Charles Manson e a mídia: a permanência do assassino na memória

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Mariana de Brito Silva

Graduanda em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – Instituto Multidisciplinar

Orientadora: Prof.ª Msc. Raquel Anne Lima de Assis

E-mail: contato.marianadebrito@gmail.com

 

Acreditando que seria o novo messias, nos dias 9 e 10 de agosto de 1969, o assassino norte-americano Charles Maddox Manson (1934-2017) liderou uma seita que provocou a morte de sete pessoas em Los Angeles, incluindo a atriz hollywoodiana Sharon Tate. Disputando um espaço na memória e buscando ser eternizado, o criminoso em questão sonhava em ser um superstar tão conhecido quanto a banda britânica The Beatles. Acabou que, pela sua loucura e crimes bárbaros, os holofotes da mídia foram e continuam sendo apontados para ele.

Apenas no ano de 2019 foram lançadas diversas produções que envolvem algum elemento da história do homicida, como por exemplo os dois episódios do documentário “Manson: as fitas perdidas” pela Fox e a segunda temporada da série Mindhunter, produzida por David Fincher. A mais recente é o longa-metragem do cineasta norte-americano Quentin Tarantino, “Era uma vez em… Hollywood”, que se passa na década de 1960 e tem como um dos elementos secundários da obra a seita de Manson. Na trama, Tarantino aborda a história do astro de TV Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e do seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt), além de histórias paralelas, como o dia a dia da atriz Sharon Tate (Margot Robbie).

A década de 1960 tem como marca registrada o movimento da Contracultura. Esse movimento foi marcado pela contestação social e por uma inovadora visão da juventude, buscando propiciar uma nova postura cultural, política e social. Estes jovens com desejo de mudar o mundo estavam cercados pelo: rock’n’roll, cinema, quadrinhos, desenvolvimento da televisão que intensificou a comunicação, aprovação da pílula anticoncepcional (1960) nos EUA que foi fundamental para a revolução sexual e feminina da época. Temos também a Guerra do Vietnã (1955-1975) que foi televisionada, provocando inúmeros protestos nos EUA com o slogan: “Faça amor, não faça guerra!”. A Contracultura sofreu um abalo com as mortes provocadas pelos membros do culto ao Manson.

É interessante observar que, mesmo o filme não sendo sobre Charles Manson (sua única cena dura dois minutos), ao ser anunciado “Era uma vez em… Hollywood”, diversos meios de divulgação, como por exemplo uma reportagem (28/07/2019) do G1 (portal de notícias da Globo), veiculava em sua manchete, além do nome do novo filme, menções ao assassino. Isso certamente agregou na divulgação do longa, pois além da consagrada fama de Quentin Tarantino, o fascínio pelo mórbido e pela espetacularização de casos reais acabou por aguçar a curiosidade do público. Porém a obra é apenas uma tentativa de reescrever o período em questão e mostrar também uma Sharon Tate humanizada, longe dos bastidores, indo além da lembrança que temos dela: a atriz grávida que foi assassinada pela Família Manson.

É importante ressaltar que o ponto aqui levantado não é uma defesa a censura de produções e reportagens sobre crimes reais. E sim a necessidade de um cuidado ao aborda-los para não aprofundar as feridas das vítimas e familiares, muito menos banalizar esses casos ao ponto de os transformarem em produtos de entretenimento glamourizado ou ideais e estímulo para aqueles que compartilham do mesmo pensamento dos algozes. A história de Charles Manson é mais uma, dentre várias, que precisa ser abordada, mas não romantizada.

Para saber mais:

BIAGI, Orivaldo Leme. A Contracultura e o Rock’n’Roll: a relação dos movimentos de contestação social e a música jovem dos anos 60 e 70. São Paulo: Momentum, 2017.

DAEMON, Flora. Sob o signo da infâmia: das violências em ambientes educacionais às estratégias midiáticas de jovens homicidas/suicidas. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2015.

ERA uma vez em… Hollywood. Direção de Quentin Tarantino. Sony Pictures Entertainment, 2019. Disponível em: <https://medium.com/@armanasmed/assistir-online-era-uma-vez-em-hollywood-filme-2019-completo-dublado-hd-em-portugues-6d991f91d87>.

HISTÓRIA de Charles Manson e sua seita vira filme de Tarantino e o Fantástico relembra crimes. G1 – Globo, 28 de jul. de 2019. Disponível em: <https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2019/07/28/historia-de-charles-manson-e-sua-seita-vira-filme-de-tarantino-e-o-fantastico-relembra-crimes.ghtml>.

GUINN, Jeff. Manson. Trad. O Aprendiz Verde. Editora Darkside, 2014.

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