Chorando com a “Velha Senhora” em chamas.

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Em 8 de junho de 2017, publiquei neste Blog o texto “A ‘Velha Senhora’ pedindo socorro”, dizendo um pouco do meu amor à velha Catedral de Notre Dame de Paris.

 

Ontem, o mundo dormiu assustado, ao saber que um pedaço da História foi consumido pelas chamas.

 

É verdade! Tudo aquilo que contém o elemento Carbono na sua composição, vira cinza ao se ligar com um outro elemento fundamental, o Oxigênio; ambos responsáveis pela composição da própria vida, ou da vida como a conhecemos.

 

O Carbono, seja ele puro, enquanto Diamante, ideal refletor da luz, por encanto e beleza, possui dureza máxima na escala de Mohs.

 

Dizer assim é falar que ninguém o arranha, nem lhe causa ferida.

 

Se possuísse boa rigidez e tenacidade com ele se construiria a ideal espada cortante, ferindo a todos que a desafiassem.

 

Vi magníficos brilhantes numa viagem a Amsterdam. Eles fascinam, faíscam e alucinam.

 

O Carbono, todavia, apresenta-se em pureza igual, mas numa cristalização distinta, constituindo uma outra variedade, dita alotrópica, chamada grafite, que possui dureza baixa, possui raso custo e serve entre outras coisas para a confecção dos lápis.

 

A natureza foi pródiga com o grafite, que é encontrado com facilidade, enquanto que o diamante é bastante raro e por isso muito caro.

 

Ambos, grafite e diamante, são o mesmo Carbono, diferindo apenas a constituição mineralógica de cada um; no Diamante os átomos se arrumam em formato cúbico, enquanto no grafite tal arrumação é hexagonal, fruto de submissão a pressões distintas, submetidas.

 

No mais o Carbono vem combinado, participante da constituição da vida.

 

Algo que possua Carbono é um “combustível” por excelência.

 

Basta-lhe o contato com o Oxigênio, que se lhe combina como ideal “comburente”; um casamento indissolúvel, resultando o CO, ou monóxido de carbono, parcialmente inflamável, inodoro e tóxico,  e o CO2, o dióxido de carbono, anidrido carbônico, ou gás carbônico, componente da nossa expiração.

 

Dizer assim, é falar que todo Carbono existente na natureza é inflamável, bastando-lhe apenas a ignição que deflagra o processo.

 

Quando o noticiário falou meses atrás do incêndio do nosso Museu Imperial, jamais pensaríamos que a incúria e o desleixo humanos fomentariam a destruição terrível da vetusta igreja maior da nação gaulesa.

 

Eu, que gosto muito da França, seu povo, sua cultura, ali volto sempre que posso com minha Tereza.

 

Tenho, todavia, contemplado uma crescente decadência francesa, talvez por escoadouro dissolvente e consequente da degradação nacional, enquanto um estado membro unionista de uma Europa, em muitas estrelas congraçadas, gerando pouca luz e ralo brilho.

 

A França tem perdido a alma gaulesa, plantada cristã a partir do batismo de Clovis na Catedral de Reims, seus heróis e santos e pelos esforços de Carlos Magno, que barrou os infiéis sem ouvir o Olifante em Poitier.

 

Ali não mais se cultua  Joana D’Arc, a Donzela de Orleans, que baniu toda e qualquer desvantagem acontecida em Azincourt.

 

A nação fundada sob as preces e bênçãos de San Martin de Tours, San Gratien, San Gregoire, Saint Margarite Labouré, não mais se empolga pelo sangue vertido por seus valentes como l’Admiral Cologny, que tentara fazer no Brasil um pedaço francês, na ilha de Serigipe, muito menos por todos seus reis bons ou maus, Merovíngios, Valois e Bourbons.

 

Que dizer de Henri  IV, para quem Paris bem valia uma Missa, para melhor sanear ódios religioso, esquecido em estátua equestre contemplando o Sena?

 

Por acaso seus habitantes, asiáticos ou africanos, já quase em maioria, homenageiam os Imperadores gloriosos, o inolvidável Napoleão em conquistas e legislação espraiando-se mundo afora, numa Revolução das luzes, a partir de quem o mundo não mais seria o mesmo?

 

E o que dizer de outros heróis mais recentes como Clemenceau, “o tigre”, e De Gaulle, que jamais deixaria a auriflama gaulesa se extinguir, seus intelectuais e escritores; Lavoisier, decapitado num momento de negrura, quando ‘a República não precisava de cientistas’, Pasteur, Jules Michelet, meu historiador favorito, Victor Hugo, Dumas Père et Fils, doçuras de Marguerrite Yourcenar, arrebatamentos de poetas como Charles de Péguy e Claudel, Chateaubriand, Anatole France, Ernest Renan, Maurice Druon e Max Gallo.?

 

Não vem tudo sendo esquecido com suas Igrejas vazias?

 

Paris, velha Lutécia, se esfacelando a cada sábado por uma insatisfação generalizada com passeatas destrutivas de “giles jaunes”, os tais coletes amarelos que contemplam indiferentes a “Velha Senhora” sendo consumida em chamas?

 

E agora com as chamas, que tudo corrói em segundos, destruindo uma gótica construção de séculos, poderei eu revê-la de pé novamente?

 

Será ela reconstruída por um país que se auto imolo e desmorona?

 

Em tantas dúvidas e tristezas, penso valer a pena republicar em lágrimas o texto que segue abaixo.

 

Faço-o para que se somem às  minhas lágrimas o pranto de muitos como o dos amigos, Profa. Olga e João Barreto que compartilham um acendrado amor à cultura do belo.

 

 

A “Velha Senhora” pedindo socorro

 

 

Não consigo chegar a Paris e não cumprimentar a “Velha Senhora”.

“Velha Senhora”, é assim que chamo a Catedral de Nossa Senhora de Paris, a vetusta igreja, uma das mais antigas catedrais cuja construção data de 1163, e é um exemplo notável do estilo gótico.

Dedicada a Maria, Mãe de Jesus, a Igreja de “Notre-Dame de Paris”, ou Nossa Senhora de Paris, situa-se numa pequena ilha, chamada “Île de la Cité”, rodeada pelo Rio Sena.

Relatos mais antigos da história, em momentos tão primevos e nebulosos, quão perdidos entre o mito e a realidade, atestam que naquele local estratégico, a ilha da cidade de Paris, cercada pelo fosso natural do Rio Sena, existia um monumento memorial dedicado a um culto religioso professado pelos “Parísios” (daí o nome Paris, por origem), uma tribo celta que ali vivia.

Quando as legiões romanas comandadas por Júlio César invadiram as Gálias, cerca de 50 anos antes de Cristo, os “Parísios” se aliaram a Vercingetórix, o líder gaulês que resistiu à conquista romana.

Com a conquista das Gálias por César, os romanos batizaram a cidade dos “Parísios” como “Lutécia”, erigindo naquele local um templo a Júpiter, isso entre 53 e 52 a.C.

Posteriormente, com a decadência do Império Romano, ali fora construída uma das primeiras igrejas do cristianismo francês, a Basílica de Saint-Etienne, projetada por Childeberto I, o rei franco de Paris, um dos quatro filhos de Clovis com Clotilde de Borgonha, por volta de 528 d.C.

Não é estorvo lembrar, que Clovis, o pai de Childeberto I, é considerado o rei fundador da França e que isso aconteceu após o seu batizado e unção na Catedral de Reims, outra belíssima igreja gótica, local onde por tradição passaram a ser ungidos e entronizados todos os reis franceses.

Eu tive a oportunidade de em visita a Catedral de Reims, tirar uma fotografia junto á lápide central da igreja onde se lê ainda: “Aqui São Remi batizou Clovis Rei dos Francos”.

Há uma trilogia notável de Max Gallo, chamada “Les Chrétiens”, que narra a formação da nação francesa, nascida sobre o signo do cristianismo, que bem vale citar, a partir de três colunas fundamentais: São Martin de Tours, o primeiro evangelizador das gauleses, o Batismo de Clovis, bárbaro convertido que unificou as Gálias e se tornou seu primeiro rei, e por fim o frade cisterciense São Bernardo de Clairvaux, que entre outras coisas foi o inspirador de uma grande cruzada destinada à libertação dos lugares santos e o fundador de cerca trezentos e cinquenta abadias, de uma linha disciplinar severa.

São Bernardo também se celebrizou pelo debate teológico que travou com Pedro Abelardo, o grande amor de Heloisa, temas pertinentes às colunas da “Velha Senhora”.

A grande Catedral de Notre-Dame surgiu a partir de 1160 quando o bispo Maurice de Sully, achando tosca a antiga igreja romana advinda da Basílica de Saint-Etienne, resolveu demoli-la, erguendo a Catedral no mesmo local, utilizando o estilo gótico inicial, com inovações técnicas que permitiam formas até então impossíveis, a evidenciar destaque e prestígio encantadores que persistem até hoje, quase nove séculos depois.

A construção teve o apoio fundamental do rei Luís VII, com a participação financeira de todas as classes sociais do século XII, inspirada na Catedral de Saint Denis, outra bela igreja a merecer visitas, afinal ali repousam muitos reis da França.

Iniciada a construção em 1163, as obras de Notre-Dame se prolongaram até o século XIV, com vários arquitetos e operários se sucedendo imprimindo diferenças estilísticas.

Em 1182 o coro já permitia serviços religiosos. Depois surgiu a nave, as obras da fachada oeste com as suas duas torres, os braços do transepto, enquanto outras Catedrais eram construídas como a de Chartres, com seus vitrais magníficos, a de Reims e de Amiens.

A Basílica de Saint-Etienne, a Igreja de Notre-Dame e a Ilha da Cidade foram cenários de dramas reais e fictícios.

Entre os dramas reais estão aqueles vividos por Pedro Abelardo (1079-1142), pensador destacado que revolucionava o magistério na escola da Grande Catedral de Paris utilizando métodos que desenvolveu ao analisar diferentes pontos de vista em relação a uma mesma questão, resultando sua obra mais importante “Sic et non” (‘Sim e não’),

Abelardo afirmava entre outras coisas que a intenção era tão importante quanto o ato que dela emana, tendo travado célebre polêmica com São Bernardo de Clairvaux, citado acima, e outras autoridades da Igreja medieval, num tempo em que era perigoso contrariar interesses da cúria.

Colhendo muitas inimizades por causa da sua rebeldia e independência de pensamento, Abelardo, ao tempo em que colhia inimizades perante a ortodoxia ditada pela hierarquia da Igreja, angariava vasta simpatia dos seus alunos.

Abelardo apaixonou-se então perdidamente por Heloísa, sobrinha do Cônego Fulberto, que sabendo-a grávida, manda castrar o sedutor, dando um epílogo trágico a um dos maiores casos de amor da humanidade, com Heloísa entrando para um convento, onde pariu o filho, a quem nominou Astrolábio, enquanto o filósofo amargurado com a sua masculinidade emasculada, tomando os votos sacerdotais e se internando num mosteiro.

Pedro Abelardo e Heloísa trocavam cartas regularmente e hoje repousam no Cemitério de Père Lachese, jazigo que bem vale visitar. Eu lá estive prestando-lhes minhas homenagens no Dia de Finados, 2 de novembro de 2013.

Se o trágico foi real com Abelardo e Heloísa, a ficção fala também de outros desencontros tendo cenário a “Velha Senhora”.

Refiro-me à famosa obra de Victor Hugo: “Notre-Dame de Paris”, publicada em 1831, e também conhecida como o “Corcunda de Notre-Dame”.

A história passa-se em 1432 e se desenvolve na Praça da Catedral.

São quatro os personagens principais. Dois são jovens e belos; a cigana Esmeralda, que dança na Praça, e o soldado Febo, a grande paixão da dançarina.

Os outros dois são feios e terríveis: o Arquidiácono Claude Frollo, sinistro administrador da Catedral, e o infeliz Quasímodo, uma espécie de monstro, enquanto figura deformada em acentuada escoliose, nascido na grande Igreja, e que restara surdo por sua atividade de como sineiro.

Se Esmeralda é bela e inocente, sua beleza suscita atração e ciúme. É apaixonada por Febo, que a ilude, afinal ele próprio é noivo de uma outra moça.

Neste contexto de desejos arrebatados encenados na Praça da Catedral, Victor Hugo retrata o Pátio dos Milagres mostrando o contraste entre os desprovidos da sorte.

No Pátio dos Milagres circulam os carentes de todas as necessidades e os abonados da nobreza e clero, que convivem em meio a preconceitos de classe e explorações econômicas.

A fora isso acontece o amor terno do Corcunda Quasímodo pela bela Esmeralda e uma paixão pecaminosa entre o Sacerdote Frollo e a cigana que a ambos rejeita.

Se a rejeição a Quasímodo se deve a sua apresentação física monstruosa, logo Esmeralda nele percebe uma ternura nunca encontrada em sua vida. Surge uma relação de amizade e confiança entre a bela e a fera.

Quanto a Frollo, enlouquecido entre o amor a sua fé e a paixão por Esmeralda, termina por raptando-a e enclausurando-a na Igreja, surgindo vasta revolta do populacho, tendo Quasímodo no afã de proteger a cigana, restando um dos muitos monstros que camufla as gárgulas por onde escoam as águas da Igreja.

A Praça da Igreja também contemplou o martírio dos Monges Templários por Filipe IV, o Belo, em 1314, quando o último grão-mestre, Jacques de Molay e outros líderes templários foram queimados na fogueira.

Em verdade o processo de incineração aconteceu porque Felipe IV, no afã de concentrar a nobreza sob seu controle, tinha necessidade de recursos financeiros. Resolveu então espoliar os Cavaleiros Templários, contando com o apoio do Papa Clemente V, que referendou o processo que declarava os Templários como hereges a serem supliciado na fogueira.

Conta-se que na noite em que o grão-mestre Jacques de Molay foi queimado de dentro das chamas este pronunciou uma maldição que se fez funesta

Amaldiçoou o rei Filipe IV e sua descendência, o papa Clemente V e o ministro Guilherme de Nogaret, afirmando que estes seriam convocados perante o tribunal de Deus no prazo de um ano pela injustiça que estavam cometendo.

De facto, todos os três morreram dentro desse prazo. Afora isso, aconteceu naquela mesma noite o “Caso da Torre de Nesle”, de consequências terríveis para a dinastia capetíngia, quando as três noras do rei, que se aproveitando da ausência dos maridos que embevecidos assistiam o martírio dos monges, curtiam a noite em carícias com os seus amantes. Adultério que viabilizou por sequência o surgimento dos Valois como nova dinastia reinante, inclusive depois com a Guerra dos Cem Anos.

O tema do suplício dos Templários e as consequências do “Caso da Torre de Nesle” quando as três noras de Filipe IV foram envolvidas em um escândalo de adultério e crime de lesa-majestade marcaram sobremodo a história da França, com graves consequências na linha sucessória do trono francês.

Repercussões que estão bem narradas na saga “Os Reis Malditos” (Les Rois Maudits) de Maurice Druon, em seis volumes, uma leitura bastante agradável.

Apesar de seu destaque a “Velha Senhora” nunca foi palco da entronização dos Reis Franceses. Estes, por tradição iniciada com Clovis, sempre foram ungidos na Catedral de Reims.

Se na Praça frente a Igreja, até Robespierre encenou seu culto pagão ao “Ser Supremo”, apenas dois monarcas foram ungidos em Notre-Dame: Henrique VI o rei inglês que não vingou na monarquia francesa por conta das escaramuças guerreiras da Guerra dos Cem Anos, e Napoleão Bonaparte que coroou a si próprio, e à sua mulher Josefina, como Imperador e Imperatriz dos franceses.

Agora, leio nos jornais franceses que a “Velha Senhora” está a pedir socorro. O tempo e o desgaste está a exigir recuperação de sua estrutura e do vasto conjunto de esculturas e adornos.

Há necessidade de dinheiro, muito dinheiro, e os fiéis escasseiam.

A arquidiocese está a requerer ajuda até dos Estados Unidos. Algo que soa estranho afinal todos no mundo se colocam em repulsa à liderança americana, sobretudo agora com o Presidente Trump, ousando pensar mais em si do que no resto do mundo.

Neste contexto, há uma ampla reação à rejeição de Trump aos acordos climáticos de Paris.

Acordos que todos os países apoiam, mas que não o praticam, sobretudo o nosso Brasil, nosso Estado em particular, e o rio próximo que empesteia o nosso nariz.

É como a “Velha Senhora”. Está a pedir socorro porque lhe faltam os cuidados de seu povo, que no irrealismo agnóstico das luzes só vê surgirem mesquitas ocupando o espaço antes cristão.

É lamentável, mas verdadeiro!

 

 

 

 

 

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