Benito da Silva e Jugurta Barreto.

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Benito da Silva e Jugurta Barreto.

Um dos temas que meu pai, Manoel Cabral Machado, bem gostava de dissertar, era traçar o perfil de homens de sua convivência e amizade.  O motivo, geralmente, era uma efeméride, uma lembrança festiva.

O alongar da idade, porém, trouxe-lhe evocações de saudade, afinal tragédia de quem vive bastante é perder os amigos, apequenar-se em solidão, com a partida dos bem amados.

Assim, era comum, sobretudo nas últimas décadas, sua crônica enveredar por lágrimas em necrologia saudosa.

Neste particular, o necrológio, a apreciação do ser frente ao túmulo, o texto tradutor de abraço derradeiro, o extremo discurso, oral ou escrito, não tem sido, após sua partida, suficientemente suprido, em riqueza de detalhes e profundidade no conteúdo.

Diante do mistério da morte, e rejeitando-a como “o triste fim do calendário humano”, no dizer de Hermes Fontes em angústia suicida, animava-se Cabral em deixar no discurso fúnebre, o seu testemunho, a sua descrição, a sua percepção, enquanto observador atento do talento esquecido, da nuance despercebida, tentando relembrar e recapitular a vida de seus “bravos”, para que melhor resistissem e permanecessem na história contemporânea de Sergipe.

Neste contexto, na presente semana, dois fatos, duas perdas lamentáveis, ser-lhe-iam motivos para escrever sobre dois personagens que lhe eram muito queridos.

O primeiro, o Médico Benito da Silva, falecido em 11 de junho em Brejo Grande, cuja Missa de trigésimo dia, assisti na segunda-feira que passou, data em que falecia o segundo, o Bacharel em Direito e Procurador de Justiça, Jugurta Barreto Lima, após longa e sofrida enfermidade.

Ambos os fenecidos, Jugurta e Benito, cada um a seu modo, foram grandes amigos de meu pai.

De Benito direi que esta amizade era oriunda de um parentesco de grande proximidade, afinal ambos eram primos carnais. Meu pai era filho do Médico, Dr. Odilon Ferreira Machado, enquanto Benito descendia de um seu irmão, o Cônego José Ferreira Machado, (Padre Zeca), vigário por décadas de Brejo Grande.

Segundo pesquisas de meu pai, o traço mais remoto da nossa família Machado, presença secular nas imediações de Penedo e Piaçabuçu nas Alagoas, Brejo Grande, Ilha das Fores, bem como toda aquela região do baixo São Francisco, descende de meu tetravô, o Capitão de Milícia, Francisco de Souza Machado, que em núpcias com Dona Antônia Maria Ferreira do Espírito Santo tivera vários filhos, entre os quais o meu trisavô, Matheus de Souza Machado, pai do meu bisavô, o Bacharel em Direito pela Faculdade de Olinda (20/11/1863), Manuel de Lemos Souza Machado, de cuja sequência descendem meu avô paterno, o Médico, pela Faculdade da Bahia (1900), Odilon Ferreira Machado, e o Padre Zeca, seu irmão, Cônego José Ferreira Machado, pai de Benito.

Da mesma vertente, porém de bifurcação provinda do trisavô Matheus de Souza Machado descendem outras figuras que se fizeram notórios e importantes, por sua inteligência e operosidade, como Dom Adelmo Machado, antigo bispo de Maceió, o Desembargador Antônio Machado, de cujo necrológio retiro tais dados, os médicos Heraldo Machado de Lemos e Mário Machado de Lemos, aquele Diretor geral do IAPC no Governo Juscelino e este Ministro da Saúde no Governo Figueiredo, bem como o poeta Manoel Machado de Lemos, cantor das águas terríveis e raivosas do Velho Chico em Enchente Grande, e tantos outros que se fizeram mais próximos por casamento entre primos.

De Benito direi que sempre tivera uma proximidade muito grande com seu pai, o Padre Zeca, que não lhe dera o sobrenome de família, mas sempre o reconhecera como filho, educando-o e estimulando-o a persistir nos estudos, sendo causa maior da sua graduação em Ciências Médicas.

Do meu tetravô, o Capitão de Milícias Francisco de Souza Machado, cabe retornar, para repetir o historiador Felisbello Freire em sua História de Sergipe (pág. 231), quando afirma ter aquele Capitão composto uma deputação à Bahia, a fim de professar lealdade à coroa, e solicitar ajuda no combate aos republicanos revolucionários de Pernambuco em 1817, que estendendo sua influência até Penedo, nas Alagoas, tentavam atravessar o Rio São Francisco para conflagar Sergipe, então uma extensão territorial da Capitania da Bahia.

Havia naquele tempo uma forte rivalidade entre Penedo e arredores, e as povoações da outra margem do rio São Francisco, aí incluídas as terras hoje pertencentes aos municípios de Propriá, Neópolis, Brejo Grande, Pacatuba e Ilha das Flores. De modo que a adesão da margem esquerda com Alagoas assentindo à Revolução Pernambucana de 1817, levou os sergipanos a reafirmarem fidelidade ao regente Dom João, futuro rei Dom João VI, barrando os insurretos pernambucanos, que não conseguiram expandir sua revolução, ao sul do Forte Maurício.

Fora inclusive tal posição resistente que despertara no regente a gratidão, e com ela a decretação de nossa independência da Bahia, constituindo Capitania de Sergipe d’El-Rei, por carta régia de 8 de julho de 1820.

Uma data que nos é tão cara que a comemoramos em dois feriados; a 8 de Julho e em 24 de outubro. Tudo porque a Bahia se insurgira contra o seu desmembramento, perdendo seu belo, e tão bem pequenino melhor pedaço, e em revolta tentou peitar o regente, prendendo o nosso primeiro presidente, Carlos Cesar Burlamaqui, que antes de assumir sua função teve que ser liberto das cadeias, para depois navegar em demanda a São Cristóvão, recém-nomeada, sede capital.

Eis então o 8 de julho, comemorado na semana que passou, e o 24 de outubro, a se festejar adiante, em divagação curiosa de difícil solução, afinal sempre houve os que preferiam solenizar o 24 de outubro, em boa razão, ou mero gosto, assim permanecendo o duplo feriado e a dubiedade, de como, e a que comemorar. Uma coisa boa da nossa sergipanidade, ainda não imitada por franceses, ingleses e americanos, que muitas outras datas bem poderiam feriar.

Mas, o meu tema não é Sergipe e sua independência, e sim a perda destes sergipanos, Benito Silva e Jugurta Barreto.

De Benito direi ainda que, embora bem mais novo, nascido em 8 de novembro de 1930, era um primo catorze anos mais jovem que meu pai. Era um dos quatro filhos do Padre Zeca com D. Maria José da Silva. Os quatro irmãos; Benito, Benedito, Benita e Benigna, foram criados à sombra das mangueiras do antigo Engenho Cajuhipe, banhando-se nas águas do Velho Chico, afagados pela sua avó e minha bisavó Abigail Ferreira Machado, e seus tios, e meus também em maior grau, Alice Ferreira Machado e Epaminondas Ferreira Machado. Este último, o tio “Nondas”, avô de José Carlos Machado, engenheiro da Sehop, casado com a médica Aidine Valois, foi o único dos irmãos de meu avô Odilon que cheguei a conhecer, numa viagem a Brejo Grande, no final de 1969, ou início de 1970, em caravana festiva do Governo Lourival Baptista, nas suas costumeiras transferências da “sede do governo estadual” para os diversos municípios sergipanos, tema que falarei adiante.

O menino Benito iniciou seus estudos na Escola Sete de Setembro, no povoado Brejão, da Professora Nini, Maria de Oliveira Machado, depois seguiu para Penedo, sendo aluno do Colégio Dom Bosco, da Professora Cecília Almeida, ingressou por Exame de Admissão no Ginásio do Colégio Imaculada Conceição das Irmãs Franciscana, e depois, com a assunção de D. Fernando Gomes dos Santos, como 2º Bispo de Penedo, e a consequente fundação do Colégio Diocesano de Penedo em12 de março de 1944, para ali se transferiu.

Em 1947, momento em que estou nascendo, Benito vem para Aracaju, passando a estudar no Colégio Jackson de Figueiredo, do casal Judite e Benedito Oliveira e no Atheneu Sergipense. É por esse tempo, que segundo histórico muito bem elaborado por seus familiares, e entregue aos presentes na sua Missa de Trigésimo Dia, que Benito resolve abandonar os estudos e retorna ao Cajuhipe.

Neste momento o seu pai lhe disse palavras que mais lhe permaneceram inesquecíveis: “Se você não quer estudar, o que eu tenho para você é esta “caneta” aqui (entregou-lhe um facão de 20 polegadas), que é para você roçar calumbi e plantar arroz. Por mim eu vendo a minha última vaca velha para ver você formado, mas já que você não quer, vá plantar arroz!”

Depois de umas férias nas ilhas das Cacimbas e aconselhado pelos amigos, Chiquinho Machado e Jarbas Lira, Benito resolve retornar aos estudos. Padre Zeca parece voar em plena asada de grande alegria: “É você com uma mão e eu com as duas, trabalhando para lhe ver formado”.

E a formatura viria em 15 de dezembro de 1957, com aptidão em Obstetrícia e Clínica Médica, tendo clinicado em Salvador, Feira de Santana, e depois, por influência do primo Eraldo Machado Lemos, transferido para Pacatuba e Brejo Grande, seu torrão querido, onde clinicou na Fundação SESP até sua aposentação.

Benito deixou grande prole em dois consórcios. Com D. Eurides Duarte Mendes teve quatro filhos: Benedito, José Raimundo, Iara e Regina, todos Mendes da Silva. Com D. Elizete Pinheiro da Silva, teve sete filhos, constituindo o ramo Pinheiro da Silva: José Ranulfo, Maria José, Benedito José da Silva Sobrinho, o “Beninho”, Benito da Silva Filho, o “Puquinha”, Francisco José, Geraldo Magela e Elizete Pinheiro da Silva Fraga, a “Lulu”, todos nascidos no Cajuhype, tendo Benito como obstetra, exceto Geraldo.

Do Cajuhype, e das fazendas arredores, antigos engenhos Conceição, Bandarra, Canto Escuro, Mata Boi e tantos outros, são terras seculares de propriedade dos Machado, dos Lemos, dos Souza, dos Calumby, dos Torjal, dos Barreto, dos Malta, e tantas outras famílias entranhamente misturadas, por casamentos entre primos e aparentados, da beira de um lado e do outro no baixo São Francisco, embora alguns antropólogos exóticos à região queiram agora dizer que algumas dessas terras pertenciam a quilombolas, em revisão ideológica e bem facciosa da história.

O Engenho Cajuhipe, por sequência hereditária de meus Bisavós Abigail e Manoel de Lemos Souza Machado, pertenceu ao filho deste, Cônego José Ferreira Machado, o pai de Benito, que o recebeu por legítima, mantendo-o e conservando-o, inclusive com a residência original do Engenho, bem restaurada e zelada em sua inteireza e integridade.

Mas, se falei bastante de Benito, tentarei dizer algo do Procurador Jugurta Barreto Lima, falecido na segunda feira, 11 de julho, aos 75 anos após longa enfermidade.

Jugurta era o primogênito do casal Etelvino Alves de Lima e Neuzice Barreto de Lima, família oriunda do município de Santa Rosa de Lima, gente engajada politicamente, pertencente, desde o período do Governo Vargas à liderança de Francisco Leite Neto, Secretário Geral do Estado na Intendência de Maynard Gomes.

Com a queda do Estado Novo, a redemocratização de 1945, e o surgimento da chamada “República Populista”, que vigeu entre 1945 e 1964, Jugurta, criança e adolescente, via os seus familiares, liderados sobretudo por sua mãe, a Professora Neuzice Barreto, se engajarem na política como correligionários do Partido Social Democrático (PSD), que em aliança com o Partido Republicano (PR), governou Sergipe de 1946 a 1954, nos Governos José Rollemberg Leite e Arnaldo Rollemberg Garcez.

Neste tempo, os Barreto de Lima estando “de cima” em Santa Rosa, faziam a política de Leite Neto, e por extensão, a de meu pai, Manoel Cabral Machado, seu grande auxiliar e aliado.

Ora, com a eleição de Leandro Maynard Maciel, vitoriando-se a UDN, os novos donos do poder, “os udenistas cara pretas”, cansados de mourejar na oposição, reivindicavam “a derrubada” em massa, dos “pessedistas rabo brancos”, como assim se tratavam então.

Sensível a tantos reclamos, o Engenheiro Leandro Maciel, apesar de ter realizado um governo progressista, restou como um dos mais violentos e atrabiliário, com célebres reuniões de delações e punições, em rumorosas e famosas “mesas redondas”, onde se decidia como melhor punir e esfacelar a máquina pessedista.

E a perseguição entrou na ordem do dia como temática maior. Os ralos funcionários estáveis, num tempo de pouca profissionalização do serviço público, e na impossibilidade da demissão sumária, eram removidos e transferidos.

A grande massa dos servidores provisórios dava lugar aos partidários udenistas, comportamento nada diferente de hoje, quando se fala dos milhares de cargos em comissão ainda existentes, a remunerar o ócio e a mediocridade.

Quanto aos estáveis por concurso, transferia-se de modo a separar mulher de marido, mandando-os para locais distantes e de difícil comunicação. Se o marido era do fisco e a esposa professora, em Boquim, Campo do Brito ou Itabaiana, por exemplo, transferia-se o esposo para Campos do Rio Real, Indiaroba ou Poço Verde, mandando o outro cônjuge lecionar numa Escola Rural, lá pras bandas de Porto da Folha, em Poço Redondo, nas brenhas brabas onde mataram Lampião, ou Gararu, tomar banho de asseio no São Francisco, só pelo anseio de mandar tomar outra coisa, nos Angicos e outros Gerus.

Em Itabaiana, nem se fala, que muita gente apanhou e sofreu o diabo. A gente aliada de Manoel Teles, ex-prefeito municipal, praticamente teve que comer bolachão com piçarra.

Em Ribeirópolis, a família Francisco dos Santos, apelidada “Ceará”, por origem no Sertão do Araripe, foi acusada de matar o ex-prefeito Josué dos Passos da UDN. Seguiu-se uma perseguição terrível, com a prisão de Adolfo, Fenelon, Zezé e Toinho, safando-se Baltazar, que seria Deputado e muito tempo depois um dos cassados pela Revolução de 1964.

Neste tempo, 1955, Baltazar só não foi preso porque se evadira para o município de Serra Negra na Bahia, outra jurisdição, e, sobretudo, porque a polícia de Sergipe não tinha coragem de enfrentar o Coronel João Maria de Carvalho, homem forte daquela região.

Restaram, porém, fazendas arrasadas com o gado morto, em ampla fuzilaria, sobrando tiro até para o retrato do presidente Juscelino Kubistchek, que ornando a casa baltazarina, permanecia inerte a tal selvageria, contemplando indiferente o seu sonho de metas desenvolvimentistas para o país.

Sou conhecedor desta realidade de perseguição e crueldade, quer porque participava do cotidiano de meu pai, Cabral Machado, enquanto líder da oposição na Assembleia Legislativa, e também porque fora ele o advogado defensor dos Cearás, e também porque vira muitos destes fatos, com os próprios olhos, como o exemplo de violência análoga, acontecido na cidade de Capela, com a prisão em ação de desmoralização contra o Professor e Maestro Leozírio Fontes Guimarães, um homem voltado à harmonia dos tons, à maviosidade sinfônica das notas, ao canto coral, madrigal, de amor sem igual às pautas e acordes musicais, um amigo desde a infância de meu pai, querendo só propagar a música, educar jovens para os gorjeios de pássaros e os trinados dos variados harmônicos.

E eu vi Leozírio ser preso em Capela, por ser amigo de seus filhos Jairo e Geldo, dormir na cadeia, ser embarcado pela madrugada na “Marinete” de Seu Misael, chegar à Rua da Frente, porque era ali que as “Marinetes”, os ônibus de então, situavam o seu terminal, de partida e de chegada, justamente à frente da Rua Laranjeiras, entre o Trapiche Lima e o Palanque de Macedo, aproximando-se da Ponte do Imperador. Hoje não havendo nem trapiche nem palanque, e tudo ressonando em bruma de memória.

E é nesta perdida lembrança, que só quem viu e passou recorda, e que estou a relembrar o Professor Leozírio já liberto, mas ainda cabisbaixo, desfrutando um pouco de carinho, na nossa casa, na Rua de Pacatuba 192. Não fora a presença de meu pai, avisado via telefone, Leozírio iria desfilar por meia cidade, do ponto das marinetes à Praça Fausto Cardoso, seguindo por toda a Rua de Pacatuba, que ainda é curta, prosseguindo pela Praça Camerino, virando na Avenida Barão do Maroim, dobrando na Rua Itabaiana, até a Chefatura de Polícia, na distante Praça Pinheiro Machado, onde a cidade praticamente terminava, tudo ao desabrigo do sol ou da chuva, e à contemplação da canalha que sempre se ajunta em curiosidade orgástica, como composição deletéria nestes eventos e cenários.

A utilização de um “Carro de Praça”, os Taxis de então, alugado por meu pai, evitou a desmoralização do desfile ultrajante, viajando Leozírio, Cabral, os dois soldados, todos no mesmo automóvel à Chefatura de Polícia, onde o Secretário de Segurança Pública, amigo e primo de meu pai, o futuro desembargador Antônio Machado, libertava, de pronto o maestro, por exclusiva falta de acusação. Só para consignar que a motivação era a desmoralização, um excesso de maldade de alguns udenistas capelenses incomodados com o brilho e o destaque do Professor Leozírio.

Violências deste tipo motivaram emigrações várias do interior para a Aracaju. Uma maldade que se fez bênção, afinal a vinda de figuras como Leozírio Guimarães, das filhas de minha parenta Dulce Andrade, à frente Maria José, Jalva, Hilda e Olga Andrade, e da Professora Lindalva Cardoso Dantas, todas componentes do Coral Genaro Plech de Capela, permitiu o seu destaque na Capital, onde sua obra restou maior, na Sociedade Filarmônica de Sergipe (SOFISE), no Colégio Nossa Senhora da Purificação, e na docência em nível médio e superior, não só na Universidade Federal, como a formação de centenas e até milhares de estudantes, tornados virtuoses da música, país afora.

Em sentido idêntico, a família de Jugurta Barreto de Lima teve que abandonar Santa Rosa, motivada por perseguição semelhante ou quase igual. E, de modo análogo, o mal virou bênção. Aqui em Aracaju a Professora Neuzice, já viúva, conduziu o leme firme da família, formando os filhos, desde Jugurta, o mais velho, passando por Jackson o político que se faria vitorioso, até Gilson, meu aluno, dos Barreto Lima, talvez o mais novo.

Jugurta seria um grande aliado de meu pai por toda vida. Fora um seu auxiliar quando a política mudou, e a presença dos militares entronizou o PSD com Celso Carvalho no poder e Cabral na Secretaria da Educação, tempos de uma instrução levada a sério.

Em tempo posterior, Jugurta bacharelava-se em Direito, sendo então Secretário do Vice Governador Cabral Machado, no Governo Lourival Baptista, tempo terrível para meu pai, afinal entre o titular e o vice não faltam figuras menores para estimular a cizânia e a discórdia, onde até a comparação oratória ensejava ciúmes.

Logo, na esteira desta real ciumeira, uma reforma constitucional foi realizada só para impedir a assunção do Vice nas vacâncias do titular, só permitindo o exercício, se o afastamento fosse superior a dez ou quinze dias. Era uma tentativa de podar os voos de Cabral. Tempo em que o PSD lhe faltou, por adesão governamental de sua bancada, que temendo desagradar o Governador Lourival, aquiesceu a esta poda, até então inédita da Vice-governadoria.

Três anos passaram e só no final do mandato, é que Lourival começa a amaciar Cabral. Deseja afastá-lo da Vice-governadoria, temendo o seu desapoio, numa assunção ao governo, tumultuando a sua pretensão de candidatar-se ao Senado. É um tempo em que participo de uma viagem a Brejo Grande, local que Lourival sediaria o seu governo num final de semana.

Quem viveu aquela época, sabe ser bem comum a transferência de governo promovida por Lourival Baptista, assentando-o em cidades interioranas com a finalidade de inaugurar obras, aproximar a administração do povo, mostrar eficiência e carinho com as municipalidades do interior sergipano.

Nestes eventos, praticamente de uma esquina a outra, algumas centenas de metros percorridos, com a banda tocando à frente, sucediam-se cascatas de discursos, alguns intermináveis, com direito a muito aplauso e saudação da banda de música da polícia.

E o assunto surge agora, porque neste tempo, enquanto professor de Física no Atheneu e graduando de Engenharia Química, eu fora nomeado por decisão de Lourival Baptista, e grande relutância de mau pai, Secretário da Vice-governadoria, em substituição a Jugurta Barreto que houvera solicitado exoneração, por ter sido efetivado como Promotor de Justiça.

Pois é; se Jugurta Barreto ficara três anos e alguns meses naquela função, eu fiquei os três meses seguintes, até a renúncia de Lourival Baptista para candidatar-se ao Senado. Um feito único na minha vida, porque na minha vida profissional tudo foi obtido no esforço dos estudos, mediante concurso de provas e títulos.

Muitos fatos eu poderia contar de Jugurta Barreto, temas outros da sua vitoriosa carreira.

Direi apenas que me senti bastante feliz em receber o seu convite para a homenagem que o Ministério Público de Sergipe, lhe prestaria em 4 de abril de 2011, oportunidade em que o abracei por derradeiro.

Direi ainda que Jugurta era um espiritualista fervoroso e por conta disso, após a morte de meu pai, recebi-o em minha residência, portando uma missiva do além, captada no seu cenáculo de oração. Era uma mensagem psicografada de Cabral, dizendo que tinha chegado bem, que ninguém se preocupasse por aqui. Pelo menos parecia assim a mensagem que Jugurta interpretava e explicitava, satisfeito com a viagem sem percalços de meu pai às esferas espirituais.

Pela pureza e simplicidade de Jugurta, eu que não creio tanto nesta eternidade espiritual, tão improvável quanto quimérica, acredito que no caso dele, Jugurta Barreto, e de Benito da Silva também, a viagem foi absolutamente tranquila, na maior alegria do dever cumprido.

Jugurta assim o mereceu como bom amigo e esposo afetuoso de Maria Petrúcia de Resende Lima, como pai amoroso de Edjailda, a filha que lhe segue os passos na profissão, e seus irmãos, como filho dedicado da Professora Neuzice Barreto, como irmão dos Barreto Lima, sempre presente, apascentando os menores, apoiando-os, brava e solidariamente nos percalços da vida, como profissional do Direito zeloso e competente, sem alardes, e como cidadão comum prestante, perante sua circunstância, que restou saudosa.

De Benito da Silva e de Jugurta Barreto, penso que; se a espiritualidade resistir ao perecer, juntos já estão próximos ao amigo Cabral, em abraços e sorrisos.

Quanto a mim, abraçando os familiares de Benito e Jugurta, cumpro uma tarefa que Cabral Machado por certo aprovaria.

Requiescant in pace!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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