Assim a AIDS começou em Sergipe

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No ano de 1987, foi registrado oficialmente, o primeiro caso de Aids em Sergipe. Digo oficialmente porque soube que teria falecido um importante funcionário de uma grande empresa, em consequência do HIV, mas que não tive acesso. Acredito que tenha sido acompanhado fora do estado. O primeiro caso foi um sergipano que morava em São Paulo e retornou ao nosso estado para obter apoio da família, após ter apresentado as manifestações clínicas da doença. Esse fato era muito comum, no início da Epidemia do HIV em Sergipe. Os primeiros casos sempre eram de sergipanos que moravam fora do estado. Quando adoeciam, retornavam para o nosso estado, para receberem assistência familiar. O problema era enfrentar uma situação difícil: às vezes era uma pessoa que foi morar fora do estado e não dava notícias à família ou não tinha uma boa relação familiar e, de repente, volta para casa, acometido por uma enfermidade nova e cheia de preconceitos. Nem sempre recebiam apoio familiar, não só pelo medo que tinham da doença como também pelo relacionamento ruim com os membros da família.

A primeira pessoa soropositiva tinha familiares em uma pequena cidade de Sergipe e necessitava de internação e foi rejeitada pelos hospitais de Aracaju. Foi a óbito no mesmo ano em que chegou ao nosso estado.

Nesta época, eu trabalhava, como clinico geral, no Centro de Saúde José Machado de Souza, no Bairro Santos Dumont. O Secretario Estadual de Saúde na época, ligou para mim, e perguntou se eu aceitava atender um paciente que veio de São Paulo, com o diagnóstico de Aids, e estava numa pequena cidade do interior, sem atendimento médico.

Por que fui convidado a atender o primeiro paciente com HIV?

O convite para mim foi porque, quando trabalhava no Bairro Santos Dumont, tinha iniciado um trabalho de prevenção à sífilis nas casas de prostituição. Na verdade, eu fiz a descoberta das casas de prostituição, quando estava mapeando o bairro para definir locais estratégicos para a vacinação contra a poliomielite. Tive o prazer de coordenar uma das primeiras campanhas de prevenção contra a pólio. Na época, não existia o PSF – Programa de Saúde da Família e as unidades de saúde só vacinavam as crianças que iam aos postos. Eu criei uma nova estratégia que teve um grande impacto na campanha de vacinação: as equipes de saúde começaram a sair da unidade e ir à procura das pessoas em locais de difícil acesso. Levei equipe para favelas, vilas e becos de acesso ruim. Eu provoquei essa mudança de cultura na área da saúde, criando o que se chama hoje de ações extra muros.

Pânico na cidade

Havia um pânico na pequena cidade, pela presença da pessoa vivendo com Aids. Até o Prefeito estava em pânico e pedia que o “paciente” fosse retirado da cidade. Eu cheguei a desabafar a um amigo: “Quem deveria sair da cidade era o prefeito”. Aceitei o convite em acompanhar o primeiro paciente. Mas nem deu tempo de ajudar. Lutar contra a Aids sempre me exigiu “brigar”, no bom sentido da palavra, por acesso ao atendimento, por exames que não estavam sendo realizados, por medicamentos que não existiam, por cesta básica, por leitos hospitalares. Alguns técnicos da área de saúde, principalmente, aqueles mais “burocráticos”, criticavam a minha luta para conseguir exames, medicamentos e outros insumos ou serviços, dizendo: “Por que o senhor faz isso só com quem tem Aids? Achavam que, se faltava insumos e serviços para outros pacientes, “porque dá direito a quem tem Aids?” Confesso que era uma pergunta que me incomodava e ainda incomoda. Eu tentava mostrar que abracei esta causa. Eu não poderia abraçar outras causas. Eu dizia: “Em vez de você ficar me questionando, por favor me ajude a resolver este problema. Não posso resolver os problemas de todos”.

Tocaram fogo na cadeira onde a pessoa com HIV sentou

A minha primeira “briga” foi por tentar a internação dessa pessoa que estava na pequena cidade do interior, acometido por Aids e Tuberculose. Fui derrotado nessa primeira luta. Recebi várias negativas de diretores de hospitais daqui de Aracaju. O paciente faleceu sem ser assistido. No posto de saúde da cidade, depois que o paciente foi atendido, tocaram fogo na cadeira onde ele se sentou. Esse fato me tocou profundamente. Tomei a decisão de encarar a “fera” que era o HIV. Na verdade o desafio não foi o HIV mas os preconceitos que acompanhavam o vírus. Eu dizia: “quando surgir outra pessoa com HIV e precisar de internação, eu vou me internar com ele”. E aconteceu: surgiu um caso de uma pessoa com HIV, no município de Itabaiana. Esse caso acendeu um alerta importante: era a primeira pessoa soropositiva detectada e que nunca tinha saído de Sergipe, indicando que o HIV já estava circulando no nosso estado. A segunda “briga” foi ganha: conseguimos internar este paciente no Hospital de Urgência Joao Alves Filho. Contarei o que aconteceu, no próximo capítulo dessa história de vida médica.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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