BRASIL DO FEIJÃO COM ARROZ

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BRASIL DO FEIJÃO COM ARROZ

Araripe Coutinho

Para um jornalista que nunca passou fome deve ser fácil evocar as palavras do profeta Lula de que devolveu ao brasileiro o feijão com arroz três vezes ao dia. Devolveu não, – o brasileiro nunca teve. O presidente achou que assim construiu a dignidade de um povo e o elevou à categoria de classe social equiparada com “aqueles que pelos menos podem comer.” No Brasil dos restaurantes megalômanos de Brasília, onde o consumo de uma garrafa de vinho beira para começar, um salário mínimo, os almoços e jantares são regados primeiro a uma água perrier ou Pellegrino gaisificada, seguidos de couvert, entradas e o prato principal. Isto para o ex-presidente, habituée desses regas-bofes, diferenciava o feijão com arroz, – mas o que o povo precisa mesmo,  era comer, sociologicamente diferente de Darcy Ribeiro e  Josué de Castro no seu célebre “A geografia da fome”  quando diz “Não foi na Sorbonne, nem em qualquer outra universidade sábia que travei conhecimento com o fenômeno da fome. A fome se revelou espontaneamente aos meus olhos nos mangues do Capiberibe, nos bairros miseráveis do Recife – Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite. Esta foi a minha Sorbonne. A lama dos mangues de Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo.São seres anfibios – habitantes da terra e da água, meio homens e meio bichos. Alimentados na infância com caldo de caranguejo – este leite de lama -, se faziam irmãos de leite dos caranguejos.”  Nada me comoveu mais do que este livro de Josué, que li aos 18 anos, quando vítima da fome, recém saído de um orfanato onde  fui internado em  Magé, estado do Rio de Janeiro, abandonado que fui  pela minha mãe, comendo pepino cru e pimentão, o que eu acredito – não já morri até hoje de outras doenças mais graves e céleres devido a tudo que criei de anticoporpos e aí vai malária, coqueluche e sarnas. Sarnas mil. Assim pude buscar em Josué de Castro a explicação para as palavras de Luiz Inácio, que veio de Pernambuco, do mangue interno de onde a maioria dos brasileiros saiu, e porque ele fez dessa história de arroz e feijão o mote que deu vitória à Dilma Houssef. Verdade, sempre fui a favor do bolsa-família, não pelo fato de uma ajuda artificial e esporádica a pessoas com renda abaixo da linha de pobreza, mas porque faz muito diferença mesmo o dinheiro do botijão, do pão, da farinha de milho pro angu. Uma das causas mais reais que levam crianças à linha de prostituição infantil, tem sido, ainda hoje, a fome, a necessidade de encher o bucho dos irmãos e os seu próprio. Claro, na fome incontida de conter a fome de milhões de brasileiros, Lula foi taxativo em aprender com Josué a geografia desse mal que assola o mundo, mesmo esquecendo do controle da natalidade, de chamar à responsabilidade prefeitos e governadores para a barbárie que é o sistema esgoto-sanitário do país, onde a maioria dos brasileiros ainda defeca dentro de uma bolsa plástica e jogados seus dejetos num terreno baldio. Inocentemente, Luiz Inácio fez a gealogia da fome, a geografia da fome, mesmo, acho, sem ter lido o primoroso livro de Josué. A população brasileira que não  tem acesso a médicos, educação, muito menos cultura e é engolida pelo xaropismo de Fabio de Melo e Edir Macedo, entendeu que quando o estômago dói, o buraco é mesmo mais embaixo. Votaria em Dilma como em Tiririca. Por um momento, o profeta Lula estava certo na sua previsão: feijão com arroz. Pão e circo já tem no congresso.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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