Cinema e futebol: Lev Yashin, o goleiro dos sonhos

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Onesino Elias Miranda Neto

Mestrando em Cinema e Narrativas do Contemporâneo (PPGCINE/UFS)

Orientador: Prof. Dr. Hamilcar Silveira Dantas Júnior (DEF/PPGCINE/UFS)

E-mail: onesino@hotmail.com

 

Cartaz de divulgação do filme Lev Yashin, The Dream Goalkeeper, equipe CINEFOOT 12, disponível em: <https://cinefoot.org/filme/lev-yashin-o-goleiro-dos-sonhos/>

 

Ao assistir à obra fílmica Lev Yahin, o goleiro dos sonhos (Lev Yashin, the Dream Goalkeeper, 2019), de Wasily Chiginsky, no festival de cinema e futebol CINEFOOT 2021, me deparei com a figura icônica e símbolo da URSS, o goleiro do Dínamo de Moscou e da seleção de futebol da União Soviética, Lev Ivanovich Yashin (1929-1990). Alguns questionamentos me vieram à tona; entretanto, destaco aqui dois: o primeiro, a relação entre cinema, futebol e política abordada no filme russo; e o segundo, como o cinema pode contribuir para o resgate histórico de um determinado período. Faço-me valer aqui de uma breve análise fílmica diante das intertextualidades; neste caso, a história do futebol e seus imaginários, em que diversas reportagens ajudaram a construir a memória sobre esse jogador, ou melhor, goleiro, como é dito pelo personagem do longa-metragem.

A primeira grande dificuldade que percebo em entender a película de Wasily é a relação imbricada que tenho de fã do personagem principal da narrativa. Acredito ser, ainda, o maior arqueiro de todos os tempos do futebol e, atrelado a isso, a minha admiração política à imagem do Yashin. Porém, ouso-me a perceber a imprescindível contribuição cinematográfica e historiográfica desse filme. No mínimo, essa obra nos prende diante de um enredo simples, de recortes da memória dos acontecimentos, com técnicas de filmagens impressionantes e com uma fotografia linda. Contudo, Wasily consegue permear entre pontos relevantes na trajetória do goleiro. Além do grande destaque ao casamento e vivência familiar entre Yashin e Valentina Yashina, o diretor foca em dois pontos de grande valia: a política soviética em relação ao esporte, de forma sutil, mas contundente, e a paixão do protagonista ao único clube com o qual o goleiro manteve contrato, o Dínamo de Moscou.

Em passagens rápidas, contudo, incisivas, o realizador do filme implementa uma formação de narrativa para ressaltar a URSS e a política do país dentro da construção do “mito” Yashin. Em falas de ligação às relações sociais entre os colegas de futebol, o termo “camarada” é enfatizado; o jogo entre CSKA e Dínamo de Mascou é destacado para representar uma metonímia do país comunista, em que o primeiro é o time do exército vermelho e o outro é a representação dos operários das indústrias de base soviéticas. Outro ponto de grande destaque é a chegada da comitiva que acompanhava Yashin na partida de comemoração dos 100 anos do futebol inglês, em que Valentina, ao recepcionar seu esposo, comemora a notícia do jornal que o glorifica; contudo, o goleiro a retruca e diz “neste país só se elogia em festas”. Um momento decisivo do filme em abordar a propaganda política através da mídia da época é após a derrota da URSS para os donos da casa na Copa do Mundo de 1962, no Chile, onde é alegorizada a reação negativa da população diante da força dos meios de comunicação. Aliado a essas cenas, vem o momento romantizado da latente ligação de Yashin ao seu time de coração Dínamo de Moscou, representado imageticamente em um jantar em que quem aparece para oferecer ao defensor maior da seleção soviética de futebol um contrato em branco é o lendário representante do Real Madri, uma das maiores marcas do futebol mundial, Santiago Brenabéu, que lhe oferta o valor que o próprio Yashin quisesse para mudar de clube e morar na Espanha; então, em um diálogo cortês, o goleiro recusa a proposta.

O cinema já provou ao longo de anos como essa arte pode ser um importante instrumento pedagógico, histórico, mas, também, de resgate da memória. Ao falecer, em 1990, Yashin já tinha recebido diversas homenagens pelo mundo do futebol, haja visto que na época em que o goleiro atuou, imagens e documentações eram difíceis de serem realizadas. Muitos amantes do esporte, ou não, pouco sabiam, em alguns casos, nem tinham conhecimento de que existiu um goleiro na URSS que, além de significar a imagem publicitária do país, era reconhecido pelos críticos especializados como um dos maiores de todos os tempos. Assim, o cinema nos ajuda através do descortinamento desse período histórico. A proposta do cineasta Wasily foi muito bem alcançada nessa obra, com excelentes representações do passado, destacando os equipamentos esportivos (bolas, luvas, uniformes, campos de jogo, estádios, traves), os veículos e arquitetura da época, mas, principalmente, através da mise en scéne fomentada em diálogos simples, luzes bem equilibradas e atuações relevantes. Outra riqueza cinematográfica, as elipses significativas do filme, ventiladores em ligação às hélices do avião, o apagão diante de um chute no rosto sofrido pelo Yashin, esses efeitos do mundo audiovisual prendem quem está assistindo guiando-os para a compreensão do ídolo que foi o “aranha negra”. Tudo isso faz desse longa-metragem um contumaz objeto de deleite de cinéfilos, historiadores, pesquisadores do cinema ou simples espectadores.

 

Para saber mais:

GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Edição Atualizada. Porto Alegre: L&PM, 2018.

RONCOLATO, Murilo. Quem é Lev Yashin?. Ludopédio, São Paulo, v. 102, n. 3, 2017.

SOBREIRA, Vinícius. Doze fatos sobre Lev Yashin, o goleiro comunista símbolo da Copa do Mundo 2018. Brasil de Fato, Recife-PE, 05/04/2018, Esportes. Disponível em: <https://www.brasildefatope.com.br/2018/04/05/doze-fatos-sobre-lev-yashin-o-goleiro-comunista-simbolo-da-copa-do-mundo-2018>.

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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