BRASIL SEM JEITO

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BRASIL SEM JEITO

A culpa não é de Dilma. Nem podia. Ela está ali tão absorta quanto eu!
Na baixada Fluminense crianças convivem juntas com ratos e lambem
restos de saquinhos de picolé, enquanto o macdonald's não doa, não
devolve, nem reaproveita o que sobra. É a norma. A quantidade de
comida que vai pro lixo no Brasil daria pra alimentar um Capão Redondo
inteiro. Capão Redondo é um bairro, quase uma cidade, dentro da grande
São Paulo. O lixo material e o imaterial foge aos olhos dos famintos,
mas o macdonald's, o Habibs, o donuts, subway e tantos outros adotam a
postura da madrasta-má. Não podemos nos responsabilizar por nenhum
fio de cabelo encontrado no pão. Diante de apenas este detalhe, a
população faminta vai se deteriorando, se arrastando e piorando. Um rapaz atravessa
por mim, com um cobertor roto e grita:  "tio me dê 10 centavos." Este
é o país dos brasileiros esperançosos e felizes. Mais adiante um
garoto muito novo, seus 18 anos se tiver, empurra o carrinho de bebê e
a mulher atrás, arrasta uma havaiana, e ela diz: "amor, falta 15 reais
pra gente chegar em Guarulhos. Aos meus olhos um outro garoto de seus
15 anos, embrulha um chocolate da Nestlé e diz "vá meu amor, coma, eu
acabei de roubar pra vc."? A sensação do Morumbi, bairro em que me
hospedei, de Land rovers e shoppings impressionantes e jóias caras nas
orelhas das madames é que há uma gritaria muito grande entre a
miséria e a opulência ao mesmo tempo. No mesmo bairro em que um
motorista trabalha como um escravo para ganhar 4 mil reais com a sua
gasolina, tirando líquido 2 mil e quinhentos reais, vejo, francamente,
na cara de São Paulo, o Brasil sem jeito e sem vergonha. Nossa exumação
das pessoas menos favorecidas, como se nada tivéssemos a ver, nossa
complacência com o sistema rude, a decadência dos partidos políticos,
que ostentam diretórios pela Cidade Jardim, nosso
ouvido-tambor-explosivo-Afeganistão que vê uma Tv mostrando
deformidades humanas, logo pela manhã, para ganhar audiência do
próprio povão vil e a impaciência no trânsito, na demora de abertura
de concursos públicos e a falta de oportunidades  no País, do
Oiapoque ao Chuí, vendo as unhas e as pernas com escaras do povo que
dorme nas marquises, e a cara de desespero que se desenha quando uma
loja dessas, de capital estrangeiro e milionário, uma Vivo, por exemplo, que nada
faz para democratizar a comunicação enquanto ostenta um prédio de 3
milhões de dólares, todo em vitrô, na Chucri Zaidan, e o Hospital das
Clínicas que ainda resiste apesar da cegueira dos políticos e da
infâmia da ausência de verdadeiras, disse- verdadeiras, políticas
públicas para o povo semi. Semi- analfabeto, semi-gente, semi-vida,
semi-ser – decantação do espírito em chagas que lota as igrejas de
São Paulo para  vender o celular por trinta reais para fazer doação
à Igreja que vai lhe dar casa, comida e roupa lavada, – porque o
bicho vai pegar se não chegar em casa, em Itaquera, Capão, Baixada, –
qualquer lugar desses do  Brasil, que não cruze a Ipiranga com a São João,
que não tenha o bar Brahma com Cauby Peixoto cantando às quintas,
nosso Frank Sinatra esquecido no Marabá Hotel, sem um puto para comprar o leite da criança. O Brasil é um país de
divindades tombadas. Mulas ensandecidas ajudando o povo a morrer. A morte desenha sua moldura de anti-afetos. Somos mesmo os cobaias de Deus de que falou Cazuza. O rapa passa e leva até a banca de madeira do vendedor. Ele corre, tropeça, leva chute. O vendedor de cartão telefônico diz "não dê esmola, ele não vai trabalhar nunca". É um negão da torcida do Coríntians que está há anos ali, prostrado com um tocão do Brasil na cabeça.  Não
há esperança que resista no retrato pintado às nossas ventas. Monet morreria de desespero. O rapper Criolo está certo:"Não existe amor em São Paulo." São Paulo não tem amor. Todo brasileiro
deveria conjugar o verbo perder. Mais um pouco ainda. Há uma náusea que os bancos ajudam a aumentar. A agiotagem do governo vai desde o pensionista ao funcionário público favelizado. Não há ninguém, no fundo,
que resista a este país com o nariz sem ser tapado. Somos os semi-seres. Os semi-nadas. Os semi-ninguém.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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