Capitão Samuel “joga pra galera”

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O deputado estadual Capitão Samuel parece já ter escolhido o seu alvo prioritário de ataques para este ano: o Partido dos Trabalhadores. Fazendo coro com o discurso antidemocrático de parte da imprensa e da elite nacionais, quase que diariamente, o líder da oposição na Alese manifesta opiniões superficiais que têm como único fim tentar deslegitimar o PT. Esses dias, Capitão Samuel chegou a chamar dirigentes do PT de “bandidos que estão tomando conta do país, roubando dinheiro” e afirmou que “o PT, buscando a corrupção, aparelhou a Petrobrás, o BNDES e o Banco do Brasil”.

Quem vê a postura de Capitão Samuel até pode se enganar e pensar que ele é membro de um agrupamento político inquestionável. Ou que ele mesmo é um parlamentar isento de casos de corrupção e desvios de conduta.

Mas basta uma rápida consulta a fatos recentes da política sergipana e de outros estados para percebermos que, ao falar sobre corrupção, Capitão Samuel nada faz além de “jogar pra galera”, já que tanto ele próprio quanto o PSL, seu partido, devem explicações à sociedade sobre denúncias de envolvimento em casos de corrupção.

Comecemos pelo PSL, o Partido Social Liberal, com apenas dois casos para ilustrar.

O primeiro exemplo vem do Paraná. Lá, em 2011, o então presidente estadual do PSL e ex-candidato ao Governo paranaense, Antônio Roberto Forte, solicitou aos filiados do partido no estado que depositassem, em sua conta particular, a quantia de R$ 380 cada, em forma de doação. À época, o advogado Guilherme Gonçalves, especialista em Direito Eleitoral, afirmou que a atitude configurava crime político. Segue a explicação do advogado: “Os partidos políticos estão vinculados ao mesmo princípio de gestão dos municípios, estados e União e prestam contas à Justiça Eleitoral. Os partidos recebem recursos públicos e suas condições se distinguem das de seus dirigentes.” Questionado sobre o uso de conta pessoal para recebimento de doações, Antônio Forte não deixou dúvidas sobre sua concepção de democracia: “quem achar que isso não é legal, que vá para outro partido”. Em 2011, Capitão Samuel já era deputado pelo PSL e não me recordo de nenhum discurso de indignação da sua parte.

Ainda sobre o PSL, um exemplo vindo do Mato Grosso do Sul, em 2012. Gravações de ligações telefônicas comprovaram que o empresário e presidente estadual do PSL, Alceu Bueno, cobrava uma “taxa” no valor de R$ 10 mil para que os dirigentes do partido nas pequenas cidades pudessem formalizar coligações com outros partidos para a disputa das eleições municipais daquele ano. Durante as ligações, Bueno dizia que a cobrança era “ordem da direção nacional do PSL”. Apenas após o depósito da primeira parcela da “taxa”, Bueno autorizava os diretórios municipais a fazer alianças com outros partidos. Questionado sobre o fato pelo site Midiamax, o presidente do PSL do Mato Grosso do Sul disse que “sem esse recurso, o PSL não tem como sobreviver”. Onde estava o Capitão Samuel que não denunciou essa situação?

Esses são apenas alguns exemplos que confirmam que o PSL, partido do Capitão Samuel, é uma das tantas legendas de aluguel que vivem às custas do frágil sistema político brasileiro. São partidos pequenos, sem expressão ou nomes de densidade política para disputar eleições majoritárias, mas que sempre aparecem durante os processos eleitorais para negociar apoio político com quem trouxer mais vantagens.

Para os partidos de aluguel, que não têm compromisso programático com o desenvolvimento do país, o que reina é a política do vale-tudo, desde que as suas lideranças ascendam politicamente.

Falemos agora especificamente sobre o Capitão Samuel, destacando também dois fatos recentes da sua conduta política.

No final do ano passado, a Procuradoria Regional Eleitoral de Sergipe emitiu um parecer requerendo a impugnação da sua prestação de contas, por omissão de gastos ocorridos durante a campanha eleitoral. Segundo o documento da PRE do Ministério Público Eleitoral, Capitão Samuel não prestou contas de uma série de itens, como: contratação de motoristas e pagamento de combustíveis de quatro veículos usados para propaganda de sua candidatura; locação de imóvel e pagamento de contas de água e energia de comitê eleitoral aberto em Rosário do Catete; plotagens de carros; e produção de adesivos e santinhos.

Mais recente ainda foi o pedido, feito pelo Ministério Público Federal, de cassação do mandato de Capitão Samuel, que destinou R$ 844 mil para uma entidade que não desenvolve nenhum tipo de trabalho social, que ele já havia presidido e que, segundo os procuradores do MPF, “ele teve um benefício muito grande”.

Por isso, não nos enganemos. Se a preocupação de Capitão Samuel fosse discutir de forma aprofundada a corrupção, ele já teria dado explicações convincentes aos sergipanos e sergipanas tanto sobre os casos em que está sendo denunciando quanto sobre a conduta de dirigentes do seu partido. Se Capitão Samuel estivesse mesmo preocupado com o combate à corrupção no país, ele já teria manifestado a sua opinião sobre uma reforma política que, ao mesmo tempo, concilie o princípio da liberdade de organização partidária com a necessária inibição da formação das legendas de aluguel (como o PSL). Como não faz isso, reafirmo, Capitão Samuel apenas “joga pra galera”.

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