Cem anos do Médico Carlos Melo.

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Se vivo estivesse, o médico e humanista Carlos Fernandes de Melo estaria completando neste 14 de outubro cem anos de realizações e amizades. Espírito criativo, idealista e realizador, esta foi a imagem do Médico Carlos Melo que retive desde a infância e adolescência, quando o via sempre presente nos movimentos sociais à frente da Legião Brasileira de Assistência e em particular incentivando o movimento escoteiro em Sergipe.

 

Estou a lembrar os idos de 1958, quando eu bem jovem participara do Grupo Escoteiro Jackson de Figueiredo comandado pelo saudoso Chefe Walter João Dantas Carlos Melo.

Carlos Fernandes de Melo – Um médico exemplar.

Neste tempo, Carlos Melo e sua esposa Dona Tatá (Maria José Magalhães de Melo) participavam significativamente dos movimentos e ações da sociedade aracajuana.

 

Filho da Senhora Antonia Fernandes de Mello e do Guarda-Livros João Carneiro de Mello, professor da Escola de Comércio Professor Orlando, o jovem Carlos Fernandes graduou-se em Medicina pela tradicional Escola de Medicina da Bahia em 1932.

 

Neste tempo o Brasil passava por sucessivos momentos de agitação política com o recrudescimento de insatisfação tenentista se caracterizando pela derrubada do poder federal, com a posse de Getúlio Vargas em 1930 e posteriormente com o levante paulista, em 1932. Tempo em que as discussões e as insatisfações tinham na juventude campo para fermentar e germinar as novas idéias, em sonhos libertários de um mudo sem traumas.

 

E neste particular, sem os arroubos agressivos e exaltados, Carlos Melo se destacou pela liderança construtiva e realizadora de aglutinar homens e idéias na realização do bem comum, permeando a seriedade e a ética, comandando a sociedade em busca do bem comum.

 

Graduado, iniciou suas atividades profissionais na cidade de Propriá onde foi prefeito em 1938 e teve significativa ação na liderança no Hospital São Vicente de Paula, tendo sido seu Diretor até 1945, tempo em que se transferiu para Aracaju, premido pela necessidade de um meio maior para educação de seus filhos.

 

Em Aracaju, o médico humanista pertenceu ao Departamento da Maternidade e Infância da Legião Brasileira de Assistência (LBA), entidade que dirigiu e assessorou os governos de José Rollemberg Leite, Arnaldo Rollemberg Garcez, João de Seixas Dória e Celso de Carvalho.

 

Tempo em que a LBA era uma força viva na comunidade sergipana com sua edificação sóbria e séria, tratando da criança e da mãe, em ação meritória, hoje distante na memória, em face de inglória do homem que teima em mudar, remodelar, desconstruir e trair a própria história, como a erosão a demolir. Hoje o prédio não encerra mais uma legião de anjos humanitários, nem de arcanjos legionários.

 

A LBA virou um prédio sem nome, um amontoado burocrático, um negócio que ninguém sabe o que é, e só serve para dizer o que foi, perdido na poeira e na zoeira da vida, trocando de função ao sabor dos guizos e gozos do homem cupim e ruim. E assim numa ruindade sem fim eis algo sem memória, e sem fazer rica a própria história, fpromovendo de se o próprio nada, ou quase isso.

 

Não era assim enquanto Carlos Melo ali estava sendo a cabeça pensante da ação legionária. Ele que via na oportunidade de servir o norte de sua ação, o discurso e o rumo do seu viver.

 

Em outubro de 1947, Carlos Melo descobre a filosofia rotária de servir. Ingressa no Rotary Club de Aracaju, um clube de serviço, fundado em 3 de dezembro de 1934, associado a Rotary International, entidade nascida em Chicago – Illinois – Estados Unidos da América em 23 de fevereiro de 1905.

 

O Rotary surgira da idéia de um advogado americano Paul Percy Harris que congregou três amigos Gustavus Loehr, engenheiro de minas, Silvéster Schiele, mineiro e comerciante de carvão, e Hiram Shorey, alfaiate e comerciante do ramo de confecções, para criarem um associação de amigos e profissionais com vista à divulgação dos seus serviços profissionais. A idéia era primar pela ética e boa prestação de serviços impregnado pelo ideal de companheirismo, amizade e participação construtiva na sociedade.

 

Neste tempo, o mundo apresentava um noticiário de desconfiança e beligerância dos homens e das nações que culminaria com diversos conflitos de ordem política e econômica. Os Estados Unidos acabavam de sair de uma guerra imperial contra a Espanha, no oriente eclodira a guerra russo-japonesa, as conferências de paz como a de Haia, revelavam os fumos dos canhões contidos ainda nos obuses, as ameaças de todos os tipos, tudo o que faria inflamar o mundo numa guerra global, fruto do revanchismo francês e o nacionalismo do recente império germânico, surgido nas paredes espelhadas de Versailles, enfim tudo aquilo que faria surgir o dilema do século XX com as ditaduras totalitárias e os conflitos entre o capital e o trabalho.

 

Distante de toda esta discussão ideológica estes quatro amigos fizeram nascer em Rotary, uma instituição rotativa, congregando homens de boa vontade, norteados no ideal de bem servir na sua profissão, partindo do princípio de “melhor se beneficia quem melhor serve”. Uma instituição em que todos são iguais e daí o caráter rotativo, onde deve imperar o espírito de companheirismo e tolerância.

 

Os homens precisavam se aceitar uns aos outros com seus dramas, seus sonhos, suas crenças, suas preferências e suas angústias. E nesse espírito de tolerância, o Rotary não queria ser nem uma nova crença, uma doutrinação filosófica, uma religião; o Rotary queria que os homens em sua convivência se desarmassem de tudo que os diferenciava, perquirindo tudo aquilo que os unissem na prestação de serviço séria, competente e zelosa.

 

E a despeito dos descaminhos intolerantes da humanidade o Rotary cresceu. De um clube inicial em Chicago, logo se expandiu, vencendo fronteiras geográficas, étnicas, idiomáticas e religiosas. Chegou ao Brasil em 1923, sendo fundado o Rotary Club do Rio de Janeiro. Depois viria São Paulo, Recife, Bahia. Chegou a Sergipe em 1934 com a fundação do Rotary Club de Aracaju.

 

Na presidência do Engenheiro Gentil Tavares da Mota, indicado por alentado parecer da comissão de indicação da qual participaram o Médico Juliano Simões, o Odontólogo Arício Fortes e o Comerciante José Quintiliano da Fonseca Sobral e o Bacharel em Direito Gonçalo Rollemberg Leite entre outros, assumiu Carlos Melo a Classificação Medicina – Ginecologia permanecendo no Rotary Club de Aracaju até o seu falecimento em 05 de dezembro de 1990.

 

Na terminologia rotária, entende-se por Classificação a atividade profissional desenvolvida pelo sócio do clube. Trata-se de um princípio que norteia o ingresso e participação de um membro associado no clube. Ali, no âmbito do clube o indivíduo representa a sua profissão, a sua atividade profissional, com exclusividade em toda extensão e unicidade, afinal é vedado no mesmo clube a presença de vários associados possuindo uma mesma atuação profissional, o que evita a transformação dos clubes em uma entidade profissional específica por mais meritórias que elas sejam. O princípio da Classificação encerra uma responsabilidade ética e uma idoneidade sem par, afinal o seu detentor é o seu exclusivo defensor como galardão, escudo e troféu.  

 

E Carlos Melo se embebeu significativamente pela ética e razão de viver rotária, sendo um elemento aglutinador de companheirismo, um esfuziante orador e professador da ação rotária. Logo assumiria as atividades do clube, do Diretor de Protocolo, o agente responsável pela programação e execução das reuniões semanais, às lideranças das Avenidas de Serviço.

 

Neste tempo o Rotary já possuía o lema; “Servir, antes de pensar em si”, um convite a sempre olhar em torno de si, na própria circundância e em todas circunstâncias, sem ousar o egoísmo e a egocentrismo que aniquila o ser e não fertiliza o dever ser.

 

Assim, Carlos Melo se tornou uma das maiores lideranças do Rotary Club Aracaju. Logo seria seu Presidente no ano rotário 1949-1950, um rotariano quase recente. Assumiria também em 1954-1955, liderando os companheiros nos diversos eventos rotários onde firmava sua palavra além fronteiras. Será também um semeador de Clubes levando ideal de servir em outras cidades e regiões.

 

De suas mãos em liderança ou colaboração surgiriam o Rotary Club Propriá-Colégio (1953), Rotary Club Estância (1953), Rotary Club Aracaju-Norte (1967), o Rotary Club Itabaiana (1969), o Rotary Club Lagarto (1970), o Rotary Club Aracaju-Siqueira Campos (1980) e o Rotary Club Aracaju-Sul (1995), entre outros.

 

Por ser um Rotariano destacado, Carlos Melo foi logo assumindo a liderança rotária em Sergipe. Assumiu em 1º de Julho de 1964 a Governadoria do então Distrito 455 congregando os Estados de Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Foi um ano de muita dedicação do casal Carlos Melo e Dona Tatá, percorrendo os diversos clubes daquele “distritão”.

 

Neste tempo o seu primogênito Carlos Magalhães os acompanhou nas visitas aos clubes, descobrindo novos caminhos perseguindo estradas longínquas, desconfortáveis e perigosas, percorrendo caminhos inóspitos, pedregosos e poeirentos, quando o asfalto era um rastro de sonho, uma quimera distante, em desafio só vencido pela vontade de avivar a chama rotária, inflamando homens e vontades.

 

Porque um Governador de Distrito é alguém que dedica um ano de sua vida, não para se divertir, para curtir a vida qual lazer Sabático, em férias e/ou afastamento da atividade obreira. É um ano de dedicação pessoal não remunerada, tempo de afastamento funcional e consequente perda financeira, sem falar dos sacrifícios familiares, inerentes ao distanciamento dos filhos em prejuízo do contato permanente, e sem lembrar também da perda de clientes e negócios. Algo que só os Governadores o sabem.

 

E mais! Poucos rotarianos tem esta dedicação e vontade de assumir a Governadoria de um Distrito em plenitude, visitando os Clubes, promovendo Assembléias, Conferências e Institutos, sendo o convocador para a ação rotária, desenvolvendo o quadro social, promovendo a expansão com novos clubes, pregando a instrução e a informação rotárias, sem as quais prevalece a ignorância onde todos se debatem e improvisam, tornando a regra devoluta, provisória e relativa; tudo o que não promete permanência e continuidade.  

 

E foi pregando esta constância, coerência e assiduidade que eu conheci Carlos Melo mais de perto, quando ingressei nos idos de 1979 nos umbrais do Rotary Club de Aracaju.

 

Neste tempo, Carlos já era um homem idoso, aproximava-se dos seus setenta anos. Sua palavra era firme, enérgica, firmava esperança, como se um jovem estivesse a nortear seus sonhos de crença nos valores do homem.

 

Revejo-o em sua dicção amorosa olhando a vida do alto de uma experiência a granjear o aplauso dos mais novos. Seu ideal; o companheirismo, a amizade, a tolerância, a ética, a responsabilidade profissional e familiar; o Rotary como entidade do ethos e da práxis do verdadeiro exercício de bem conviver, com tudo em toda ambiência, e com todos, respeitando-lhes a ciência e se lhes fazendo exemplo no servir e viver.

 

Neste dia dos seus cem anos relembro o velho rotariano abrindo as portas de sua residência na Rua Zaqueu Brandão 180, para receber seus muitos amigos e todos os rotarianos, sem exceção, velhos e jovens, de todos os clubes, para louvar a vida que se fazia plena, nos seus setenta anos e depois nos oitenta, quando já enfermo recebera a todos na limitação de uma cadeira de rodas, poucos dias antes do seu falecimento em 5 de dezembro de 1990.

 

E hoje, quando sua presença se faz mais forte no centenário que relembra a fugacidade da vida, é sobremodo importante reavivar sua memória, lembrar que os homens se eternizam na lembrança dos que lhe foram próximos e o admiram.

 

De seus filhos por primeiro, do notável Radialista Carlos Magalhães, um rotariano desde as calças curtas, da Médica Ginecologista Ana Melo, do Engenheiro Civil Carlos Melo Filho, um rotariano desde as fraldas, de Carlos Henrique, Economista, de Ana Elizabete, Médica Anestesista radicada nos Estados Unidos, de Ana Cristina, Arquiteta, netos e bisnetos.

 

E de João Carlos, o santinho de Dona Tatá, aquele que só viveu para dizer à sua circundância, que a bondade está muito além da vida, dos esforços da vida e das insatisfações do existir. E que por ser assim na vida só fez acarinhar e abençoar a todos no seu derredor. Benção que fora do pai, de Carlos Melo, o homem exemplar, e de Dona Tatá, a alma bondosa e generosa, o seu amor, seu complemento.

 

Louvação que deve se estender a todos como eu que de uma forma mais próxima ou mais distante contemplou o Médico e Rotariano, sua ação e realização.

 

Que o nome Carlos Melo seja avivado nas lembranças e recordações deste seu centenário. Para que não passe, acobertado pela poeira do tempo e o olvido dos homens. Que seu olhar prossiga, lidere e continue, em estímulo e permanência. Para que seja louvado, seguido e imitado, não só por seus filhos, netos, bisnetos, familiares, como de toda sua gama de amigos e admiradores, enquanto homem e cidadão.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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