Com dor, mas tentando prosseguir.

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Os poucos leitores que me acompanham sabem que eu procuro servir-lhes com algo útil, alguma coisa para pensar, desafiar-lhes o raciocínio, cansá-los algumas vezes

Outras vezes os decepciono em minhas escolhas porque ironizo as de outros.

Enfim, procuro me exibir sem sonhos nem desejos, sendo eu mesmo, sem me empolgar por correntes e facções.

E, sobremodo, é bom que seja bem explicitado, porque jamais estive, nem estou vocalizando interesses.

Entendo, como Nelson Rodrigues, que toda unanimidade é burra, e nos atuais tempos vivemos um período de unanimidades emburrecidas.

Sobretudo com excessivo noticiário de Lava-Jato, enaltecimento de novos “arcanjos de Deus”, só para lembrar que cada tempo tem os seus profetas e taumaturgos, em muitos condutores de cegos nas demandas ao abismo.

No abismo comum, estou a ver os da minha geração partindo, um a um, como frutos de uma penca que apodrece sem amadurecer de todo.

Sou de uma geração de frutas pecas de parca criação.

Isso desde a juventude equivocada entre os sonhos coletivistas e igualitaristas de uma fraternidade almejada e que foi, graças a Deus, desbastada a cacete.

Um cacete brando, insisto eu. Eu conheço um pouco da história dos povos. E a nossa é de muita falta de vergonha, até para se fazer uma análise imparcial do passado.

Mas, meio mundo de gente, sobremodo os de boas falas e letras, afirmam que sofremos terrivelmente nos chamados “Anos de Chumbo da Ditadura Militar”.

Para estes, melhor teria sido que nos idos de 1964, um líder como o comandante Fidel estivesse a cavalo cruzando o Rio Paraibuna.

Teríamos um grande condutor de lá para cá, legando-nos, quem o sabe, um irmão como o Raul, charuto à mão, a vergastar um mangual necessário, por sessenta anos.

Infelizmente para tantos, e felizmente para todos, o comandante fora um General tido na caserna como um “biruta” ou “porra-louca”, o General Mourão Filho, auto definido como “vaca fardada”.

Fora ele quem deflagrara um movimento com recrutas e se fizera tão rapidamente vitorioso, que ao conquistar o Ministério da Guerra, na Avenida Presidente Vargas, no Rio, o despojo lhe fora surripiado, por patente superior, hierarquia já aplaudida pela politicalha nunca vista como canalha.

Ah! Canalhas! Quantas batalhas viraram borralha, sem mortalha e sem metralha!

É quando eu lembro dos versos de Castro Alves, condor da praça:

“Auri verde pendão da minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança.
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas de esperança.
Tu que, que da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança.
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…”

E mais:

“Existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! Meu Deus! Mas que bandeira é esta,
Que imprudente na gávea tripudia? “

O poeta falava de vergonha.  Vergonha da escravidão negra é verdade!

Éramos, no seu tempo, uma das últimas nações do mundo, uma terra cordial, pelo menos nos imaginamos assim desde então, em que a mão de obra africana era importada à força em navios tumbeiros.

Diziam, em palavras antanhas, que o custo Brasil não podia prescindir da tacanha força negreira, deste elemento servil necessário, por patranha.

Quase igual ao que se vê agora em tantos empresários dissertando benesses tamanhas para seus empregados, exclusivamente,  com novas reformas das relações de labor em prenúncio de “pejotização”. Nova Lei Áurea, em que uma mais-valia de pirita, aquela que sempre desdoura o sonho dos tolos, está sendo vendida como ouro imprescindível.

E haja dolos, embelezando com pirita a nova Lei.

“In nome de uma migliore fruizione del lavoro”, mata-se a Itália, fulmina-se a CLT, tornada a “Gení de Vargas”, por inspirada na “Vecchia Carta del Lavoro” de origem fascista, recusando de lá para aqui, o pensar de Gramsci, moderado comunista, de Bobbio, notável socialista, preferindo loas à Berlusconi, et caterva de sucuri.

Venenos à parte, sou resistente a tantas reformas pregadas pelas nossas classes produtoras.

Já vivi muito, repito, estou a ver minha geração “baby boomer” partir, ir embora sem carpição, tendo construído pouco, e destruído sobremodo.

Vejo o país cada vez pior e aqui ninguém recebeu um petardo de explosão atômica na cabeça.

O remédio para nossos males é o mesmo, todo mundo o prega, assim mesmo; o Estado tem que bancar tudo! E sem pagar imposto!

“Pagamos imposto demais! “, falam os ricos, sobretudo aqueles cujo salário mensal desafiam tetos constitucionais.

Alguém, no noticiário da semana, falou em aumentar o Imposto de Renda para os que auferem ganhos acima de Vinte mil Reais por mês.

– É um escândalo! Uma Derrama! – Restou por Eco, ou équo, do Caburaí ao Chuí, do Moa na Serra de Cantamana até a Ponta do Seixas, no litoral.

De Norte a Sul e do Levante ao Poente falou-se de uma nova “Conjuração Mineira”, talvez a procura de um Tiradentes como bode expiatório nestes tempos tolos de intempéries “temerários”.

“Temerário” é o nosso novo palavrão, anedota depreciadora, em substituição àquelas ligadas a Lula, considerado “apedeuta”, e a Dilma, vista como “presidanta”.

A notícia, como tudo que é sério e não conduz mote de gracejo, morreu logo no nascedouro, igual à cobrança do Clero e da Aristocracia em prévias de Revolução Francesa.

Ah! A França! Quantos erros cometidos em catarses sem lições!

Sobretudo no Brasil, em que todos acreditam que o Estado, por “decisão política” pode saciar todos os desejos; o almoço gratuito para os desdentados, os juros subsidiados para os de afiada dentadura, benesses variadas de estabilidade e garantia para o serviço público, etc, etecetera e tal, e o escambal.

Nomezinho que eu gosto: escambal ou escambau! Fica a escolha a critério do leitor ou do corretor, aquele que mal escreve e corrige pior.

Coisa de esculhambação mesmo! O verdadeiro verniz que se não lustra a barata, devê-lo-ia.

Sobretudo a barata estroina, e o barato, sempre desejado que se faz caro!

Com o Brasil falindo agora, no melhor dos mundos, em plena democracia, quando se pode derrubar Presidentes sem quartelada nem cornetada, mas com qualquer algaravia.

Mas, o que é algaravia?

Que os dicionários sejam consultados: Alguém por acaso entende as derrubadas de Presidentes, por aplauso de panelas e cusparadas de galeras, coisa de torcida burra, desembestada?

Ah! Foi-se o tempo em que a solução do país passava por eleição diretas para Presidente.

Tinha até uma camiseta que abestados exibíamos nos comícios pelas “Diretas Já”.

Não se sabia então. Era o princípio da agitação nossa, comum e rotineira.

Quanta gente ruim surfou nessa onda! Desde 1968 na França e em rebarbas aqui.

Vingou até um monumento tolo na Praça do Povo; sob o céu e ao léu, mas sem o seu candor.

Quanto à minha geração;… estamos tentando prosseguir, ainda.

Agora em asados raros de Condor; com dor aqui, com dor ali, com dor de ver o país que não se faz águia em tantos voos toscos de perus. 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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