Caminhos

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 Eu não sei  quanto a você, mas eu sinto que vivemos tempos muito delicados. E numa sociedade na qual geralmente as pessoas cultivam mais o mal humor, a cara fechada, a antipatia, a arrogância e a mania de estarem prontas para se defender e atacar, conviver com um animal de estimação nos torna mais dóceis e tolerantes, é fato.

 Diante de tantas chateações do dia a dia, notícias de um mundo em crise, aviões caíndo e o terrorismo em alta, esses seres de quatro patas se tornam muito importantes para equilibrar as nossas energias  e recarregar as nossas forças.

 Ouvir o nosso cão latindo quando chegamos em casa é uma das linguagens mais puras e verdadeiras que conheço. A simplicidade e a alma leve deles nos contagiam. Não há explicação para este laço. Não é verdade?

 Outro dia em uma  tarde chuvosa ,fazendo uma arrumação no meu armário de roupas, encontrei uma caixa de fotografias. Ao abrí-la , visitei o meu passado. E me surpreendi ao ver aquelas imagens carregadas de tantas histórias vividas que já não me representam. Como são estranhos os labirintos da vida, me espantei ao me deparar com tantas lembranças naquelas fotografias que hoje, parecem tão distantes.

 Interessante essa fragilidade dos laços humanos e a flexibilidade com que podem ser substituídos. Realmente não existem portos seguros. Acredito que temos mecanismos inconscientes de defesa, que nos fazem esquecer muitas coisas. Porém, as fotografias carregam esse dom, de nos fazer voltar no tempo. Elas possuím o misterioso poder de nos transportar numa fração de minutos. Ao vê-las , nossa memória é capaz de sentir até os cheiros e sensações daqueles momentos.

 O meu passado foi editado. Tão bem editado que mesmo as dores parecem menores do que realmente foram, e as alegrias parecem ainda mais intensas.
 Como mudei! Como tudo mudou! Exclamei em voz alta para o meu cachorro: é Bruce, pessoas vão, vêm, reaparecem. Decepções existem, mas podemos chamá-las simplesmente de descobertas. Será que as pessoas que deixaram de ser em nossas vidas na verdade nunca foram, Bruce?

 Ao ver os olhinhos do Bruce numa atenção incomum e extremamente concentrado e interessado, uma lágrima escorreu pelo meu rosto, e um sorriso emotivo trouxe outras em questão de segundos, repleto de significados que se fez naquele instante. Pensei: mudei de amores, de casa, de país e de toda vida nova, a única coisa que permaneceu foi sempre o Bruce. Meu único e exclusivo pertence. A cumplicidade de uma vida e a certeza de saber que – muitos minutos do meu dia são repletos de amor e felicidade , por ele existir.

 Eu não acredito nos acasos da vida, tenho uma alma inquieta, que tenta reconhecer em cada vivência uma aprendizagem. E sou  grata por todos os meus tropeços e as opções acertadas que me trouxeram até aqui.

 Depois que a chuva passou, as fotografias voltaram para a caixa e fui caminhar  com o Bruce buscando sentir, pensar e viver! Buscando cultivar os meus momentos atuais e ver as matizes que existem  em tudo que nos circunda. Fiquei pensando que quem sabe o  nosso caminhar seja apenas isso : a união de cores, fotografias e amores,  com algumas dores para fechar o ciclo.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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