Coisas desimportantes.

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Primeira desimportância.

Minha mulher me avisou. “Estamos precisando trocar o título eleitoral. O tempo já está se esgotando; é o que diz a televisão”.

No noticiário internacional, a França realizou sua eleição parlamentar em dois turnos.

Ali a votação é opcional e o noticiário falou que houve uma abstenção de 52,5%, salvo engano. Coisa de povo inculto e impatriota.

Aqui, como o voto é obrigatório, alguns como eu e minha mulher têm que trocar de título.

Atualiza-lo, porque a justiça eleitoral, aquela mesmo que “absolve a corrupção por excesso de provas”, entendeu que uma reforma foi necessária objetivando um gasto mais eficiente dos recursos públicos.

E porque haverá uma grande poupança nacional, as armas e os barões foram convocados para desbastar os arquivos eleitorais com a introdução e atualização de novos dados destinados ao lixo.

Fomos, minha mulher e eu, à Rua de Itabaiana, sede cartorial onde nos deram uma ficha para idosos, cuja numeração indicava estarem vinte pessoas à nossa frente.

Atendendo os idosos estavam duas mulheres, simpáticas e eficientes, todas duas.

Depois chegou mais um atendente, um homem desta vez, mas que pouco entendia da rotina computacional, atrapalhando as duas mulheres, a requerer explicações. De forma que ficamos de castigo por duas horas, algo que seria incompatível com a legislação municipal sobre atendimento em filas bancárias.

Se no banco a conta pode ser adiada a depender da morosidade do atendimento, no cartório eleitoral o abandono de uma fila é a certeza de que em outro retorno a espera será bem maior.

Mas, como eu estava com minha companhia predieleta, as duas horas permitiram que eu avaliasse a tolice deste recadastramento eleitoral, tema que merece minhas tolas interpretações.

Sou do tempo em que o Título Eleitoral continha alguns dados do eleitor, sua fotografia 3×4, em preto e branco, tirada no foto-oití da Praça General Valadão.

O título era simples: tinha a numeração, a Zona, a Secção eleitoral, a assinatura do eleitor e até uma borração digital irreconhecível.

Hoje reconhece-se tudo. Só falta arquivar um sumário fecal, uroretral, com ampla imageologia neurovenal. 

Sem qualquer venalidade implícita ou explicita venialidade, o eleitor tem que declinar o número de sua Carteira de Identificação, dada pelo órgão competente da Secretaria de Segurança Pública, o Número do CPF, o endereço, os telefones para contato, não sei se o email foi requerido, a fotografia digitalizada e até as impressões digitais também digitaliazadas.

A justiça eleitoral está armazenando um monstruoso banco de dados de desútil proveito, mas que se violado será de notável serventia à marginalidade, porque ali se encontra até a assinatura do eleitor, tambám digitalizada.

Devo dizer ainda que, no meu caso particular, o skaner não conseguiu reconhecer nenhuma das impressões digitais da minha mão direita.

Não sei se por culpa da máquina, incompatível com a contextura das papilas dos meus dedos, ou porque no meu caso a apreciação datiloscópica está a exigir uma maior pesquisa, foi impossível confirmar a biunivocidade entre o individual que sou eu, e o coletivo, enquanto ainda persistir humano.

Minhas impressões digitais embora aceitas, não foram de todo reconhecidas.

Excedentes tentativas foram repetidas, usando pastas e papéis, em esfregaços e limpezas excessivas.

Não teve jeito. Cheguei a pensar que eu já não mais existia, não como eleitor, mas como ser humano, simplesmente.

Finalmente saiu o título. Não mudou nada. Não tinha foto, não tinha impressão digital, endereço e telefone, nem falar.

Parece que irei votar no mesmo lugar, mudando apenas a numeração da Zona Eleitoral. Eu era da 36a , agora sou da 2a. Uma glória!

Minha secção era a 81, agora sou da 472. Uma coisa tão simples de se fazer por uma aplicação matémática que qualquer jejuno da informática poderia refazer, até com a linguagem DOS, obsoleta, sem qualquer incômodo para a populacão.

Mas, estou feliz. Já estou como meu Título Eleitoral, novo em folha. Já estou apto a votar, novamente.

Estou mais feliz que os franceses, porque nós sabemos melhor escolher os nossos líderes.

Segunda desimportância.

Saindo do cartório eleitoral fui à Caixa Econômica Federal. Precisava retirar um certo valor e resolvi utilizar um cheque.

A surpresa veio na hora. O gerente me avisou que aquele cheque fora clonado.

Alguém em São Paulo o descontara no valor de R$846,00, nominado a uma Ana Gallego, figura que o resgatou, depositando em conta própria.

Pela cópia digitalizada do cheque, observa-se que alguem teve acesso à minha assinatura e a falsificou, a ponto de iludir os funcionários da Caixa.

De imediato, devo dizer que sem transtornos ou resistências o banco reconheceu a fraude e procedeu o estorno da quantia surrupiada.

Acontece que analisando a cópia do cheque, observa-se duas coisas.

A primeira trata-se de uma falsificação, senão grosseira da minha assinatura do cheque, mas um desenho que pode bem comfundir um desavisado observador. Até porque hoje é bem comum e que sempre será possível em todos os quadrantes da Terra.

E aí eu me volto à digitalização explicitada acima na renovação do meu título eleitoral, afinal estes bancos de dados estão bastante comuns, espalhados mundo afora, e nunca o sabemos se restarão seguros ou facilmente violados.

A segunda é que a folha do cheque falsificado demonstra um procedimento grosseiro da numeração e identificação pela qual a CEF, em tese, tem que dar fé e certidão da sua documentação. E deu, afinal houve o estorno, sem discussão.

Mas é preciso chamar atenção, porque ali se constata uma impressão sebosa, malfeita, desalinhada, com os números se sobrepondo uns aos outros.

Uma cópia grosseira da impressão do próprio cheque, a evidenciar que houve um erro de avaliação e controle do setor competente da Caixa, que está sendo iludida por marginais.

Valendo, portanto, a observação, para mim também, que preciso prestar mais atenção às coisas da minha circundância.

Por acaso não estamos cada vez mais reféns destas figuras espertas que sobram risonhamente impunes?

Tereceira desimportância.

Setores técnicos da Setransp fizeram a reconstituição do acidente que vitimou a jovem cantora Eliza Civia, vocalista da Banda Cavaleiros do Forró, e seu marido Sérgio Ramos, que morreram de mãos dada atingido por uma forte pancada de um ônibus que estava na via preferencial.

A empresa de ônibus declarou que o caso foi uma fatalidade.

A ciadade ficou estarrecida. Virou até noticiário nacional com a exibição gravada em vivo e a cores a evidenciar que o ônibus não teve culpa.

O culpado, disseram rápido, foi o carrinho que não obedeceu o quebra-mola e o sinal de pare que o alertava para não avançar na rua.

Dito dessa maneira, já estava tudo resolvido.

Mas, não é tanto assim. Tanto que uma perícia foi executada.

Quer-se provar que o ônibus estava mais certo que o próprio vídeo, afinal os coletivos sempre são moderados nas suas velocidades, tanto que os tacógrafos lhes são desnecessários.

Se os tacógrafos são inconvenientes para as Empresas de Auto Viação, seus motoristas e até para os sindicatos que os protegem e representam, porque não apagar também as câmaras alcagüetas que flagram o erro de tantos motoristas que dirigem suas viaturas como bólidos incontroláveis?

Não é assim que se comporta a população abusando da velocidade nos seus carros?

Se nas ruas a velocidade não deve ser superior a 40Km/H, nas Avenidas citadinas, preceitua o código nacional de trânsito que a velocidade máxima deve ser de 60Km/H.

Isso para carro pequeno, moto, bicicleta ou velocípede.

O incrível é que o limite é igual para caminhão, jamanta e ônibus. Não interessa a inércia e o desembesto.

Desembestos à parte, se não houver uma placa explicitando a velocidade máxima permitida, a determinação genérica vira mera sugestão de letra morta.

Se houver um fiscalizador eletrônico para flagrar o abuso, este fica por conta da obtusa rejeição à modernidade.

Os carros podem desemfrear imponderavelmente segundo a força e o torque de suas cilindradas.

Ninguém os pode flagrar no erro e lhe atribuir uma sanção qualquer, muito menos algo que se faça coativa, que atinja o bolso do infrator.

É quando a multa, tão benéfica, educativa e necessária vira uma mera busca de receita.

Receita de quem, cara pálida, do cidadão comum, aquele que se faz obediente à regra?

Por acaso não seria benéfico para a população em geral, que os tacógrafos existissem e funcionassem, e que censores de velocidade fossem reproduzidos em cada esquina?

Pensar assim é ser retrógado?

Para que imitar o tráfego de Manhattan, de Londres, Paris ou Berlim, com seus tráfegos lentos e morosos, com gente infeliz sem poder pensar em exceder uma polegada a mais em suas velocidades?

É questão de educação, diz-me um circunstante.

Só se for “educassão”, digo eu, como sinonímia de excedente falta de vergonha.

Aqui a Setransp quer educar o motorista com batucada e palhaçada, coisa de circo, logo quando picadeiro vingou fora de moda. Era assim na prefeitura que saiu e continua, talvez com os mesmos canastrões remunerados.

Enquanto isso, descumpre-se tudo; do tacógrafo, ao semáforo desrespeitado. Do estacionamento proibido e assaz desobedecido, à fila dupla, ou tripla, de onibus iclusive, derrubando o infeliz passageiro no meio da rua.

Estou a dizer algo irreal, inusitado ou surreal?

O real para mim é que os desmandos acontecem e vão persistir; sem tacógrafo, sem a boa multa aplicada por necessária, com os deseducados no trânsito reinvindicando “educassão”. Só isso: “educassão”. Com perícia impotente para flagrar a imperícia e muita batucada. Ora essa!

Em tanta deseducação e falta de atenção, este foi o meu tema abordando coisas desimportantes.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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