catarina de Antioquia e Santa Margarida de Alexandria, e lhe diziam que devia integrar o exército francês para ajudar o Delfim Charles, na sua luta pelo trono contra o invasor inglês.

Desnecessário dizer que tais visões foram entendidas como alucinações, alguns médicos especulando como esquizofrenia ou epilepsia, o cura da aldeia entendendo que tudo seria curado com uma boa surra.

Surras que não há curariam, as vozes ressurgindo cada vez mais presentes, a tal ponto que isso suscitou apoios e aliados em sua vizinhança, afinal era comum imaginar a liderança de uma Virgem como símbolo de uma luta em demanda de uma vitória amplamente desejada contra os ingleses.

Uma entrevista então é marcada para que o Delfim Charles a recebesse.

Conta-se que o Delfim a recebeu, tentando inclusive desacreditá-la, trocando para tanto de trajes com um seu pajem.

É quando a garota rejeita o embuste e dirige-se ao príncipe, reconhecendo-o sem nunca o ter visto, e lhe afirma estar em missão divina para levá-lo vitorioso à Catedral de Reims, e ali ser sagrado Rei de todos os franceses.

Se houve uma conversão plena ou não, espíritos incrédulos e agnósticos jamais o consentirão.

A História, todavia, conta apenas que dali saiu Joana liderando um exército até então sucessivamente batido e acovardado, agora se fazendo vencedor e imbatível sob o seu comando.

A história humana quer sempre nos dizer que todos os homens são iguais.

Se antes só aos homens se diziam exclusivamente assim, hoje homens e mulheres o são assim iguais também.

Mas, se os homens e as mulheres são iguais em dignidade, os homens e as mulheres não são iguais em tudo, como assim deveriam.

Num tempo medieval, por obscuro, em que as mulheres eram negociadas por seus pais nas feiras como animais, Joana d’Arc revela-se comandante corajosa de homens levando-os à vitória.

Logo conduzirá o Delfim acovardado por vasto território inimigo à Catedral de Reims, onde como Charles VII será ungido rei francês.

Segundo William Shakespeare, Joana d’Arc, longe de ser uma virgem virtuosa, é descrita em palavras dignas de uma rameira ou de uma feiticeira: “Os mistérios do amor não valem nada; minha missão no céu foi consagrada, só posso pensar em recompensa depois de ter vencido esta pendença,… Velhacos sem crença!… Resisti até o último suspiro que eu vos protegerei… A glória é como um círculo sobre a água, que aumenta sempre mais, até que a força de se alargar, termina em coisa alguma. Com a morte de Henrique acaba o círculo da Inglaterra; dispersas se acham todas as glórias nele inclusas”.

Sua vitória libertando a cidade de Orleans, pelo dramaturgo ainda é descrita na peça “Henrique VI”, como fruto de um embuste, muitas palavras lisonjas a suscitar, sem se esquecer de traçá-la nas falas de seus personagens, como amante de muitos, inclusive do Delfim.

Se as vitórias de Joana d’Arc continuaram, abandonada pelo Rei recém coroado, a heroína é ferida e aprisionada pelos Borgonheses, quando então será acusada de herege e condenada à fogueira.

No seu processo Joana é convocada a abjurar, a confessar-se em vilania.

A própria Universidade de Paris, por seus clérigos e sábios mestres, sob julgo inglês, manda o Rouen mensagens requerendo sua condenação a padecer na fogueira por heresia.

Jeanne sucumbe em Rouen na fogueira, em 30 de maio de 1431, mas seu mito ainda renasce das cinzas após a morte

No final do século XVII, um novo mito floresceu, Joana teria sobrevivido para alguns, e para outros o seu coração teria resistido às chamas sendo conservado,

Pelo lado da Igreja, em 1456, um tribunal inquisitorial foi autorizado pelo Papa Calisto III para examinar seu julgamento, esmiuçando suas acusações e proclamando sua inocência, formalmente declarando Joana como uma mártir da igreja.

Controvérsias à parte, no século XVI ela foi usada como símbolo pela Liga Católica contra os protestantes.

Talvez, por causa destas lutas religiosas, o racionalismo da era das Luzes foi implacável com a donzela.

Passado o Terror anticlerical revolucionário, só em 1803 Joana foi finalmente enaltecida, oficialmente declarada como um símbolo nacional da França, por decisão do imperador Napoleão Bonaparte.

Jules Michelet, o grande Historiador do século XIX, fez de sua vida a certidão de nascimento da nação francesa.

Posteriormente, a Terceira República Francesa a consagrou como um ícone patriótico.

Beatificada em 1909 e Canonizada em 1920 pelo Vaticano, Joana vem sendo apropriada por grupos políticos, suscitando dilacerações de sua imagem pelos “mitógrafos” e suas agremiações políticas.

Seria uma Santa, seria uma feiticeira? Pouco importa.

Foi uma grande mulher! Uma guerreira notável, a merecer encômios e estátuas.

Hoje sua memória pode ser desnecessária como toda a História de Guerra territorial que os homens e mulheres se envolveram por séculos.

Se na Europa unida não mais existem as fronteiras nacionais, o recente Brexit inglês mostrou que os britânicos desejam permanecer na sua ilha somente, esquecidos do que guerreavam Bourguignons e Armagnacs.

Se na França nem Joana d’Arc une as correntes políticas, que dizer de Bolsonaro que nem santo é, nem é feiticeiro também?

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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