Carnaval

Acordou. Carnaval. Terça-feira gorda. É preciso ser feliz. Nada além da felicidade será aceitável neste dia. Levantou a cabeça para ver um pouco além da janela: o céu nublado. Deixou a cabeça cair de vez no travesseiro suado. Ainda assim é preciso ser feliz. De repente, tomou consciência da ressaca brutal que o esmagava. A cabeça ia explodir dali a trinta segundos, não antes que sua pele inteira se partisse ressecada. Beberia litros de água, se houvesse água em casa. Se encolheu em posição fetal esperando que o desconforto diminuísse um pouco.

“Preciso ir pra rua”. A ideia, por mais absurda que pudesse parecer, pairava no ar do inconsciente coletivo de uma maneira tão forte que era impossível ignorá-la. Abriu um pouco os olhos e constatou a bagunça do quarto de pouquíssimos metros quadrados: restos de fantasias, copos vazios e roupas sujas espalhados por lugares impossíveis. É carnaval. O quarto tinha um cheiro ruim de cerveja esquecida nos copos e roupa suja. “Preciso tomar um banho”, mas não conseguia se levantar.

Lá fora, as pessoas exigiam felicidade do resto do mundo. Nem a jardineira podia estar triste. A cabeça estava prestes a virar fogos de artifício e explodir colorindo o ar, enquanto o estômago marejava. Não seria capaz de lembrar qual tinha sido a última refeição, nem quando. A cara ainda enfiada no travesseiro e as pernas encolhidas. “Preciso me levantar”. Mas sequer era capaz de se mexer na cama grudenta de suor. O tempo abafado e nublado fora da janela.

Soltou um gemido, quase um grunhido, e com esforço hercúleo, sentou-se na beira da cama, as pernas se arrastando no chão. A cabeça pendia sobre o peito e os braços pendiam ao lado do corpo. Quase um morto-vivo. Mortos-vivos sentem dor? Ele sentia, muita dor de cabeça, de estômago, nas pernas, em lugares que não saberia nomear. Catou na cabeceira da cama um copo com água, mas só encontrou lixo e copos com restos fedorentos de cerveja e talvez outras coisas apodrecidas. “Preciso me levantar”. Ele continuava repetindo pra si, como se à força da repetição, qualquer coisa sobrenatural o fizesse levantar-se da cama. Mas nada acontecia de fato.

Não tinha lá muita certeza se desejava realmente se levantar e ir para a rua, beber mais, dançar, tentar conversar com alguma menina e esbanjar alegria, principalmente isso. Estava muito cansado e ressaqueado para decidir-se enfrentar todo o mundo e ficar em casa na terça-feira de carnaval. Melhor mesmo era dar um jeito de levantar-se com alguma dignidade e ir à rua. Foi cambaleando até o banheiro, mareado como se andasse num pequeno barco que singrasse o mar aberto. Vomitou até os pulmões e sujou um pouco o piso branco.

Achou melhor tomar um banho pra espantar aquilo tudo. Entrou embaixo do chuveiro gelado e sentiu até a alma tremer de frio. Ficou lá um bom tempo, esperando que a enxaqueca escorresse ralo abaixo junto com a sujeira do corpo. Abriu a boca e bebeu um pouco daquela água, mesmo que não tivesse muita certeza sobre o quão potável era. Provável que fosse a única água disponível na casa. Saiu depois de alguns bons minutos e já se sentia algo melhor, mas não exatamente animado para pular atrás de uns caras tocando músicas num volume muito mais alto do que seria confortável para qualquer criatura.

Voltou pro quarto e procurou uma roupa limpa, ou ao menos uma que não estivesse manchada, vomitada ou visivelmente imunda. Achou alguma coisa bem velha no fundo de uma gaveta. “Está tudo bem, é carnaval, passa por fantasia”. Na sala, dois amigos dormiam roncando de boca aberta no chão. Não quis acordá-los e foi para a cozinha procurar alguma comida. Na geladeira tinha cerveja e algumas coisas estragadas. Num pote de feijão cozido, cresciam fungos esverdeados. Conseguiu improvisar um cuscuz com um queijo um pouco vencido e café bem forte.

Olhou pela janela da cozinha e o céu ainda parecia muito nublado e o tempo permanecia muito abafado. Os rumores da alegria ainda estavam latentes, silenciosos, não se podia ouvi-los daquele lado da cidade. Depois de comer muito e tomar mais água da torneira, voltou para o quarto (os amigos ainda dormiam na sala e não pareciam capazes de acordar nas próximas cinco horas). Escovou os dentes e ficou na dúvida se punha o colar havaiano de flores de plástico espalhafatosas.

Pegou algum dinheiro, os chinelos de dedo e decidiu pelo colar. Saiu sem trancar a porta e deixou um bilhete para os amigos. “Fui atrás da alegria, manés”. Na calçada do prédio, o tempo parecia ainda mais quente e abafado. Quis voltar, quis se deitar novamente e só levantar quando a quarta-feira de cinzas já estivesse se despedindo. Mas respirou fundo e saiu à rua. Em busca da alegria, afinal, é terça-feira de carnaval.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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