Basta de impeachment!

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Acabamos de realizar uma eleição. O país elegeu seu presidente. Uma mulher foi reeleita em maioria absoluta de votos válidos, como manda a lei. Venceu os dois escrutínios eleitorais, como recomenda mais fortemente a legislação.

À parte isso, o resultado eleitoral revelou que a Presidenta ganhou com 51,64% dos votos, sobrepujando o seu mais competente adversário, o Senador Aécio Neves, que ficou com o alentado percentual de 48,36%.

Mas, como acontece após qualquer eleição presidencial em terra brasileira, não faltam comentários objetivando o desfazimento do apurado.

Alguns destes descontentes alegam que a Presidente recebeu apenas 38,2%% dos votos, afinal 21,1% se abstiveram e não votaram, 4,6% anularam o voto, 1,7% escolheram votar em branco e 35,7% preferiram Aécio Neves. Vendo aí uma rejeição ao nome de Dilma de 61,8%, do eleitorado.

Para estes, a Presidente está reconduzida sem a perfeita aquiescência das urnas. Algo que os revolta sobremodo, sem reconhecer que tal interpretação foge do crescente desejo pelo voto opcional e não obrigatório.

Outros, em trocista exposição, entendem que o resultado eleitoral deve ser violado, afinal as recentes medidas tomadas pelo governo estão em conflito com suas promessas eleitorais, compromisso que fora assumido nem que a vaca tossisse.

Para estes maus de voto e bons contadores de piada, a população bovina nacional contraiu coqueluche. Há uma tosse generalizada no rebanho.

Em outro amanho, cultua-se similar vilania para entornar o resultado eleitoral com novas descobertas dos desmandos na Petrobrás, cuja culpada se não foi Dilma ainda, terá que o ser, de qualquer jeito. Mesmo que o jeito seja aquele que faz um boi entrar nos fundos de um sujeito, presidente ou presidenta.

De modo que Dilma Rousseff está Presidenta, mas não está Presidente para os resistentes ao léxico e ao lógico, que a preferem como governanta, jamais nossa governante. Fato tão notável que em tempo algum neste país, jamais se viu tantos lexicólogos em idiotias por semasiologia, estudo que não desvenda a sem-vergonhice da tolice.

Justamente nesta terra de tão poucos iletrados, aí sobretudo os da ampla classe média que se crê assaz alfabetizada, só porque sobrou-lhes nos fundilhos rastos escassos dos vernizes das carteiras escolares pouco amadas.

Nesta terra em que se fala menos errado, porque se escreve pior, aí incluídos os de boa lavra, aqueles que escrevem bem, mas que por exercício laboral de mal informar a opinião pública, preferem a jocosidade, o gorgolejo irônico da piada bufa de um jornalismo grotesco que pouco investiga e menos apura, mas é presto na denúncia, no julgamento e na execução por linchamento, afinal o excremento da política sempre lhes atrai mais leitores, em comentários estúpidos e ignorantes, por resposta.

Ignorância de maus ledores sempre em ampla maioria no espaço e no tempo, incluindo não só os bons degustadores de vinho, aqueles que se creem de boa cepa e perfeita maturação, e tantos que se avinagram no próprio mosto, ou no desgosto de más preferências por azinhavrada jeropiga.

Jeropiga que sempre embriaga tempos e costumes em maus arrotos, seja na Polis helena fazendo Sócrates envenenar-se, na Roma republicana que ousara cortar as mãos de Cícero em desavio de “moris et tempora”, e também na urbe que abatera Cina, a pedradas e no porrete, só porque lhe era cacete as rimas em que cometia amenidades.

Em tantos exemplos sinistros por canhestros, com a massa sempre açulada pela opinião, em arrotos de pior perfume e azedume, pode-se pensar diferente agora, justamente quando tantos querem armar levantes de vara-e-pau, tacar-lhe-o-pau na Dilma, no cenário mar-de-lama em queixume de jornal?

Eita país que não se cansa nem se enoja de chafurdar no mesmo estrume e nos mesmos discursos erráticos!

Eita povo que gosta de enveredar no erro, no descaminho e na demagogia, sobretudo os bem nascidos e bem falantes!

Para estes, somos agora uma espécie de Venezuela, em invectiva e perspectiva, justamente quando até bem pouco ninguém lhe sabia o meridiano nem a latitude, muito menos a lonjura de chegar ali, se de barco, ou a pé, ou no lombo do jumento a contrapé.

Mas, jumentices ou jumentadas à parte, o noticiário fala mais de um Maduro venezuelano, que qualquer enduro provinciano em plantel de nossa querência.

Malquerença que somos convocados a auscultar no coração da terra bolivariana, a fio, a ferro e a fogo, sob pena de alienação e perda da identidade nacional

E qual é a identidade desta terra nossa que em se plantando tudo dá, sobretudo falta de vergonha?

Ou Capistrano de Abreu estaria errado agora, e vivemos um fastígio de excedentes e clarividentes boas intenções, desde que o Congresso Nacional se oriente para a derrubada da Presidente?

Basta! Eis que aparecem alguns adesivos com uma mão negra sem o dedo mínimo.

Basta de que, cara pálida! Por acaso o Congresso em tantos Deputados e Senadores merece mais apreço que a Presidente, recém ungida por ampla votação nacional?

É possível borrachar tudo para anular o resultado das urnas, só porque a bolsa de valores vem caindo, o dólar subindo, a gasolina aumentando, e andam baixando o nosso conceito de risco e investimento?

E qual é o risco das soluções golpistas, agora relembradas em tantos bastas em mãos mal assinaladas?

Não nos bastaram o suicídio de Vargas, a derrubada de Jango, a queda de Collor, os ecos surdos de “fora FHC”, que se tornaram “fora Lula” e que agora se ensaia em “fora Dilma”, ao sabor de insatisfações mal aferidas?

Por acaso o povo que votou em Dilma está querendo isso?

Para botar quem no seu lugar? O vice Milton Temer?, o derrotado Aécio, rejeitado até pelos mineiros?, ou um outro arteiro que ouse ser mais sagaz e audaz para chamar o povo na chincha, como se faz com cavalo digno de espora?

Que conversa fora de hora! Só porque o governo administra a crise, tomando medidas justas e necessárias, numa terra em que o direito principesco de uns é remunerado pelo suor de todos?

É muito fácil demandar alforrias, conceder benesses e perdão de dívidas. O difícil é faze-lo sem prejuízos, nem traumas à sociedade como um todo.

Não nos faltarão, porém, arautos com promessas salvíficas para a socialização dos custos em ampla premiação às expensas do erário.

Eis então a velha temática de comiseração com o erro do investidor perdulário, aquele que especulou na bolsa o que não devia nem precisava.

Mas, em tantas erratas e bravatas históricas, é preciso relembrar que vai bem longe a teoria de segurança e independência nacionais, que fazia da Petrobras um demiurgo “intocável”, como no célebre mote de campanha do Marechal Lott, o fragoroso derrotado pela vassoura de Jânio Quadros, o demagogo caspento que seria a  “a esperança do Brasil e deste povo abandonado”.

Em desesperança geral de lá para cá restou tal intocabilidade como um dogma de fé, um tema comum-de-dois, ou comum-de-todos, passível de condenação espúria por heresia entreguista, seja nos idos perdidos de 1960, em ideologia de guerra-fria, como bem depois da queda do muro de Berlim, em vitória do capitalismo universal, heresia renovada no mesmo gênero infértil de disparate, geração a geração, sem desdoiro ou putrefação.

De lá para cá ainda, degenerado restou apenas o mote de a Petrobras pertencer menos ao acionista que ao povo brasileiro, agora revelada em pior gestão, com roubos estendidos ao passado, e a perder de vista em tantas sangrias.

Com tosse ou não de vaca, ou a vaca indo pro brejo, o prejuízo do acionista da Petrobras também não vale o impeachment nem o basta repulsivamente explicitado.

Que se compatibilize o seu prejuízo na nossa estultice estatista, espécie de bicho de porco que em coceirinha boa e preguiçosa nos acaricia enquanto paquiderme tombado e adormecido.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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