CERTEZA DO DEVER CUMPRIDO II – ARREGAÇANDO AS MANGAS

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Jornalista Antonio Conde Dias discursa em solenidade realizada em Itaporanga d”Ajuda
Uma das promessas de campanha de José  Hamilton Maciel Silva, agora novo presidente da Sociedade Médica de Sergipe era publicar um boletim informativo destinado à classe médica e deu-me a incumbência de encontrar os meios para viabilizar o projeto. Designou-me diretor do jornal. Era uma coisa que gostava de fazer, mexer com jornal. Herdei essa segunda vocação de meu pai, o jornalista Antonio Conde Dias. Admirava vê-lo sentado em frente à Remington portátil, escrevendo quase que diariamente seus artigos opinativos, era uma máquina pequena, tão antiga que sempre tinha uma tecla emperrada, quase sempre a da letra “A”, mas uma forcinha a mais no dedo resolvia a situação. Meu pai “escrevia” rápido na minha visão de criança, mesmo não usando todos os dedos da mão, aliás coisa que eu também faço hoje, só que com menos esforço, no computador de casa ou no laptop quando das minhas viagens.
Morávamos numa casa localizada à Rua da Frente, de número 198, tendo como vizinhos o cônego Domingos Fonseca, a Sra.Isabel Martins e a família Galrão Leite, do Colégio do Salvador. Da janela da sala de visita confortava-nos a bela visão que o Rio Sergipe nos proporcionava. Ali meu pai sentava para escrever seus artigos, virado para a janela, inspiração não lhe faltava e eu gostava de vê-lo ali sentado, escrevendo silenciosamente. Sempre que alguém fala de jornalismo eu me lembro de meu pai e dessa cena que não me foge da memória.

Então, fui cuidar do jornal da Sociedade Médica. Procurei o jornalista Ivan Valença, que possuía uma gráfica na Av. 7 de Setembro, no Centro de Aracaju, para obter dele ajuda e informações. De cara tivemos logo um impasse. Como médico, não poderia ser responsável pela publicação, uma vez que a legislação exigia a presença de um jornalista profissional para exercer as funções de editor, repórter e revisor. Gostava de fazer tudo isso, mas não estava habilitado. Recorri então a Ivan que já era um jornalista consagrado e ele gentilmente emprestou o seu nome e a sua experiência em benefício do nosso jornal. “Você não pode ser o editor, mas pode ser o diretor”, sugeriu ele.

No número 1 do jornal, que se chamava “Jornal da SMS”, assim mesmo, usando a nova sigla que a diretoria instituiu da Sociedade Médica, com 4 páginas compostas e diagramadas nas oficinas de Ivan, existe uma foto da nova diretoria reunida numa das salas de sua sede, que demonstra bem o espírito de participação de todo o grupo. Nela se vê Zé Hamilton e Marcos Prado, presidente e vice respectivamente, os dois na cabeceira da mesa, ambos com muito mais cabelos do que nos dias de hoje e aparece eu na outra extremidade, com uma vasta barba, negra, exuberante. Já no número 2, no editorial, José Hamilton lançava pioneiramente a semente da fundação da Ordem dos Médicos do Brasil, com o artigo “Por uma ordem única nacional”. Para nossa satisfação, o editorial foi transcrito pelo jornal da Associação Médica Brasileira, o JAMB, com destaque. Começávamos a mostrar uma nossa face de realizações.

Numa época em que compor, diagramar e fazer paginação de jornal era um trabalho essencialmente artesanal, juntar literalmente letra com letra (eram letrinhas feitas de chumbo), participar desse trabalho era para mim uma tarefa prazerosa, que culminava com o barulho intenso da rotativa expulsando o jornal ainda quentinho, sujando as nossas mãos com a tinta da informação.

Gostava de Ivan Valença não somente pelo jornal. Apreciava suas histórias como jornalista atuante sempre fiel aos princípios da ética e da moral. Nunca vi Ivan a serviço de A ou B. Escrevia, como faz ainda hoje, com independência e altivez. Seu escritório, localizado no andar superior da gráfica, era incrivelmente caótico. Pilhas enormes de livros se alternavam com outras não menores de vídeos em VHS. Não compreendo como ele dava conta de tudo, escrever, ler, assistir filmes e mais filmes, o dia inteiro, tudo de uma só vez. Era a bagunça personalizada, mas uma desorganização “organizada” pois ele encontrava logo o que queria. Era o seu ofício, seu ópio, o maior cinéfilo de Sergipe que conheço até hoje, em minha modesta opinião. 

No ano em que se comemorou o centenário de nascimento de Augusto Leite, o jornal saiu em edição especial de 12 páginas, que tive o privilégio de editar, com diversos artigos originais sobre a vida do grande cirurgião, depoimentos inéditos de personalidades que conviveram com ele, discursos que ainda não haviam sido publicados, muitas fotos, enfim, a publicação passou a ser referencia sobre a vida e obra do pioneiro da cirurgia em nosso Estado.

Rodamos várias edições com Ivan até que o periódico precisou de cores, já pelos idos de 1994, quando estávamos na presidência da SOMESE. O romantismo de imprimir um jornal também começou a desaparecer. Essa necessidade exigia novas tecnologias. Primeiro foi a inclusão da cor verde, no título e nas manchetes da primeira página. Até aí deu para administrar, mas quando chegou a hora da policromia, jornal e Ivan, tivemos uma sofrida separação.

O jornal resistiu até a administração de Henrique Batista. Na administração de Gurgel virou revista, mais moderna, mais bonita, toda em policromia, papel couchê, brilhoso, muito bem paginado e impresso. Dessa forma, desde 1985, os médicos sergipanos vêm tendo seu veículo oficial de informação.

Outras ações viriam nessa fase de despertar da SOMESE. Mas isso eu conto depois.


 

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