Brasileiros presos e torturados

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Canário da terra (Foto: Arquivo Portal Infonet)

Um canário-da-terra canta alegremente numa árvore do calçadão do bairro 13 de Julho, um dos lugares mais bonitos de Aracaju. Um amigo também apreciador do bel canto logo me lembra que ainda não aprendemos a respeitar os animais: “Se colocarmos outro canário numa gaiola e um alçapão, pega ele rapidinho!” Fico surpreso: “Pra quê?” Ele não se faz de rogado: “Ora, você vai ter um canário cantando na sua casa e pode até ganhar dinheiro com ele!” Quanta ignorância!

Cerca de 38 milhões de animais silvestres são retirados das matas brasileiras todos os anos para serem vendidos e esse número só faz crescer. Há 15 anos, eram 12 milhões. É a segunda causa de destruição da fauna depois do desmatamento. Cerca de 40% dos animais silvestres comercializados no Brasil acabam indo para outros países, sendo o restante comercializado internamente.

Especialistas das agências governamentais que atuam no combate ao trafico de animais silvestres calculam que a atividade movimenta cerca de R$ 3 bilhões por ano, somente no Brasil. Depois do trafico de drogas e de armas, o contrabando de animais representa o terceiro maior negócio ilícito praticado no planeta. O país onde “nossos bosques tem mais vida, nossa vida mais amores” é responsável por 15% desse mercado no mundo.

O Brasil é um dos principais alvos dos traficantes devido ao seu tamanho, que facilita a movimentação nas fronteiras, e sua imensa diversidade de peixes, aves, insetos, mamíferos, répteis, anfíbios e outros. Filhotes são retirados das matas, atravessam as fronteiras escondidos nas bagagens de contrabandistas para serem vendidos como mercadoria. As condições de transporte são péssimas, por isso a maioria não chega ao seu destino final.

De cada 10 animais capturados, somente um chega ao destinatário, porque nove morrem no caminho devido às péssimas condições de transporte.

Pelas estradas passam boa parte dos milhões de animais que são retidos da natureza todos os anos no país. O tráfico interno é praticado por caminhoneiros, motoristas de ônibus e viajantes. Já o esquema internacional, mais “profissional”, envolve grande número de pessoas e passa pelos principais aeroportos. Os animais são capturados ou caçados no Norte, Nordeste e Pantanal, geralmente por pessoas muito pobres, passam por vários intermediários e são vendidos principalmente no eixo Rio-São Paulo ou exportados.

De acordo com as organizações não governamentais que combatem o tráfico de animais silvestres, a BR-020, que liga o Nordeste ao centro-sul do país, é uma das principais rotas desse comércio ilegal. Já a BR-116, a Rio-Bahia, é uma das rodovias com o maior número de pontos de tráfico de animais silvestres. A BR-101 também. Viajando por essas rotas é fácil encontrar jabutis, micos e papagaios. Crianças vendem um casal de mico por R$ 50. O filhote de jabuti sai por R$ 10 e um casal de papagaios por apenas R$ 50, R$ 60.

Os animais são traficados para pet shops, colecionadores particulares (priorizam espécies raras e ameaçadas de extinção!) e para fins científicos (cobras, sapos, aranhas…). É a biopirataria. Com o desmatamento, muitas espécies entraram para a lista de animais ameaçados de extinção, principalmente na Mata Atlântica. E quanto mais rara a espécie, mais importância obtém na bolsa de valores do mercado ilegal.

Segundo o Ibama, a exploração desordenada do território brasileiro é uma das principais causas de extinção de espécies. Somados à apanha ou captura ilegais (tráfico) na natureza e o desmatamento e degradação dos ambientes naturais, também o avanço da fronteira agrícola, a caça de subsistência e a caça predatória, a venda de produtos e animais procedentes da caça, além da introdução de espécies exóticas em território nacional, são fatores que participam de forma efetiva do processo de extinção. Esse processo vem se expandindo nas últimas duas décadas, à medida que a população cresce.

Como disse uma recente reportagem de TV, para que esses brasileiros não sejam mais presos e torturados, é preciso que o mundo saiba que a vida não está à venda. O Ibama recomenda: quando decidir ter um animal de estimação, lembre-se que existem milhares de cães e gatos abandonados aguardando a chance de uma adoção. Consulte a Prefeitura ou entidades de proteção animal.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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