Carta para Cândida

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Aracaju, 20 de abril de 2010 (às 17h59)

 

 

Depois de todas as nossas conversas fiquei pensando que o amor é o único sentimento que pode ser comparado ou até confundido com outros sentimentos. É engraçado quando achamos que uma grande paixão é amor ou quando odiamos tanto alguém, que ao final das conclusões percebemos que a amamos.

Minha querida, o que nos mata é a nossa sensibilidade e ponto final. Algumas pessoas já criaram tanta casca que fica difícil vê que lá no fundo de suas vidas existe ainda algum brilho. Sei que você convive com pessoas que são assim. Eu convivo com pessoas que são assim. E dói saber que por mais que demonstremos companheirismo, não dá pra pedir amor em troca. Amor não se pede, se oferta naturalmente. Escorre pelas mãos.

Sua presença em minha vida, por exemplo. É de um amor tão grande que não me vejo brigando com você por nada! Nem quando você me pede para selecionar os jornais de sempre, nem quando você não me liga fico chateado. Sabemos que nossa profissão nasce na cabeça, se desenvolve nas mãos pra virar jornal – palavras escritas. Sei que nosso cargo requer tempo para ser desenvolvido, mas o amor de verdade sabe que a falta faz parte do processo de se amar e de se deixar amar.

Talvez o que falta em nossas vidas não seja um grande amor – do tipo arrebatador e que nos confronte como pessoas insignificantes-bestiais. Acho que o que nos falta é nos deixar amar, mas de forma tão aberta e livremente que sufocasse de tanta liberdade. Amor vem de liberdade que vem de sabedoria que vem de observação. O problema é que estamos tão chocados e cercados por cegos – hipócritas – que nossa visão acaba falhando. Daí já viu, não conseguimos discernir as coisas, ficamos burros, queremos levar o mundo nas costas e acabamos não recebendo amor, apenas fragmentos dele.

Ninguém gosta de migalhas, né? Estava esses dias ouvindo uma música na voz de Caetano e lembrei de você. “Amor, yo sé que quieres llevarte mi ilusión. Amor, yo sé que puedes también llevarte mi al—-ma. Pero, ay amor, si te llevas mi alma, llévate de mi, también el dolor, lleva en tí todo mi desconsuelo y también mi canción de sufrir. Sei que ando meio dramático esses dias e culpo o Espanhol por isso. Se tem uma Língua que me mata, certamente é esta. Enfim…

Conte-me agora de você. Recebi seu último recado e me emocionei com sua emoção. Você sabe que não escrevo para atingir alguém diretamente, mesmo assim tenho encontrado problemas esses dias. E adoro receber e-mail, de pessoas queridas, escritos diretamente pra mim. A gente perdeu esse vínculo né? Sempre estamos querendo chamar a atenção do outro através de mensagens prontas, correntes, mas um e-mail é tão bobo e pode tanto! Digo isso por que sempre que recebo um recadinho seu fico feliz. Percebo que ainda existo em sua vida e isso me satisfaz porque é amor. Quero lhe informar que todos os recortes estão guardados esperando por você, assim como eu que tanto admiro sua força, coragem e feminilidade exposta após os 22 anos.

Já faz um tempo que escrevo pedindo a atenção de amigos distantes. Mas resolvi uma coisa a partir desta carta: não cobrar nada de ninguém, principalmente dos meus. Amigos. Amores. É melhor deixar fluir, né? Sofre-se menos quando o desapego é praticado. Essa frase me fez lembrar de um preceito budista e no quanto estou afastado desses ensinamentos.

Aguardo sua ligação pro sushi-semanal-velho-de-guerra.

 

Para sempre teu,

 

Jaime N.

 

 

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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