Com a leveza e a beleza dos deuses

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Escultura de Nossa Senhora da Conceição

Zeus, tu és soberano dos céus, mestre dos fenômenos naturais que comanda os corpos celestes e faz tremer o universo com um gesto de tua cabeça. Teu nome deu origem à palavra deus e mesmo com todas as tuas contradições, tu és o rei dos deuses, apesar de não seres justo sempre. Justiça é algo que ocorre entre iguais, e Zeus está acima de todos. O nosso “Zeus”, o Zeus sergipano, tem sua obra espalhada pelo mundo, em esculturas divinas.

Conheci a arte de Zeus na década de 90, graças ao memorável Dinho Duarte, que tão jovem partiu dessas paragens levando uma boa parte da nossa arte mais fulgurante. Na virada dos 90 para o novo século estávamos às voltas com projetos memoráveis, que culminou na instalação do Cantinho da Arte da Unimed, um espaço alternativo para a difusão da arte e da cultura em nosso Estado, mais notadamente em Aracaju. Através da iniciativa e do trabalho dele, em parceria com Ilma Fontes, abrimos as portas da cooperativa para diversas manifestações artísticas e o “cantinho” foi a ação mais esplendoroso do Programa  Unimed Cidadã. Muita gente envolvida. Ismar Barreto e João Alberto fizeram o gingle, Dinho e Ilma Fontes abriram caminhos para os jovens iniciantes, vieram os catálogos impressos, entre eles o Catálogo dos Artesãos. Nele estava Zeus, com toda a sua maestria. Mas tinham outros…Melquíades, Véio, Dona Judite, João do Cesto, Pedrinho Ará,  Maria Lúcia Ribeiro, Cristina dos Santos, Alzira,  Hercílio…

O Cantinho da Arte, enquanto durou, trouxe expressiva colaboração para a disseminação de jovens talentos, não só nas artes plásticas, como também na literatura e na música. Mas não é o Cantinho da Arte que queremos destacar aqui. Queremos falar de Zeus…

Visitava recentemente um parente numa casa na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, quando observei no jardim da residência a escultura de um santo talhado em cedro, de uma beleza fulgurante. Frente a minha admiração, o morador provocou: – É da sua terra! Retruquei-lhe: – Como? O santo? – Não, o escultor, olhe a pedestal! Leia quem esculpiu o nosso Frei Bento. Estava lá:  Zeus. Arrematei: – Deus!

Neste mês de março, o governo de Sergipe inaugurou uma exposição para celebrar os 164 anos de Aracaju, quando revi Zeus participando da coletiva e contei-lhe sobre o meu achado. Ele lembrou: – Foi uma encomenda do querido amigo Dinho Duarte para presentear seus tios que residiam naquela cidade, mas não me lembrava mais disso. Ficou feliz com a minha observação. Fiz um comentário em redes sociais sobre o episódio e logo em seguida fui provocado pelo confrade Amaral Cavalcante, da Academia Sergipana de Letras: “você colocou o nosso Zeus na pauta, é um extraordinário artista, tão pouco reverenciado por seus conterrâneos, converse mais com ele”, instigou o editor de Cumbuca.

Marcamos então o encontro. Na Galeria Álvaro Santos, ponto central da cidade. No horário marcado, chegamos. Ao entrar, deparamos com um cenário desolador, no salão principal, nenhum quadro na parede, uma pessoa na escada preguiçosamente jogando tinta na parede. No centro da sala, na pequena carteira, do tipo escolar, um homem olhava para o serviço, com cara de poucos amigos. Era Luiz Adelmo, olhar abatido. – Não podemos ficar aí, Luiz, o cheiro da tinta está muito forte, disse-lhe, apelando para a minha autoridade médica. Um pouco a contragosto, aceitou sair dali e na saída, em frente a uma escultura de Zeus, ao lado do autorretrato de Álvaro Santos, exclamou: – É a obra de um homem que nunca me faltou, quando dele precisei. Convidei Luiz para participar da nossa conversa, mas ele alegou um compromisso no Banese. Caminhamos na direção do nosso carro estacionado na frente da antiga sede da Prefeitura de Aracaju, mais um prédio histórico de Aracaju que vai se esvaindo em ruínas, um pedaço da platibanda que cai aqui, outro ali. Soube que a UNIT vai tomar posse do prédio para instalar um memorial, mas é bom que não demore!

Dali saímos para o café do Museu da Gente e na entrada nos deparamos com várias esculturas de Zeus, no átrio, no salão principal; a “Maria Bonita” que está à venda na lojinha é de uma beleza primorosa e invulgar. Sentado numa das poltronas do salão, Murilo Melins, deixava-se contemplativo, observando o entra e sai dos visitantes. Ao nos ver, exaltou Zeus, como uma reencarnação dos escultores gregos! Saboreamos água de coco e café.

Adriana Hagenbeck, que exibe na escrivaninha antiga de seu Café uma linda escultura de Zeus, chegou na nossa mesa dizendo que o que mais admirava no escultor, não era o artista, era o homem, o seu caráter, simplicidade, bondade, “que não se deixa levar por títulos, prêmios ou homenagens, mas vive a sua arte, sem vender a sua alma”, reforçando o seu lado lúdico que passei a admirar.

Fui na busca dos registros, explorar a sua arte, sua história, sua vida, que ele próprio não se sente à vontade pra falar, talvez  pela timidez e pude então constatar seus feitos, as publicações, as notícias dos jornais, como aquela que registra a Nossa Senhora que o governo de Sergipe presentou a primeira dama do Brasil, esposa de um presidente do regime militar em visita ao Estado, as exposições individuais e coletivas, a exposição “Zeus – do lírico ao sensual”, na Sala do Artista Popular, promovido pela Funarte no Rio de Janeiro, em 1997, uma vida dedicada à arte.

O nosso Zeus é o soberano da terra, oriundo da pequena Ribeira, tão formosa Ribeira, em Itabaiana, onde nasceu em 1959 e que abrigou outros talentos, como Caã, filho de J. Inácio, que lhe deu o codinome Zeus, quase um presságio do que viria a ser o jovem Jorge Alves Siqueira.

Um homem de atitudes simples e de alma livre, que não se adaptou ao burburinho e ao tipo de vida das cidades, corrida e competitiva. A Ribeira, que viu crescer o menino e adolescente Zeus era um pequeno paraíso, um lugar privilegiado pela natureza, com seus riachos intocáveis e pequenas quedas d’agua, o ar puro e o canto dos pássaros. Um cenário perfeito para os artistas, o mundo de Deus para Zeus. Um lugar que seduziu Caã e outros artistas na busca de inspiração.

O gosto pela escultura veio da admiração pelo irmão mais velho, Jorge Valdo, um arteiro completo, que fazia de tudo e jamais saiu da cabeça de Zeus os carrinhos de brinquedo criados pelo irmão que, infelizmente, após sofrer um grave acidente, o afastou da lide. “Não tinha o mesmo pensamento do mano Jorge, embora reconhecendo nele um grande talento, eu o achava muito preocupado em logo querer vencer na vida, de reconhecerem a sua arte”, disse-me Zeus. Jorge Valdo foi então para São Paulo e, infelizmente, terminou perdendo a sua arte na selva de pedra, engolido pela metrópole.

A cidade de São Cristóvão, além da Ribeira, exerceu sobre o artista uma influência notável, que o fez enveredar pelo tema sacro. Com seu estilo inconfundível, tanto na madeira como no arenito, do seu esculpir nasceram santos e corpos nus de extrema beleza. Além dos temas sacros, Zeus criou o sertanejo na labuta diária e exaltou outras figuras típicas do nordeste, como o vaqueiro, o cangaceiro, o lavrador,

Sua obra ímpar extrapola as fronteiras de Sergipe e do Brasil, colocando-o no patamar dos maiores nomes das artes visuais na atualidade. Em Zeus, a felicidade reside nas pequenas coisas, na simplicidade, nadar no Rio São Francisco e andar de pé no chão. Vê na arte a oportunidade de reverenciar os seus santos, os seus valores cristãos. Para ele, “a escultura é uma arte muita sofrida, penosa, onde as pessoas dão pouco valor”, desabafa, num raro momento de tristeza. Sim, porque na maior parte do tempo, Zeus vibra com o que faz, sem demonstrar vaidade, orgulho ou prepotência, ao contrário, esconde-se numa simplicidade e humildade franciscanas.

Para o historiador Luiz Antônio Barreto, poucas vezes um nome de artista simbolizou tanto o movimento das artes em Sergipe como o de Zeus, que é escultor de anjos e de santos, mas que é, também, artista da paisagem seca que, de tão áspera, parece uma abstração da natureza, uma natureza-viva, madrasta, algumas vezes impiedosa com os viventes.

Zeus é artista singular, porque sua arte, apesar de poder ser contextualizada na esteira do magistério religioso, tem o poder de manter-se viva, forte, inspiradora, revelando um artista que domina as emoções motivadoras, da mesma forma como sabe utilizar a consciência e a responsabilidade do fazer cultural.

Zeus trafega da obra artística para a referência da cultura que a nação nordestina tem na alma, como herança e como identidade.

Igual ao Zeus mitológico, o ceboleiro Zeus é pleno de amor. Amor pela sua terra, pelo sertão, pelo rio, pela família, seus filhos, Abraão, Zélia e Zeus, pela sua arte, única, lúdica, que invade os nossos corpos com a leveza, a sutileza e a beleza dos deuses.

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