Arrozal, angu de caroço

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O JC estampou na sexta-feira flagrantes de mulheres e crianças em situação degradante num lugar perdido de Aracaju chamado invasão do Arrozal. Não se sabe de onde vem o nome, mas o aglomerado de toscos barracos fica lá nos fundos do que já foi uma gleba de ninguém, que ganhou fama de lugar perdido e se popularizou com o nome de Terra Dura devido à aridez da piçarra do lugar.

As fotografias do talentoso Jorge Henrique impressionam porque todas as personagens da reportagem sobre o Arrozal, adultas ou não, estão com os pés dentro d’água — no interior dos barracos ou fora deles. São o retrato da indignidade humana. Os invasores moram à margem de um canal de água pútrida que, quando recebe muita chuva, como na semana passada, escorre para dentro daquelas moradias miseráveis.

É tristemente curioso saber que numa capital que tem elevado a olhos vistos os seus índices sociais ainda existam situações como essa do povo do Arrozal. Um povo que só não é esquecido porque os olhos da imprensa vão até lá para esfregar na cara da sociedade que a ferida está aberta e ela dói. E porque há almas caridosas que ajudam no que podem.

A reportagem assinada por Edjane Oliveira expõe a quase impossível existência de coisas absurdas dentro de uma situação por si só sem sentido. Um exemplo escandaloso é o da dona de casa Adriana Pereira da Silva, que mora na companhia de uma irmã de 16 anos e mais seis criança — da mais velha com oito anos de idade a um bebê de quatro meses — filhas das duas. Todas com os pés dentro do esgoto e provavelmente contaminadas por doenças.

O poder público faz alguma coisa e promete mais. Enquanto a Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania (Semasc) protege algumas famílias em abrigo temporário ou casas alugadas, a prefeitura planeja construir 2.500 moradias para as pessoas retiradas das áreas de risco. Dinheiro parece não ser o problema, a julgar pela promessa do presidente Lula de liberar quase R$ 200 milhões do PAC para Aracaju. E o prefeito Edvaldo Nogueira tem repetido que a Terra Dura, hoje bairro Santa Maria, é uma da prioridades da gestão, ao lado da invasão do Coqueiral.

Mas ainda é preciso muito. A casa só não basta quando a cidadania clama por trabalho, comida, saúde, educação e lazer. E é necessário realizar a utopia de fixar o homem no campo, para evitar que levas de retirantes continuem chegando e se refugiando na degradação. O momento é o agora: governos federal, estadual e municipal sorriem juntos e falam a mesma língua. Espera-se que façam mais.

 

Correio

“É gratificante ver que em meio a uma histeria coletiva alimentada em grande parte por uma mídia sem compromisso com a informação qualificada uma voz lúcida se faz ouvir.
Lembra-se da nossa conversa sobre os finais dos vilões das novelas da Globo? Parece que está no imaginário da população que a justiça, a polícia e todo o aparato repressor do Estado é incapaz de fazer valer a lei. Só a morte (e de preferência trágica) ‘resolve’. Desta feita, o que me espantou é perceber que está além do imaginário popular.O que me intriga porém não é apenas o comportamento popular mas a omissão de órgãos como Ministério Público e outros afins em episódios desta natureza. E a passionalidade da imprensa? Onde estão os lúcidos? Como estamos despreparados para lidar com
as mazelas da sociedade!
Mandado para os quintos dos infernos! Meu Deus , isso é notícia? Fotografar para servir de exemplo? Só faltaram exibir a cabeça como um Lampião tardio! Não evoluímos nada? Quanto despreparo! Penso que a democracia, essa via de tantas mãos, engendra certo caos no trânsito para uma sociedade de direitos plenos. Por outro lado, que outra via a levaria? Enfim, tenho mais perguntas que respostas. Com respeito profissional e a reafirmação da minha grande admiração”.

Ednalva Freire Caetano, chefe de gabinete da Reitoria da UFS

“Atire a primeira pedra Quanta hipocrisia espalhada pelos que se dizem aculturados,
letrados, doutores de um tempo permeado pela chamada ‘Civilização’. Quanta maquiagem nos semblantes cálidos e angelicais dos anjos que nos circundam. O Demônio é anjo! O Demônio é um anjo que nasce do ventre ou in-vitro. Os seres vivos chamados de humanos são anjos, são demônios… Um rapaz com apenas 17 anos de idade é o demônio do momento que enche as manchetes, as casas, as cabeças… E vai ocupando espaço para ludibriar o descaso do Estado perante um povo sem esclarecimento e, o pior, confundindo até mesmo as cabeças dos que supõem possuir algum grau de discernimento. O menor estuprou! Quantos homens dentre
esses que se escandalizam não se saboreiam com seus dias e noite de orgia?! O menor
furtou, roubou…! Quantos homens dentre esses que condenam não avolumam suas contas bancárias com os rombos declarados dos cofres públicos?! O menor matou! Quantos homens dentre esses que se estarrecem não assassinam sonhos e vidas a todo instante?! Agora mesmo, neste exato momento muitas cabeças maquinam e executam sem piedade. Silencio em respeito à dor daqueles que foram vítimas das atrocidades do menor que segundo a imprensa, ‘aterrorizou’… Como cidadã não devo é calar diante da roupagem fétida e nefasta usada pelos que se dizem poderosos. E é em respeito à Constituição Federal nas trajetórias de suas lutas, que descruzo meus braços, folheio sua páginas e pergunto: quem estupra, furta, rouba e mata, não estão protegidos pela Carta Maior? O art. 5º, XLIX, preconiza que ‘é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral’. O menor foi morto, não chegando, portanto, a ser preso e protegido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. O art. 2º do CC preconiza que ‘a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro’. E o art. 6º do mesmo texto legal complementa que ‘a existência da pessoa natural termina com a sua morte’. O costume de cuidar dos mortos não nasceu com a ‘Civilização’, pois nem a história consegue penetrar no passado e encontrar a sua origem. O respeito ao morto é respeito próprio. Se o Estado que não são apenas as figuras alegóricas dos governantes, e sim toda a sociedade civil, somadas aos três poderes não dão vida às letras da Constituição, que pelo menos se respeite e respeite a morte de milhões de brasileirinhos chamados Pipita, que rastejam pelo solo desse imenso, farto e próspero Brasil!”

 

Alda Oliveira Santos, acadêmica de direito e poetisa

 

“Devo dizer que apreciei seu comentário no JC de domingo último sobre essa coisa triste. Sereno e comedido. E tocou nas coisas que deveriam ser tocadas, inclusive a impropriedade do ECA para tratar de casos como esse”.

Luciano Oliveira, professor da UFPE

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