Charlie Hebdo: o tiro saiu pela culatra?

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Charlie Hebdo. Um novo nome entrou para o vocabulário e o imaginário do brasileiro na manhã da última quarta-feira. Imagine a comoção que não causaria um ataque de milicianos à redação do jornal Pasquim, no começo dos anos 70, resultando nas mortes de Ziraldo, Jaguar, Millôr e Henfil. Elevado a uma dimensão mundial, por ter ocorrido no coração da Europa, o atentado terrorista à redação do parisiense Charlie Hebdo, saldo de 12 mortos, dentre eles quatro influentes jornalistas, mal comparando, representa o que seria uma tragédia empreendida contra o satírico hebdomadário carioca.

Os cartunistas Cabu, Tignous, Charb e o veterano Wolinski, símbolo de maio de 68 e inspirador daqueles brasileiros, são os heróis da resistência que os extremistas queriam e conseguiram chacinar em Paris. Eles faziam um jornalismo crítico, sarcástico, no limite da irresponsabilidade, que não dava trégua ao poder, à extrema direita e ao fundamentalismo religioso, fosse católico, judeu ou islâmico.

"Wolinski influenciou todo mundo que vocês conhecem: Ziraldo, Jaguar, Nani, Henfil, Fortuna… O cara era uma ESCOLA. Que dia tenebroso!", escreveu o cartunista brasileiro André Dahmer em seu perfil no Twitter. "Assassinaram o maior cartunista em atividade no mundo. Um homem que influenciou três gerações de desenhistas", disse depois ao portal G1.

Provocador e para muitos de extrema esquerda, o semanal Charlie Hebdo se define, em seu próprio site, como um “jornal satírico e social, sem anúncios, que chega todas as quartas-feiras à sua banca de jornal”. Sua tiragem vem caindo desde que voltou a circular em 1992, atualmente em cerca de 50 mil exemplares, menos da metade do que vendeu antes.
Eles não pouparam em sarcasmo contra Jesus Cristo e a pedofilia que rondava o Vaticano, nunca deixaram de ser ácidos em questões caras aos judeus, mas não se tem notícia de que o papa ou um rabino os ameaçassem. Da mesma forma, escracharam o presidente François Hollande, um incorrigível mulherengo. No entanto, há muito que grupos muçulmanos os queriam mortos, principalmente por ousarem representar graficamente o profeta Maomé, uma blasfêmia para o Islã.

A publicação já havia sido atacada em 2011, após ter publicado charges do profeta do islamismo. Em novembro daquele ano, uma bomba incendiária foi jogada na sede do jornal, no 11e arrondissement, na parte leste de Paris, a poucos quarteirões do rio Sena. Não houve vítimas e ninguém assumiu responsabilidade pelo ataque, que aconteceu no dia anterior da edição do Charlie Hebdo chegar às bancas com uma charge na capa de Maomé e um balão que dizia: "100 chicotadas se você não morrer de rir".
Naquela edição, o semanário trazia o título "Charia Hebdo", em referência à lei muçulmana sharia, e dizia que a edição daquela semana tinha como editor convidado Maomé. Em 2006, muitos muçulmanos já haviam se irritado com o fato de a publicação ter reimpresso as charges do profeta originalmente publicadas no jornal dinamarquês Jyllands-Posten. Na época, a polícia teve de ser mobilizada para proteger a redação.
Charlie Hebdo sofreu duplo atentado à liberdade de expressão, por ser atingido na liberdade de imprensa e na liberdade artística. Desde que Gutemberg inventou a imprensa, o jornalismo sempre foi alvo de governos autoritários e de extremistas. Vide o próprio Pasquim, cujos jornalistas foram presos e bancas de revistas que o comercializavam sofreram atentados a bomba, o que de certa forma acelerou o fim do combativo jornal.
Mas há quem proponha que a questão agora seja mais profunda, mais política ou mais cultural. O sociólogo marxista João Alexandre Peschanski afirma que houve um atentado contra a extrema-esquerda na França. "É um veículo de comunicação de extrema-esquerda. A origem política e artística dos principais nomes do veículo remonta aos anos 1960 na França. É a essa geração original que pertenciam Cabu e Wolinski, que estão entre as doze vítimas", diz ele, lembrando que o diretor de redação Charb, também assassinado no ataque, era parte de uma nova geração de artistas e jornalistas, diretamente herdeira do grupo original. Três décadas mais jovem que Cabu e Wolinski, era ele quem orientava a linha política e editorial do semanário desde 2009. Segundo o jornal francês Libération, foi ele o principal alvo dos terroristas.
Clóvis Rossi indaga: é o choque de civilizações? Ele observa que os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, os atentados aos trens de Madri e os atentados aos metrôs e a ônibus de Londres tiveram como responsáveis terroristas islâmicos que viveram e foram treinados na Europa. Como no atentado ao Charlie Hebdo, no qual os autores, franco-argelinos, gritaram que estavam "vingando o profeta".
"Culpa do Corão, então?", pergunta o jornalista da Folha. Não, responde, por exemplo, Reza Aslan, escritor iraniano-americano, pesquisador de estudos religiosos: "A noção de que há uma correlação direta entre crenças religiosas e comportamento pode parecer óbvia e autoevidente para aqueles não familiarizados com o estudo da religião. Mas [a correlação] tem sido menosprezada por cientistas sociais que notam que crenças não explicam comportamento e que o comportamento é, na verdade, o resultado de complexas interações entre uma série de fatores sociais, políticos, culturais, éticos, emocionais e, sim, religiosos".
"O que complica tremendamente a equação é que quase todos esses fatores atuam mais ou menos simultaneamente sobre as comunidades muçulmanas radicadas na Europa", atalha Clovis Rossi, concluindo que todos eles provêm de comunidades que se sentem marginalizadas social, política e culturalmente. "E é óbvio que só podem se sentir emocionalmente tocadas quando veem desabrochar com força movimentos islamófobos. Os radicais islâmicos e os islamófobos europeus acabam se alimentando mutuamente".
A propósito 1: o principal clérigo turco condenou a chacina na França e disse que o ato foi um atentado contra o Islã. A propósito 2: o policial que foi fuzilado na calçada, quando já estava ferido e caído ao chão, era muçulmano. A julgar pelas manifestações pelo mundo, principalmente em Paris, onde se concentraram na Praça da República, os terroristas podem ter atirado no que viram e acertado no que não viram.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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