Canibalismo; na ficção, na realidade e no pesadelo.

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A notícia já é de domínio de todos. Mas, quando a encontrei em 14 de abril no site do jornal Le Monde, o título me causou surpresa: “Le cannibale brésilien raconte sa ‘mission’ à la télévision”, o canibal brasileiro conta sua ‘missão’ na televisão.

Seria algo inerente à nossa ancestralidade comum do nordeste brasileiro; o hábito de devorar carne humana?

Seria algo novo descoberto em referência ao deguste por nossa ascendência indígena que ia à farra se refestelando em lauto acepipe, na moqueca ou no cozido, ou na grelha, no espeto e no torrado, à ruiva brasa, do pedaço postejado do inimigo cadáver?

Seria algo científico, negando ou afirmando a velha crença antropófaga de aquisição dos méritos do falecido, espécie de fortalecimento acima da própria nutrição, tese repelida entre povos civilizados, mas uma sustança de fiança, por feiticeiros e pajés?

Pajelança que a nossa proto-história relata em vários feitos, sobretudo com o naufrágio infeliz do bispo Dom Pero Fernandes Sardinha, uma especialista da fé, um doutor, com tese debatida sobre a existência de alma imortal no silvícola, e que sentiu em pele própria uma fé de crença diferente, tornado acepipe, em sabor novo, à portuguesa, em azulinas praias nordestinas?

Logo o Bispo, com paramentos, estola e báculo? Aquele que viera salvar as almas perdidas dos que tanto chamaram a atenção de Pero Vaz de Caminha, sobretudo as nativas, completamente nuas, sem a mínima timidez, exibindo as suas “vergonhas”, tão belas e tão “saradinhas”, no dizer notável com que aquele escriba relatara a El Rei Dom Manuel, o Venturoso, sobre a terra e a gente feliz encontrada?

Nativas, em nudez sem igual, e que diante da qual, por real, usual e dever ser, nenhum tacape português restara fadigado, fraquejado ou pendido, daí a miscigenação “in corpora alienati et furibunda”?

Bispo que furibundo restara com esta sede lusa de avançar sobre as índias, reedição moura, em mancebia e poligamia?

Questão que o Bispo viera amansar, amainar e arrefecer, entusiasmos e abrasamentos, problemas surgidos com a nova lança, que virando paixão feminina, despertara a lascívia inexistente em terra virgem?

E o boato bem se alastrando em burburinho, mesmo longinquamente à frente da cordoalha do Mosteiro dos Jerônimos, desafiando antífonas e “cantus planus”, com a lubricidade das fêmeas do paraíso terreno encontrado, sendo louvada em permissividade de terso e prosa, e na quentura do verso e da prova, abençoada até mesmo pela pachorrenta mornura, e quase monacal frigidez do índio macho, que partilhava tudo sorrindo, até o leito, sem maldade, e sem apego aos bens materiais, por contemplador da natureza, em sonho e realidade, mas degustador inusual, de chãs e contrafilés humanos?

Uma realidade bem maior que o espiritual, com o bispo sendo moqueado pelos caetés de Coruripe, balneário de coqueirais paradisíacos, pouco acima do Rio São Francisco?

Não, sem Bispo e sem índio, a história do jornal francês diz agora de um fato recente, acontecido em Garanhuns, cidade de clima ameno do agreste pernambucano:

“Um homem, preso quinta-feira 12 de abril em Garanhuns, no nordeste brasileiro, com duas cúmplices, todos suspeitos de ter devorado várias mulheres, contou em entrevista de uma televisão local, que estava encarregado de uma ‘missão’”.

“O trio, Jorge da Silveira, 51 anos, Isabel Pires, 51 anos e Bruna da Silva, 25 anos – assassinava as mulheres, retalhavam em postas, depois comiam suas carnes num ‘ritual de purificação’ Os três faziam parte de uma seita denominada ‘Cartel’, que pleiteia a purificação mundo e a redução da demografia. Seu objetivo era matar três mulheres por ano, segundo a polícia local”.

“‘Eu não matei ninguém. Eu fiz três missões com a permissão de Deus e elas (as três vítimas) estão todas com Deus purificadas’, declarou Jorge da Silveira recusando o termo de ‘assassinos’ na entrevista”.

“Ele explicou agir ‘sob o comando’, não do demônio, mas de ‘dois anjos’, um Branco e um Negro, em visão tida desde a infância. Ele negou ‘estar louco’, mesmo quando ‘na adolescência os psiquiatras me obrigaram a tomar remédios’. Ele não ‘lembra mais” da maneira como matava as suas vítimas na ‘Câmara do Mal’, mas disse que ‘não se servia do sangue’ e punha as carnes na água para purificá-las antes de comer’”.

“Os pedaços de carne das vítimas eram utilizados na fabricação de salgadinhos, vendidos nas ruas de Garanhuns”.

“As vítimas eram escolhidas em função do número de sua carteira de identidade, ‘que dava em qualquer parte o número maldito 666, ‘do diabo’, segundo ele. Antes de morrer ‘elas choravam, e eu dizia que os seus pecados estavam perdoados’, disse ele sem mostrar mínima tristeza”.

“Ele afirmou que era Isabel Pires, 51 anos, quem atraia as vítimas em lhes propondo um bom salário de babá. Esta última negou a culpabilidade de Bruna da Silva, 25 anos, a amante de Da Silveira”.

“Pormenores dos fatos e gestos do trio, com desenhos, foram encontrados num livro de 50 páginas escritos por da Silveira, diplomado em Educação e faixa preta de karaté, neste livro intitulado ‘As Relações de um Esquizofrênico’”

“Dois corpos foram encontrados quinta-feira no jardim de sua casa e poderiam ser de duas mulheres desaparecidas recentemente: Alexandra Falcão, 20 anos, e Gisele da Silva, 30 anos. Elas teriam sido vistas próximo da casa dos suspeitos antes de desaparecerem, segundo a polícia”.

“Quinta-feira os vizinhos puseram fogo na casa do trio”.

“Uma das suspeitas, Bruna da Silva, confessou que trazia o nome de uma mulher que o grupo teria assassinado na vizinha cidade de Olinda. Eles teriam carregado a filha desta mulher, uma criança de cinco anos encontrada com o trio. A criança foi colocada sob a proteção d e um juiz de infância a fim de lhe encontrar uma nova família”.

E o tema fez-me lembrar de ficção, pesadelo e realidade, onde não só o macabro acontece, mas a própria sobrevivência, e a luta do bem contra a maldade.

Comer carne humana é inaceitável! Mas, que dizer dos 16 sobreviventes do avião bimotor “Focker-27”, um turboélice da Força Aérea Uruguaia, que levando um time de rugby do Clube Old Christian Brothers, caiu na Cordilheira dos Andes, no lado argentino, na sexta-feira 13 de Outubro de 1972, e que só conseguiram sobreviver e ser resgatados porque ousaram se alimentar dos próprios colegas falecidos?

Que dizer também, quando a solução alimentar, em refestelo amplo e comunitário resolve em feito macabro, de um crime acontecido, requerer assim a ocultação de prova e do cadáver?

Que dizer ainda da especulação em ficção, imaginar por aridez do solo, e em falta de alimentação, o reprocessamento de cadáveres, como proteína de boa nutrição?

Que dizer de um pesadelo em que eu me vejo conduzido a um matadouro qual gado antes examinado, conferido, pesado e encomendado, o acém destinado a alguém, o patim para outro fim, diferente de uma Edmunda que saliva com a meu acém e meia libra do pé de bunda, e um Di-Sentís que entre tantas coisas vis, e rebuscos pouco gentis, disputa a minha destra paleta e os meus magros pernis?

Que dizer deste mau sonho, em que no patíbulo me vejo recebendo o golpe do cutelo, pelas costas, lancetando a nuca, numa analgesia a anteceder o corte e a sangria, igual ao que padece o bovino, com o venoso se misturando, em cor e odor, ao expelido por flacidez dos esfíncteres?

Que dizer de homens e mulheres mortos sem ser por alimento, mas arrimado de perdão e salvação, na lâmina do machado, no corte da espada, no esmagamento por forca ou garrote vil, ou em plena purificação de fogueiras? Seria coisa de louco? Seria assepsia necessária à cidadania?

Mas aí eu me afasto do tema falando de meus medos interiores.

E eu quero lembrar apenas que o tema da antropofagia suscita dois filmes que me marcaram. O primeiro, “Soylent Green de 1973, que está no livro “Despercebido,… mas não Indiferente” na minha crônica “Uma questão de Proteina?”.

O segundo é “Fried Green Tomatoes” ou “Tomates Verdes Fritos”.

Em “Soylent Green”, ou O Mundo de 2020”, a fome no mundo tinha aumentado tanto que o suicídio indolor era recomendado, não só por necessidade de redução populacional, como para alimentação das massas famélicas.

Já em “Tomates Verdes Fritos” é discutida a violência contra a mulher em sutil referência feminista e contra a segregação racial.

Duas mulheres, assim é o roteiro, Idgie Threadgoode (Mary Stuart Masterson) e Ruth Jamison (Mary-Louise Parker), são muito amigas.

Idgie é a heroína solteira, que envelhecida assume o memorial de Ninny Threadgoode, (Oscar de Atriz Coadjuvante para Jessica Tandy) enquanto Ruth Jamison casa e engravida de um marido violento e espancador, Frank Bennett (Nick Searcy).

Sabendo do sofrimento da amiga Ruth, Idgie, fuzil à mão, resgata-a com seu filho, levando-os para morar consigo num restaurante que administrava junto às obras de uma ferrovia.

Ocorre que o marido violento, inconformado com a partida de mulher e filho, resolve reavê-los, à bruta.

Acontece que há uma luta com a morte do marido valentão. Quem acreditaria numa legítima defesa se a culpa recairia fácil em Big George (Stan Shaw), o negro churrasqueiro da região, que involuntariamente imiscuíra-se na briga?

E o desfecho se dá sob o comando de Idgie Threadgoode, que afogando os vestígios do crime num lago pantanoso vizinho, retalhou as carnes do jovem espancador em um churrasco que restou requisitadíssimo.

Fritura saboreada até pelo Sheriff Curtis Smoote (Raynor Scheine), o investigador sagaz e pertinaz que esfomeado devorava o infausto, Frank Bennett, perquirindo até pelo tempero, de tal esmero e sabor.

Saindo da ficção e do pesadelo e ingressando no real e verdadeiro, o tema me surgiu porque os carniceiros de Garanhuns, não conseguindo almoçar literalmente suas vitimas, confeccionavam frituras e pastéis, recheados com carne humana, para deguste geral pelas ruas da cidade.

Com tanto assunto pro Le Monde falar, se a moda pega, suscitando o exótico e o paladar, estamos lascados!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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