Cabra macho

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Ouro Preto, sábado, 21 de abril. O governador Marcelo Déda, homenageado com a medalha da Inconfidência, conversa animadamente sobre Tiradentes, “o maior herói brasileiro”. E exaltou a coragem de Joaquim José, que deu a vida pela liberdade, encerrando uma expressão bem nordestina: “Foi macho!” Também homenageada, a jornalista Míriam Leitão, colunista de O Globo e aqui do JC, teria estranhado o suposto arroubo machista do jovem governador sergipano, ao que o igualmente novo governador da Paraíba, Cássio Cunha Lima, reparou: ser macho é uma expressão nordestina que se aplica também às mulheres. Ah, bom…

Pois bem: macho é um adjetivo que casa bem com o deputado federal Jackson Barreto. Não só pelo que ele fez na semana passada, mas pelo que ele faz toda a vida. Jackson é macho. Cabra macho.

Senão vejamos: na última terça-feira, Jackson assinou nova ficha de filiação ao PMDB. Voltou para o partido em grande estilo, sendo recebido numa reunião festiva no gabinete do presidente da sigla, o decano parlamentar paulista Michel Temer, para onde acorreu uma dúzia de prefeitos também oriundos de outros partidos, além de personalidades que representavam agremiações aliadas, como o senador Antônio Carlos Valadares (PSB), o prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira (PC do B), o secretário do Meio Ambiente e presidente estadual do PT, Márcio Macedo.

Com a chegada de Jackson Barreto, a bancada do PMDB na Assembléia Legislativa, que contava com Garibalde Mendonça, foi engrossada com a filiação de Luiz Mitidieri e Wanderlê Correia — e pode ser ampliada se o insatisfeito pastor Heleno Silva romper com o PR, depois que o empresário Edvan Amorim tomou o partido de surpresa. Nesse caso o deputado Mardoqueu Bodano, ovelha do rebanho de Heleno, aceita o convite de Jackson e também se filia ao PMDB.

A coragem do deputado federal está em duas razões. A primeira é de cunho jurídico. Ele resolveu encarar a ameaça de perda de mandato despertada pela interpretação do Tribunal Superior Eleitoral do conceito de fidelidade partidária: há um mês, o TSE definiu que o mandato de vereadores, deputados federais e estaduais pertence ao partido e às coligações e não aos candidatos eleitos. De acordo com a definição, o parlamentar eleito por um partido perde o mandato se trocar de legenda sem justificativa. E o partido pelo qual foi eleito tem o direito de substituí-lo.

A segunda é de cunho político (e por que não dizer pessoal?): é enfrentar a “ameaça” José Almeida Lima. Para Jackson Barreto, o senador, que vem a ser primo e inimigo número um, é um risco à manutenção da aliança do PMDB com o PT do governador Marcelo Déda e à própria sobrevivência do partido em Sergipe. “A filiação dele é um cavalo de Tróia da sua aliança com João Alves Filho. O que ele quer é destruir o partido”, disse, quando anunciou em primeira mão para o JC na véspera da filiação, naquele seu jeito típico de não medir palavras. “É importante manter o PMDB na base aliada do governador Marcelo Déda”, completou para não deixar dúvida.

“Se eu ficar aguardando uma decisão do Supremo Tribunal Federal, quando ela acontecer Almeida já terá conseguido a dissolução do PMDB. Portanto, é uma decisão política, mais do que jurídica, que eu tinha que tomar agora. Precisei ter coragem para tomar essa decisão e dar essa resposta política”, resumiu Jackson.

 

UM HISTÓRICO DO PMDB — Jackson Barreto tem uma longa história de amor e ódio com o PMDB, onde chegou por vias tortas. Ele iniciou a militância política no Partido Comunista Brasileiro. Em 1966, pelo proscrito PCB, elegeu-se vice-presidente do Centro Acadêmico Sílvio Romero, da Faculdade de Direito, na mesma chapa do também comunista Wellington Mangueira, que foi eleito presidente. Jackson era “um tarifeiro inquieto e comunicativo, que contribuiu bastante para a vitória da chapa, com seu trabalho de formiga cavadeira de votos”, recorda o historiador Ibarê Dantas. Outros estudantes hoje conhecidos eram quadros atuantes do PCB: o falecido poeta Mário Jorge Vieira, Jackson de Sá Figueiredo, João Augusto Gama da Silva e Laura Maria Ribeiro.

Em 1969, o nome de Jackson Barreto de Lima aparece na relação encaminhada pelo Exército ao reitor João Cardoso do Nascimento Júnior dos estudantes que deveriam ser expulsos da UFS. O reitor apenas suspendeu a atuação deles das direções dos órgãos de representação estudantil.

Em 1970, o nome dele aparece relacionado ao MDB. No dia 31 de outubro, faltando duas semanas para a eleição estadual, ele foi preso juntamente com outros que faziam propaganda dos candidatos do partido. Ficaram no prédio da Polícia Federal, na rua Capela e, posteriormente, foram transferidos para o quartel da Polícia Militar, na rua Itabaiana. José Carlos Teixeira, líder do partido da oposição, protestou junto ao comandante do 28º BC e, três dias depois, os emedebistas foram soltos. Naquele ano, o MDB elegeu quatro deputados estaduais em Sergipe: Guido Azevedo, Pedro Garcia Moreno Filho, Otávio Martins Peralva e Maria Auxiliadora Santos.

Em 1972, Jackson foi eleito vereador de Aracaju. O mais votado do MDB, com 1.766 votos. Em 1974, foi eleito deputado estadual, com 6.393 votos. O segundo mais votado do MDB, atrás de Guido Azevedo e à frente dos outros dois eleitos pelo partido, Oviêdo Teixeira e Leopoldo Sousa. José Carlos Teixeira elegeu-se o primeiro deputado federal do MDB por Sergipe.

Em 1978, Jackson foi eleito deputado federal pela primeira vez, com 24.076 votos. Naquele ano, o MDB também elegeu Tertuliano Azevedo — irmão de Guido e pai da deputada Susana Azevedo. O PMDB faria seis deputados estaduais. Em 1980, com o fim do bipartidarismo e a reorganização partidária, Jackson deixa o PCB e permanece no agora PMDB. Por este partido reelegeu-se deputado federal em 1982, com 19.992 votos, sendo o segundo eleito, atrás de José Carlos Teixeira.

Jackson Barreto foi coordenador da campanha Pró-Diretas em Sergipe, em 1984, que contou com o apoio até de políticos do PDS, dentre eles o deputado estadual Walter Franco, um dos que mais colaboraram para a realização do comício na praça Fausto Cardoso, no dia 26 de fevereiro daquele ano. Na Câmara, ele, Teixeira e o situacionista Gilton Garcia votaram a favor da emenda do deputado Dante de Oliveira pelas eleições diretas, que acabou não sendo aprovada.

Depois é a história que todo mundo se recorda. Jackson Barreto foi eleito prefeito de Aracaju em 1985 (85.964 votos) e perdeu o mandato dois anos depois. Em 1988, estava fora do PMDB e, pelo PSB, voltou à Prefeitura com Wellington Paixão e elegeu-se vereador com a maior votação da história de Aracaju até então, 23.988 votos, carregando outros sete companheiros.

Em 1992, mais uma vez foi eleito prefeito de Aracaju, agora pelo PDT, com 102.802 votos. Ali ele cometeu um dos maiores erros políticos de sua vida, quando aceitou lançar o primo Almeida Lima como candidato a vice-prefeito. O primo o sucedeu, em 1994, e logo julgou que já possuía poder e cacife eleitoral suficientes para alçar vôo próprio, descartando-o como aliado. A avaliação de Almeida foi favorecida porque, naquele ano, ainda pelo PDT, Jackson disputou e perdeu a eleição para governador de Sergipe com o senador Albano Franco (PSDB). Obteve 347.636 votos no segundo turno, depois de ter conseguido vender o primeiro.

Em 1996, Jackson venceu de novo em Aracaju, mas desta vez com o velho aliado João Augusto Gama da Silva, mas voltaria a ser derrotado, dois anos depois, em 1998, na eleição para senador. Obteve 232.786 votos, mas Maria do Carmo Alves venceu. Jackson estava novamente no PMDB, mas o eleitor não compreendeu o seu segundo erro político grave, a aliança com o governador Albano Franco.

Amargaria mais quatro anos sem mandato, até que, em 2002, retornou à Câmara Federal pelo esdrúxulo PMN, sendo o quarto mais votado, com 57.949. A coisa só não foi melhor para ele porque José Almeida Lima foi eleito senador da República, numa dobradinha oportuna com João Alves Filho, que se elegia governador de novo. Mas, em 2006, reeleição tranqüila, pelo PTB, com 100.366 votos.

Jackson Barreto de Lima aniversaria no próximo dia 6. Faz 63 anos, ganha de presente o retorno ao PMDB e continua, como o nordestino gosta de dizer, com uma coragem de macho. E sonhando em alçar vôos mais altos.

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