CERTEZA DO DEVER CUMPRIDO III – “Recuperando o prestígio”

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Foto histórica da fachada do primeiro hospital de Aracaju, o o Santa Isabel, em 1886.

Tornei-me um colaborador muito próximo de José Hamilton Maciel na direção da SOMESE, naquele remoto 1986. Juntamente com Fernando Barbosa, fomos dois fiéis escudeiros do presidente da Sociedade Médica.

Uma grande preocupação da diretoria era a situação caótica da sede social, uma construção antiga quase abandonada, adquirida graças ao apoio dado pelo governo do Estado na pessoa do Dr.Lourival Baptista, que também havia feito a doação do terreno. Era uma estrutura deteriorada pelo tempo, por falta de manutenção adequada. Tornava-se imperativa uma reforma completa do prédio, mas como obter os recursos necessários para a obra se a SOMESE não possui saldo bancário nem fonte de receita regular.

Surgiu então a idéia de Hamilton de buscarmos recursos em outras instituições. Um nome veio à tona: a Confederação Nacional da Indústria – CNI, à época presidida pelo sergipano Albano Franco, líder empresarial filho do governador Augusto Franco e neto do Dr.Augusto Leite, o pioneiro da moderna cirurgia em nosso Estado, um dos grandes nomes da medicina sergipana. Solicitamos a interferência de Carlos Vahle, colega médico e amigo de infância, que também compunha a nossa diretoria e tinha acesso a ele através de ligações familiares: sua irmã Sonia era casada com  Walter, irmão de Albano.

Foi então agendada uma audiência com Albano e dias depois, na sede da Federação das Indústrias do Estado de Sergipe, foi firmado um convênio de cooperação mútua, com a SOMESE elaborando um programa de promoção à saúde para aplicação nas empresas filiadas à FIES. Com os recursos advindos do convênio, tivemos condições não só para promover a reforma que a SOMESE precisava como também para fazer ampliação de suas dependências, incluindo a construção de cinco salas para aluguel, que gerariam receitas adicionais para a entidade. A assinatura do  convênio foi documentada pela TV Atalaia. Pela SOMESE estiveram presentes José Hamilton Maciel, eu, Carlos Vahle e Fernando Barbosa e pela CNI os senhores Albano Franco e Idalito de Oliveira.

O antigo prédio foi totalmente recuperado, o auditório “João Franca de Santana” teve sua posição invertida, ampliou-se o número de salas, lembro-me que a sala que ficava na esquina foi logo alugada por um italiano que ali instalou uma farmácia denominada AME. Ele possuía ainda uma ambulância com esta sigla bem destacada, para remoção de enfermos, trabalho pioneiro em termo da iniciativa privada. Gradativamente todas as lojinhas foram sendo alugadas, gerando recursos para a SOMESE.

Veio então a criação do Museu Médico Augusto Leite, que para se tornar realidade contou com a ajuda inestimável do escritor Luiz Antonio Barreto, que representava a Fundação Joaquim Nabuco em Sergipe. Ele colocou técnicos qualificados para a montagem dos painéis temáticos com fotografias antigas, dos balcões e peças mobiliárias, além de um conjunto de TV e videocassete. O papel de Luiz foi fundamental para que o museu se tornasse uma realidade, não só por viabilizar a participação da modelar instituição pernambucana, que tanta contribuição trouxe para o desenvolvimento cultural do país, como também pelo seu empenho pessoal na busca de equipamentos e utensílios médicos de valor histórico.

O Hospital Santa Isabel, através do empenho pessoal do seu diretor, o médico José Carlos Pinheiro, fez também importante doação de fotos antigas e parte  dos equipamentos utilizados pelo Dr.Augusto Leite quando da primeira laparotomia ocorrida em Sergipe, há quase um século. Maca cirúrgica, autoclave, armário de materiais médico-cirúrgicos, enfim  um rico e significativo acervo. 

Surgiu o bar “O BISTURI”, que passou a ser ponto de encontro dos médicos. Visitei a Coca-cola e consegui com Austeclino Rocha Filho, gerente da empresa, utensílios para uso do bar como mesas, cadeiras e outros materiais. Ele atendeu ao pedido de uma forma muito atenciosa. Seu pai, de saudosa memória, Austeclino Rocha, foi figura importante na nossa medicina. Final de tarde era muito gostoso sentar no barzinho e trocar idéias. Já na minha administração ele foi cenário de inúmeras atividades educativas, recreativas, associativas. Aos cuidados de Rose Bragança, que preparava petiscos maravilhosos, “O BISTURI” deixou muitas saudades quando encerrou suas atividades.

Aproximava-se a data que marcava o centenário de nascimento do Dr.Augusto Leite, falecido em 1978. O Hospital de Cirurgia e setores da sociedade começavam a se movimentar nos preparativos para as comemorações. A SOMESE se incorporou às homenagens com a produção de uma edição especial do seu jornal, no qual tive o privilégio de atuar também como repórter, fotógrafo, diagramador e pesquisador. Esse trabalho, que rendeu uma edição de 12 páginas, foi uma das ações mais marcantes da nossa administração na SOMESE e para mim, uma realização pessoal extremamente gratificante, não só pelo seu resultado final, que ficou extraordinário, mas pela oportunidade que tive para conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra do grande médico fundador do Hospital de Cirurgia. Conseguimos elaborar um trabalho que passou a ser uma referencia no assunto, com o resgate de depoimentos e discursos históricos, inéditos porque nunca publicados em qualquer veículo de divulgação, de personalidades que conviveram com o velho cirurgião do “Bisturi de Ouro”, figuras do porte de Juliano Simões, Antonio Garcia, Lauro Porto e Garcia Moreno.

Uma outra providencia que se fazia necessária era a reforma dos estatutos sociais, cuja última atualização havia sido feita em 1958. Uma comissão formada cumpriu suas determinações com agilidade e competência e em 1989 a SOMESE passou a ter um novo estatuto, estabelecendo uma nova  logomarca, a bandeira oficial, a criação  de diversos departamentos científicos, entre outras medidas inovadoras.

Ações como essas começaram a consolidar o trabalho de recuperação do prestígio da SOMESE junto à sociedade sergipana, trazendo para os médicos um sinal de alento. Outras ações ainda estavam por vir. Mas isso eu conto depois. 

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